Capítulo 2

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Meu pai estava muito diferente comigo, me ligava durante as viagens, mandava mensagens de texto, mesmo tendo ficado longe apenas uma semana, a diferença era notável, talvez fosse impressão minha, mas ele parecia mais cuidadoso, mais pai. Pena que essas atitudes dele estavam vindo tarde demais.
Agora que sabia o que ele era, tudo estava diferente, toda a minha percepção havia mudado e ele notou isso, sei que notou.
Conversei com meu pai sobre o acantonamento e o fim das aulas e ele assinou minha autorização, disse que era um presente por ter passado de ano, mas mesmo que ele não assinasse, isso não seria um problema para mim, em geral falsificava a assinatura dele e pronto. Fui dormir cedo, tive aquele maldito pesadelo de novo, isso estava cada vez mais frequente. Acordei angustiada, passava o resto do dia mal, quando tinha pesadelos.
Levantei um pouco mais tarde, essa vida boa acabaria com o trabalho na academia, mesmo sendo meio período. Para meu espanto meu pai estava preparando um super café da manhã com frutas frescas e waffles, trocamos um "bom dia" sem graça e procurei não olhar muito para ele enquanto comia.

- Pensei de viajarmos juntos nas férias. O que acha? - Minha cara de espanto deve ter sido tanta que o sorriso em seu rosto foi murchando. - Eu não tiro férias desde...

- Sempre? - Perguntei ironicamente, ao mesmo tempo queria diminuir a minha irritação ao falar com ele, isso estava me incomodando já, mas não conseguia, simplesmente não conseguia.

- Sim, faz muito tempo, mas o que importa é que estou para conseguir um pequeno afastamento das minhas obrigações...

- Sei. - Minha respiração estava descompassada, suas obrigações seriam pilotar ou caçar, quem sabe ambos?! Seu olhar mudou e ficou gelado, frio e impenetrável, desviei meus olhos para minha tigela de morangos.

- Acho importante passarmos um tempo juntos, acho... - Sua mão apertava tanto a xícara de café, que achei que ele a quebraria. - Olhei casas na praia para alugarmos, para passarmos natal e ano novo...

- Vai passar o natal e o ano novo comigo? - A acidez invadia as minhas palavras. - Descobriu recentemente que é pai? - Ele se levantou da mesa revoltado, minhas mãos tremiam pela adrenalina.

- Olha como fala comigo Jasmim, eu sou seu pai! - Dei uma risada forçada. - Precisamos passar mais tempo juntos, ou vão levar você de mim. A assistência social...

- Ah claro você quer manter as aparências, como sempre! Sabia! - Também me levantei e fui para a sala, na tentativa que aquele peso deixasse meus ombros.

- Aparências? Aparências! Acha que... Você é muito nova para entender Jasmim. - Seus braços tremiam, e ele não parava de mexer em seus cabelos e foi impossível não notar uma semelhança entre ele e Gabe quando estavam nervosos.

- O que? Que você não me ama? Que me culpa pela morte da minha mãe? Isso eu já entendi há muito tempo. - Estava gritando com meu pai, e gritando coisas que nunca me imaginei dizendo a ele. Me desesperei e comecei a subir a escada.

- Nunca lhe culpei pela morte da Cecilia. Nunca! - Ele agarrou meu braço me fazendo virar para ele, estava mais alta porque estava um degrau acima, mas vi água em seus olhos e comecei a sentir um aperto no peito. - Você não faz ideia do quanto te amo, do quanto sacrifiquei por você...

- Jeito estranho de demonstrar. - Minha voz quase não saiu, havia um nó em minha garganta e estava lutando para não deixar escapar nenhuma lagrima.

- Um dia você vai entender. - Ele me soltou e me foi para perto da porta onde sua mala de viagem o aguardava. - Quanto à viagem...

- Eu não vou! Não quero ir... Combinei de passar o natal com Gabe e...

- Você vai viajar comigo e isso é uma ordem. - Não era só minha mãos que tremiam agora, era meu corpo todo. - Você não sabe o que esse rapaz...

- Eu sei...

- Não, não sabe Jasmim.

- Eu sei o que ele é. - Minha voz estava falhada, mas esperava que ele tivesse entendido a indireta. O senti fraquejar, não sei como, mas senti. - Eu o amo... Assim mesmo. Eu sei... - Queria dizer "sobre você pai", mas não consegui.

-Então, você sabe que eu não posso permitir. - E a porta se fechou atrás dele, me deixando sozinha. Mais sozinha do que jamais imaginei que poderia ficar.

Ótimo. Estava ficando bom demais para ser verdade, ele teria ido viajar mesmo ou caçar meu namorado pela cidade?! Droga. Pensar nisso me embrulhava o estomago.
Me arrumei, ia para a casa da Ana, acabamos decidindo fazer o "esquenta" para o acantonamento lá, seja lá o que isso significasse. Cheguei apenas uns dois minutos antes que os meninos, que também iam para lá, j á que estavam andando só de ônibus.

- Bom dia meninas. - Danny me deu um beijo no rosto e seguiu para cumprimentar Ana. Gabe também entrou e me beijou. - Combinando como se esconder das nossas historinhas de terror?

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