Vários corpos estavam espalhados pelo chão e, no universo paralelo de Peter, nada disso deveria ter acontecido. Só que, convenhamos, em seu mundo de medo, só o triunfo de matar o energizava, o deixava viril.
Os Ignisalbus sobreviventes ateavam fogo nos corpos das criaturas mortas. Escureceu e naquele breu Peter sonhou.
Havia um segredo: um novo mundo. Uma nova forma de viver. Através de um espelho Peter viu a própria imagem projetada num lugar estranho. O coração pulsava em seu peito, querendo abrir caminho. Uma garota jazia deitada ao chão, suas mãos estavam manchadas de um vermelho denso. Seu corpo era uma caricatura morta e o seu rosto... Seu rosto era um borrão, onde não era possível enxergar nada. Peter vincou a testa, não entendia o que estava acontecendo. Queria poder tocar na garota, queria sentir aquele sangue em suas mãos, mas existia um bloqueio que o impedia de qualquer movimento.
Ainda parado, com o maxilar retesado, Peter serrou o punho direito, respirava com dificuldade. Quando elevou o olhar, uma multidão de garotas marcava a sua presença na arena; rostos diferentes, cores diferentes, porém todas usavam a mesma roupa, andavam no mesmo passo, feito robôs de uma nova era nuclear.
Ele sentiu dor, no entanto sorriu ao ver o que estava em sua mão esquerda. Sorriu ao sentir a pulsação do coração em sua mão. Ele tinha conseguido, tinha conseguido salvar a sua vida. Peter direcionou o seu olhar para frente, a luz era baça e os passos só faziam aumentar.
Peter se perguntou o que faria agora, que rumo levaria sua vida, uma vez que o coração estava em suas mãos. O garoto procurou por Ethan, mas não o encontrou. Procurou por Kyle, por Cath, ou por qualquer ser vivo que ele conhecesse, naquele emaranhado de garotas-robôs. Porém, toda essa persistência se esvaiu. O que ele faria com o pedaço de carne pulsante em suas mãos?
Desespero.
Ele só precisava ser calculista. Como poderia Peter liderar uma nação de seres tatuados, se nem sabia o que fazer com um simples coração?
O que Peter não entendeu foi o porquê dele estar parado diante de um espelho e estar, ao mesmo tempo, dentro da imagem do espelho, segurando um coração. Seria um sonho dentro dum sonho?
Peter caiu de joelhos e colocou o coração no chão, que pulsava em desalinho. Enquanto isso, seu outro eu assistia à cena sentindo uma tensão desnuda. Houve um barulho atordoante e Peter tapou os ouvidos. O vento soprou as folhas secas, fazendo algumas colarem na viscosidade do coração, outras afundaram na poça de sangue que crescia feito uma onda, invadindo a cidade.
“Você tinha uma escolha Peter, no entanto você não soube usá-la. És o único culpado pelo que aconteceu. São inevitáveis as catástrofes, quando escolhemos errado, agora só me resta lamentar e rir, pela triste conclusão de que és um idiota.”
Ele ficou completamente atônito, ao perceber que a voz vinha da garota que lhe passara a impressão de estar morta. Mas, ao colocar a mão em seu próprio peito, sobre a camisa preta, sentiu seu corpo molhar-se e, quando olhou para a palma de sua mão, viu o sangue. Só então percebeu que o sangue provinha dele próprio, era a cavidade em seu peito que derramava o sangue de uma escolha errada e completamente inútil.
“Todas as coisas me são licitas; mas nem todas me convém”, gritou a garota no chão. Peter ainda não conseguia ver o seu rosto.
Peter sentiu dor, olhou para o enorme buraco em seu peito, viu o coração perdendo os batimentos junto ao escuro em que se perdia.
Já era noite quando acordou. Peter tentou encontrar o significado do sonho, porém tudo o que conseguiu foi remoer palavras, amadurecer o conceito de uma escolha errada.
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O último Adão
FantasyQuais mistérios um garoto aparentemente comum pode carregar consigo? Quão rapidamente sua rotina pode virar uma aventura alucinante? Essas e outras perguntas atravessaram o caminho de Peter, cuja vida monótona escorregava entre seus dedos enquanto f...
