Respire. Foque. Lute.
Esse era o mantra que Gabe me ensinara diariamente durante as últimas semanas. Nossos treinos estavam cada vez mais intensos, minha resistência estava melhorando, mas meus pulmões ainda ardiam com minha bronquite que parecia não ter cura.
Mal havia me recuperado de um golpe deferido por Gabe e um novo vinha em minha direção. O bloqueei e contra-ataquei, o acertando. Confesso que isso me deixa muito orgulhosa, mas nunca parecia bom o bastante para meu namorado.
- De novo! - Gabe ordena.
Meu corpo estava exausto, suava como louca e senti que não aguentaria mais, honestamente achava que cairia feito jaca podre a qualquer momento. Ele notou meu olhar cansado, mas ignorou.
- Respire, foque, lute! - Gabe fala com olhar de determinação.
Tento achar mais força dentro de mim, mesmo suspeitando que após uma hora e meia de treino ela já tivesse se esvaído. Sou atingida por uma avalanche de golpes.
- Você não está respirando! - Gabe me adverte, sem parar com sua sucessão de movimentos.
Falar era fácil... Se me distraísse por um segundo, mesmo que fosse para realizar uma função biológica básica, como respirar, eu seria atingida e cá entre nós, doía como o inferno.
Enquanto pensava em não apanhar mais, levei uma rasteira, quando dei por mim estava estatelada no chão.
- Você também não estava focada! - Reclama Gabe.
- Estava o mais focada possível! - Rebati ofegante e irritada.
- Não é bom o bastante! - Ele suspira pesadamente e começa andar de um lado para o outro, enquanto eu continuo no chão. - Um caçador ou sugador não vai te dar moleza só porque você é menina, ou porque é nova, ou porque tem bronquite... Eles vão matar você, se der essa chance a eles.
- Eu sei! - Respondo cansada daquele sermão.
- Vamos encerrar por hoje! - Ele diz mais brandamente, me deixando sozinha na sala.
Isso me irrita, pois significa que ele está decepcionado. Não falo nada e só tento me mexer vários minutos depois. Por mim ficaria por ali mesmo, mas logo os alunos chegariam para a primeira aula do dia e logo a sala estaria lotada. Consigo sentar e fico ciente que o tatame abaixo de mim está todo suado. Me obrigo a ir tomar um banho. Minhas pernas tremem, me sinto levemente tonta e emocionalmente esgotada. Deixo a agua quente suavizar minhas dores musculares por alguns minutos. Queria sair dali e me jogar na minha cama, mas ao invés disso tive que me arrumar para trabalhar. O cansaço é tamanho que quando dou por mim, estou enfiada na minha cama, me permito um relaxante muscular. No outro dia tenho que ir para a escola.
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Ana e eu estávamos sentadas, na sala da diretora, aguardando-a lançar nossas notas. Perdemos muitos dias de aula por causa do suposto sequestro da Ana, e tia Su convenceu a diretora a nos deixar fazer os exames finais depois da turma toda, e estávamos ali, esperando para ver se reprovaríamos ou não.
O engraçado era que reprovar ou passar, não era o que passava pela minha cabeça no momento, já fazia uma semana desde aquele bendito jantar e as palavras do meu pai ainda ecoavam na minha cabeça: "Gosto de caçar... Não recentemente, mas um caçador é sempre um caçador, achar a presa é questão de tempo".
Será que meu pai sabia sobre Gabe ou Danny? Se sabia, por que não fazia nada a respeito? Que tipo de coisas estava tramando?
Dei um grande suspiro, senti os olhos cor de mel da Ana me encarando, sabia que ela estava apreensiva por causa das notas, sabia também que ela achava que meu suspiro era por causa disso, e era melhor assim.
Além de todas as preocupações que Gabe e meu pai me traziam, mais uma coisa não saia da minha mente e consciência: Eu matei um homem.
Tinha dezesseis anos e era uma assassina, de uma certa forma não me arrependia de ter matado Michael, no final das contas ele teria me matado, ou Gabe, ou Ana... Mas, ele era tão mau assim?! No lugar dele eu não teria feito à mesma coisa?! Querer matar e ferir aquele que levou quem eu amava... Me parecia até cabível. Isso me tornava o mesmo monstro que sempre supus que Michael era?!
Não sabia como Ana conseguia lidar com aquilo tudo, talvez fosse eu que não soubesse lidar com nada. Estava com os olhos perdidos na mesa da diretora, olhava para as nossas provas, espalhadas em sua mesa, mas diante dos meus olhos, só vinha à imagem de Michael, me encarando, assustado e sumindo diante de minhas mãos.
Me assustei quando senti a mão da minha melhor amiga, sob a minha, ela estava me dando apoio e precisava disso, muito.
A diretora nos olhou, retirou os óculos do rosto, apertou os olhos com uma das mãos, e começou a empilhar nossas provas, por cima delas estava a folha onde havia nossas notas finais, mas não dava para ver as medias.
- Bom as provas não foram das melhores meninas, mas levando em conta tudo o que passaram, os professores e eu decidimos aprovar vocês duas, contanto que ano que vem o esforço seja dobrado...
- Aí que alivio! - Exclamou Ana.
- Suas notas ficaram pouco acima da media: Ana com 7.3 e Jasmim com 7.4! Fiquem cientes que a maioria dos professores foram benevolentes nas correções das provas...
- Vamos estudar em dobro ano que vem! - prometeu Ana.
- Estamos contando com isso! - disse nossa diretora, Luciana. - Também estão liberadas para ir ao acantonamento. - ela tinha um cabelo, quer dizer uma juba de leão gigante, e aquele "ar de seria", não combinava com aquela coisa louca em cima da sua cabeça. - Vou ligar para seus pais e comunicar a eles, que estão aprovadas.
- Jura? Acantonamento? - Perguntou Ana, a diretora fez que sim com a cabeça. - Não é perfeito Acaiah?
- Muito. - Respondi sem animo, levantei da cadeira e íamos saindo da sala, quando a diretora me chamou.
- Jasmim? Pode se sentar, por favor? Gostaria de conversar com você a sós! - ótimo.
Fiz que sim com a cabeça e voltei a me sentar. Ana estreitou os olhos para a Luciana e saiu demoradamente da sala. Assim que ela fechou a porta atrás de si, me peguei olhando a mobília da sala como se aquilo fosse o mais importante a se fazer no momento. Fotos de diversos eventos escolares recheavam as paredes, junto com diplomas e prateleiras de livros didáticos e de pedagogia.
- Jasmim... - ela me chamou, quando percebeu que me perdi olhando ao redor. - Como você está?
- Bem! - Minha voz saiu tremula e abafada, o que claramente não me ajudou a convencê-la.
- Seu pai anda preocupado com você...
- Não devia! - Ela respirou profundamente e puxou sua cadeira para mais perto da mesa.
- Ele me contou que você está namorando um garoto aqui do colégio...
De repente a voz dela sumiu, me desliguei da conversa, meu pai não tinha o direito de ficar contando coisas da minha vida, para quem bem entendesse... E se algum professor fosse um caçador a espreita? Mas se fosse ele saberia, certo? Não era para ninguém na escola saber do nosso namoro. A irritação crescia dentro de mim.
- Ele está preocupado com esse seu envolvimento! Sei que é natural os jovens namorarem, mas não se aprofunde demais nessa relação. Não foque todas as suas energias em um relacionamento adolescente. - meu relacionamento era tudo, menos adolescente, pensei.
- Não estou focando todas as minhas energias no meu namoro... - disse baixo quase sussurrando. Não estava mesmo?!
- Estamos preocupados com o surgimento dos seus hematomas... Alguns professores já haviam me informado que seu comportamento mudou e... - Ergui meus olhos que até agora estavam focados no chão e a encarei. - A psicóloga da assistência social que vai lhe visitar, vai nos mandar as copias dos relatórios, queremos acompanhar tudo de perto! - Traduzindo, eu ia ser vigiada de todas as formas possíveis. - Após o sequestro...
- Ana foi sequestrada, não eu! - Cuspi as palavras, me sentia invadida e exposta.
- Viu? É por isso que estamos preocupados Jasmim, você não tinha esse tipo de comportamento, nós... - Ela parou a frase pela metade e ficou me encarando, isso pareceu durar uma eternidade. - Essa conversa era apenas para lhe deixar ciente... Você está dispensada por enquanto, pode ir!
- Obrigada! - respondi entre dentes, deixando quanto gostei daquilo tudo.
Levantei o mais rápido que pude e sai dali, ainda estava meio atordoada pelas coisas que ouvi, quando Ana veio dando pulinhos pelo corredor vindo na minha direção.
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O Último Olhar
Teen FictionOUO - O Último Olhar - É o segundo livro da Serie The Last (que contará com 5 volumes). Esse livro será publicado de forma independente em 2017. Esse livro NÃO está revisado, mas a pedidos de diversos leitores será postado assim mesmo, portanto não...
