Meu expediente tinha acabado e graças a ida do Danny para a praia, Gabe estava atolado na academia, então eu não tinha treinos essa semana, ainda não acreditava que os três tinham viajado na calada da noite, sem me darem tchau. Gostava de ter aulas, mas precisava de um tempo só para mim, assim que sai da academia dei de cara com Juliano, sentado no meio fio, conversando com alguém ao telefone.
- Ótimo. – Disse ele cinicamente. – Achei que fosse para eu ter mais liberdade... Viver talvez?! A coisa não estava muito boa, pela cara e entonação de voz dele. – Sempre tomo cuidado.
- Juliano, o que foi? – Sentei ao seu lado, assim que ele desligou.
- Jasmim... – Ele me parecia alguém realmente legal e confiável. Coloquei minha mão em seu ombro. - Nada... As coisas lá em casa... Estão... Sufocantes.
- Vamos almoçar lá em casa. – Sabia como era querer fugir dos problemas e já que não podia fazer isso, ia proporcionar umas horas disso ao Juliano.
- Serio? Não vou incomodar, nem nada parecido?
- Não. Está tudo bem, vamos. – Levantamos e fomos para casa, Gabe disse que não ia me ver de noite, então estava tudo bem, pensei.
Chegamos em casa e Juliano ficou na bancada da cozinha me vendo cozinhar, preparei um arroz com feijão e carne, coisa simples, só para matar a fome. Conversamos sobre sua cidade antiga, que por coincidência era a cidade onde havia morado, onde minha mãe estava enterrada, mas ele não tocou no motivo que o deixou tão chateado ao telefone e também não perguntei, afinal a intenção era fazê-lo esquecer aquilo pelo menos por um tempo.
Ele lavou a louça, eu sequei e guardei, acabamos vendo um filme que estava passando na TV, acho que o nome era Hannibal a origem, achei aquilo péssimo, ele também, mas serviu para ficarmos rindo do enredo, até o filme acabar, perdemos a noção do horário, já estava escuro.
Não sei como o tempo passou tão rápido com ele, talvez pelo fato que Juliano era normal, me sentia normal de novo com ele, nem com Ana conseguia me sentir bem assim, ela fazia parte do mundo dos sugadores agora, do meu mundo, do mundo de Gabe. Fugir disso tudo por uma tarde foi maravilhoso.
Quer dizer maravilhoso até Gabe entrar na minha sala e pegar Juliano e eu juntos no sofá, não juntos como ele imaginou, apenas conversando, um bem longe do outro, mas explicar isso para Gabe não ia ser nada fácil.
- Se divertindo Jasmim? – A cara de Gabe não era das melhores. Juliano me olhou assustado como quem diz "você me disse que não tinha problema".
- Conversando apenas. – Disse meio de saco cheio, ele ser tão possessivo assim cansava.
- Acho melhor eu ir embora. – Juliano tinha que passar por Gabe para sair de casa, os dois se olharam por um momento, mas Juliano cedeu e baixou a cabeça.
- Melhor mesmo. – Gabe estava roxo de raiva, mas não precisava tratar o menino assim.
- Gabe. – O repreendi. – Tchau Juliano, até amanha na academia.
O pobre menino saiu, sem olhar para trás com o rabinho no meio das pernas, as vezes tinha vontade de esganar o meu namorado. Gabe não disse nada, se virou para ir embora também, essas briguinhas constantes estavam acabando com a gente, isso mais o fato dele ser um sugador, meu pai um caçador, meu corpo estar estranho e ele precisar se alimentar de mim, eram coisas demais para administrarmos.
- Não vá embora. – Pedi com uma voz melosa, não foi de propósito, ela apenas saiu assim. – Não fiz nada demais Gabe, ele precisava de um amigo e eu precisava ficar um pouco com...
- Uma pessoa normal? – Ele estava de frente para mim agora, Gabe sempre parecia ler meus pensamentos, não era isso que ia dizer, mas não deixava de ser verdade.
- Esse ciúme é sem sentido. – Estava esgotada, queria parar de brigar e ficar nos braços dele, só isso.
- É mesmo? Será? – Ele estava cansado também, podia sentir isso, sabia também que precisava se alimentar de novo e precisava ser de mim, porque outra pessoa não resolveria. Seus olhos estavam no fundo, já conhecia aquela cara.
- Claro que é. – Tentei me aproximar dele, mas Gabe recuou.
- Não acho sem sentido sentir ciúmes de alguém, que faz com que você se sinta normal. – Esse maldito poder de ler os sentimentos dos outros era um saco.
- Gabe...
- Nem tente dizer que não é isso. – Não respondi, ele tinha razão, não podia negar aquilo. - Quero poder passar mais de meia hora com a minha namorada sem querer sugar o que ela tem de melhor dentro dela, ninguém devia ter sua felicidade tomada assim. – Tentei abraçá-lo, mas ele segurou meus braços longe do corpo dele.
- Eu amo você. – Soltei meus braços de suas mãos, Gabe não me deixaria chegar perto mesmo.
- Isso é um erro. – Sua cabeça estava baixa, não estava gostando nada daquilo.
- O que é um erro? – Meu corpo tremia, ele não podia me deixar, podia?! Não depois de me pedir para não desistir.
- Me amar... É um erro. – Gabe me encarou, com aqueles olhos pretos, não tinha sentimento algum ali. Nada.
- Gabe. Não... Nem me venha com esse assunto de novo. – Estava sussurrando.
- Não vou deixá-la, mas devia. – Queria matá-lo por dizer uma coisa dessas, de verdade. – Estou tão cansado Jasmim, não quero mais essa vida. – Não espera por aquilo, ver aquela única lagrima escorrer dos olhos dele, nunca vi Gabe assim. – Quero poder ficar com você em paz, quero fazer amor com você, sem achar que vou perder o controle e matá-la.
Ele nunca tinha dito nada parecido, não vi mais nenhuma lagrima nos olhos de Gabe e nem precisava, aquela única gota mostrava o quanto ele estava magoado e triste. Me joguei em seus braços e dessa vez ele não me empurrou, seus braços me envolveram.
- Você não pode me deixar Gabe, não vou agüentar. – Ele não me olhava, então puxei seu rosto para perto do meu. – Você está me ouvindo? Não vou agüentar ficar sem você.
- E Você realmente acha que sobreviveria um dia longe de você? – Estávamos nos beijando quando o celular dele tocou.
Não era uma sugadora, não tinha a habilidade de farejar os sentimentos dos outros, mas sabia que aquela ligação não era boa coisa. Gabe estava pálido e não queria me contar o que era.
- É sobre os caçadores, não é? – Ele me olhou assustado, mas esse era o único assunto que deixava Gabe naquele estado, não era difícil de imaginar aquilo.
- É.
- E você não vai me contar? – Já estava gelada, suava frio e se fosse sobre meu pai?!
- O Chris e o Alan capturaram um caçador, estão levando-o para a casa de Luke. – Achei que fosse desmaiar, não conseguia respirar.
- Quem é o caçador? – Fechei os olhos, como se aquele ato impedisse a verdade de chegar até mim.
- Não sei. Júlia está vindo me buscar, Luke quer todos lá. – Gabe estava tão inquieto e preocupado quanto eu, podia sentir isso.
- Vou junto.
- Não mesmo. Luke suspeitaria. – Gabe andava de um lado para o outro.
- Não ligo para o Luke.
- Devia Jasmim. Se ele suspeitar do seu interesse... Se ele desconfiar que você quer protegê-lo... Vai tudo por água a baixo, não vou conseguir defender seu pai de todos eles.
- Não posso ficar aqui Gabe. Por favor. – Estava implorando mesmo, era meu pai afinal de contas.
- Tudo bem você vai, mas vai fazer tudo o que eu mandar. Entendeu?
- Entendi.
- É bom que tenha entendido mesmo ou estaremos mortos, todos nós.
Júlia chegou e entramos no carro, ela não questionou minha presença, mas sabia que Luke o faria, o caminho até a casa mal assombrada era longo, mas naquele momento pareceu mil vezes mais distante.
Ao chegarmos lá, meu coração estava disparado, Alan e o Chris ainda não haviam chegado, ficamos todos nós em uma sala, esperando o caçador capturado chegar.
- Gabe, leve Jasmim para outro lugar. – Não queria ir, mas também não podia questionar a ordem de Luke, não seria sábio da minha parte.
Gabe me levou para um tipo de sala, logo ao lado, de lá eu podia espiar tudo, por uma fresta na porta, antes de voltar para junto dos sugadores ele beijou minha testa e disse "não importa o que você veja, não saia daí".
Chris entrou carregando o homem que estava todo ensangüentado, não conseguia ver seu rosto, porque alguns dos sugadores estavam na minha frente, minha ansiedade era enorme, queria sair correndo dali e ver logo quem era, enfrentar aquilo de uma vez, mas sabia que não podia fazer tal coisa.
Amararam o caçador em uma cadeira, passaram corda em volta de seus braços e pernas, ele berrava, esperneava, mas eram seis contra um ali, ele não tinha a menor chance.
Finalmente saíram do meu campo de visão e encarei o caçador, não era meu pai, minhas pernas amoleceram de alivio, tentei pensar em outras coisas, tinha que mesclar meus sentimentos, antes que algum deles ali percebesse.
- Quem é o seu líder? – Perguntou Luke, dando uma bofetada na cara do homem. Ele começou a rir, seus dentes estavam sujos de sangue.
- Não sei como sua raça age, mas nós não entregamos nossos irmãos. – Irmãos?! Isso era tipo uma fraternidade da qual você nasce parte?!
- Onde está seu maldito líder? – Foi a vez de Alan machucá-lo, ele deu um chute na perna do homem, esse gemeu, mas não disse nada. Aquilo era horrível de se assistir.
- Chris traga o martelo. – Ordenou Luke, que historia era essa de martelo?! Chris foi e voltou em um piscar de olhos, com um martelo na mão. – Perguntei onde está seu líder? – Luke berrava, como o homem nada disse, ele recebeu um golpe de martelo em uma de suas mãos, aquilo deve ter esmagado seus ossos, ele urrou de dor e ninguém ali parecia ter pena dele, alem de mim.
Não sei quanto tempo passou, para mim e para o caçador torturado pareceram horas, ele teve quase todos os ossos do corpo triturados pelo martelo, mas não disse nada, levou choques, água gelada na cabeça, mas não disse uma palavra. Ele estava quase morrendo e todos ali sentiram que ele não diria nada.
- Gabe acabe com ele. – Ordenou Luke. Gabe não hesitou, desamarrou o homem e saiu dali carregando-o no ombro. Foi demais para mim, virei para o outro lado e vomitei.
Júlia já estava ao meu lado, me ajudando a levantar, minha cabeça girava, como eles podiam fazer algo assim com outra pessoa, tão tranquilamente?! Fiquei imaginando o que fariam com meu pai então se o achassem.
- Oh querida, sei que parece assustador, mas isso tudo é um mal necessário. – Sim, necessário para eles chegarem até meu pai. – Precisamos...
- Encontrar o líder deles. – Disse antes que ela terminasse a frase, Júlia me olhou meio que me questionando. – Gabe me contou isso. – Completei. – Porque é tão importante achá-lo? – Apesar de Gabe já ter me dito isso, queria ouvir de uma pessoa diferente para ver se conseguia absorver aquilo.
- Jasmim, caçadores são como um bando. Eles precisam de um líder, sem eles ficam perdidos, não caçam. O líder quando morre... – Meu corpo ficou gelado. – Nos dá anos de sossego, porque um líder só pode ser eleito quando nasce, isso logo depois de seu antecessor morrer.
- Então quando um líder morre, eles elegem um recém nascido para ser seu novo líder? – Isso parecia meio sem sentido para mim.
- Sim, isso mesmo. Segundo seus rituais é assim que funciona, por isso temos um pouco de paz, porque eles precisam treinar seu novo líder, esperá-lo crescer, com isso as caçada caem 90%. Como lhe disse antes eles não sabem o que fazer sem um líder, ficam anos apenas vivendo como um homem normal.
- Sim, mas e os outros caçadores do mundo? Cada região deve ter um líder, não?
- Não Jasmim. Existe apenas um líder por vez, para o mundo todo. – Quase desmaiei. Esse líder era meu pai. – Estamos cada vez mais próximos dele, temos certeza de que ele mora aqui na cidade. – Oh meu Deus.
- Mas, enquanto vocês não são caçados... Pessoas morrem. – Estava em choque.
- Às vezes sim, mas precisamos nos alimentar e não podemos usar animais no lugar. Temos que nos alimentar sem medo de um caçador aparecer. Você entende isso, não entende?
- Acho que sim... – Já não sabia mais o que pensar. Ouvimos gritos lá fora e depois silencio, em seguida Gabe apareceu diante dos meus olhos.
- O que você fez? – Nem sei ao certo porque perguntei, já sabia a resposta.
- Gabe? – Luke o chamou na porta. – Resolvido?
- Sim, ele... – Gabe me encarou com aqueles seus olhos negros. – Se foi.
Gabe o havia matado. Simples assim, já o tinha visto fazer isso, mas matar um caçador, com todos os ossos do corpo quebrados, sujo de sangue, parecia um ato covarde, mesmo sabendo que era algo necessário, o caçador teria matado um deles se tivesse chance.
Meu lado egoísta estava feliz, não era meu pai quem os sugadores haviam capturado e seu "irmão" não o havia entregado, mas a que ponto cheguei? Ficar feliz por outra pessoa morrer no lugar do meu pai. Talvez aquele cara tivesse família, esposa, filhos, que estariam devastados agora.
- Você vomitou? – Gabe com sua voz forte, me tirou dos meus pensamentos.
- Sim, ela passou mal com a tortura. – Júlia estava respondendo por mim, fiquei feliz por isso, porque muito provavelmente não conseguiria falar naquele momento.
- Vou levá-la para casa Jasmim, você já viu demais hoje. – Ele ia dirigir e se meu pai visse, comecei a me desesperar. – Paro o carro uma quadra antes. – Gabe faria qualquer coisa para me acalmar, sem que eu precisasse pedir.
- Sim melhor, você e Danny não podem mais ficar dirigindo por ai, vão acabar desconfiando. – Alan estava lá com sua cara fechada de sempre. - Fomos para seu eclipse preto e não conseguia parar de pensar em Gabe matando aquele caçador.
- Odeio esse silencio Jasmim. – Apenas olhei para ele. – Sempre que algo está errado entre nós você se cala.
- Só não sei o que falar.
- Mas sabe o que sentir... – Ele não me olhava, apensa dirigia.
- Sei? Então me explique, por favor, porque não sei o que sinto. – Já estávamos subindo o tom de voz, de novo.
- Me desculpe. – Aquilo me desarmou, Gabe nunca se desculpava.
- Desculpá-lo pelo o que?
- Por ter matado o caçador... Não... Tive que fazer aquilo. Luke desconfiaria especialmente de mim.
- Não precisa se desculpar sei que... Você tinha que fazer e pronto.
- Fale sobre isso. – Odiava quando Gabe usava seu ar autoritário comigo.
- Falar o que? Não tenho nada para falar. - Não o encarei mais, fiquei olhando para fora.
- Vai ser sempre assim? – A tensão no carro era enorme.
- Assim como?
- Não se faça de boba Jasmim Acaiah. Como vamos superar isso tudo, se você não me deixa entrar?
- Como assim, não te deixo entrar Gabriel De La Cour?
- Gabe.
- Não estou a fim de te chamar de Gabe. – meu peito subia e descia freneticamente.
- Pare de ser criança. – Queria pular no pescoço dele.
- Pare o carro. – Falei tirando o sinto de segurança.
- O que?
- Pare. O. Carro. – Disse bem alto, pausadamente e por incrível que pareça ele obedeceu. Desci, bati a porta e comecei a andar, nem sabia onde estava.
- Não me faça ir atrás de você Jasmim. – Ignorei a voz de Gabe atrás de mim, continuei andando, ele não me seguiu, devíamos estar próximos à casa de Luke, porque só tinha mato a minha volta.
Continuei andando, me arrependi logo depois, mas meu orgulho não me deixou voltar, ouvi barulhos na mata, Gabe.
- Não quero você aqui. – Qual era meu problema?! Estava louca para voltar para o carro, voltar para ele. Ninguém me respondeu, comecei a suspeitar de que não era Gabe que estava ali.
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O Último Olhar
Novela JuvenilOUO - O Último Olhar - É o segundo livro da Serie The Last (que contará com 5 volumes). Esse livro será publicado de forma independente em 2017. Esse livro NÃO está revisado, mas a pedidos de diversos leitores será postado assim mesmo, portanto não...
