Mas tarde quando Juliano me deixou em casa, ele recomendou que eu não falasse nada com Rafael, para não levantar suspeitas e deixa-lo imaginando que tudo tinha ocorrido conforme planejado, concordei, pois sabia que ele tinha razão.
Estava muito cansada e tinha que ir trabalhar no outro dia, esse pensamento não me era animador. Chamei por Salem, mas ele não apareceu, devia estar em um dos seus passeios noturnos, tinha até feito um buraco grandinho em baixo na porta dos fundos para ele poder entrar e sair sozinho, meu pai certamente vai achar encantador, o buraco feito de qualquer jeito com sua furadeira.
Subi para tomar um banho, mas parei na metade do caminho ao chuveiro para vomitar. Vomitei demais e fiquei gelada na hora, me deu uma vertigem tão forte que achei que não fosse aguentar. Percebi que entre o vomito havia sangue, me arrastei até a minha cama e peguei meu celular, pensei em chamar Juliano, mas essa não era a pessoa que queria ali. Digitei a mensagem num tal de whatsapp, que Gabe tinha baixado para mim.
Jasmim: - Oi.
Jasmim: - Poderia passar aqui em ksa?
Jasmim: - To precisando de vc...
Esperei por alguns segundos torturantes, varias coisas passaram pela minha cabeça, e se ele não quiser mais falar comigo? E se não me responder? E se não estiver com a internet do celular ligada e se...
Gabe: - Estou aqui.
Jasmim: - Não pelo cel Gabe, preciso de vc aqui, em ksa.
Gabe: - Estou na sua porta.
Apesar de estar morrendo de saudades, a descida foi lenta, a vertigem não me deixava olhar para baixo. Quase tropecei no Salem que resolveu dar o ar da graça. Abri a porta lentamente e meu coração parou ao olhar para aqueles olhos pretos, que sempre me dariam arrepios.
- Não estou bem. – Soltei, antes que ele dissesse algo.
Fui amparada por seus braços que me carregaram para a cama, agradeci a ele em pensamento por isso, andar estava difícil. Ele me colocou lá gentilmente e me vestiu um pijama quentinho, sem conotação sexual, apenas cuidado e carinho.
- Vomitei sangue. – Disse preocupada, nós dois sabíamos que ir ao hospital não me ajudaria.
- Não vou deixar nada acontecer com você. – Gabe se deitou comigo.
- Você não pode me salvar, não sem saber o que eu sou e talvez... Nem sabendo.
- Shhhh. Você precisa descansar. Está com fome? – Fiz que não com a cabeça. – Ok. Então vamos só deixa-la confortável e quentinha. - Gabe me cobriu e eu me aninhei em seu peito.
- Como chegou tão rápido? – Falei com dificuldade, pois abrir a boca me dava náuseas.
- Estava vindo te ver, não aguentava mais ficar longe... Só fiz isso para te dar tempo para pensar e colocar tudo em ordem, depois do que aconteceu no parque aquele dia... Prometi a mim mesmo que só a veria quando você pedisse, mas não sou tão forte quanto pensei.
Passei longos minutos controlando a vontade de vomitar, apenas inalando o cheiro delicioso de Gabe, sentindo sua pele quente contra a minha, sentindo seus afagos em meus cabelos e me perguntando como conseguiria fazer o que era preciso. O encarei e disse o que estava em meu coração, mesmo sabendo que depois teria que voltar atrás.
- Talvez haja uma maneira de sair da prisão em que você vive... Talvez eu seja a sua salvação, ou quem sabe seja eu quem o esteja aprisionando. – respirei profundamente, com medo das minhas próprias palavras. – Me deixe entrar na sua alma! – ele sorriu cinicamente.
- Você já mora nela. – Adormeci um pouco com suas palavras.
Entre vômitos, febre, enrijecimento dos músculos, ranger dos dentes, estava meus companheiros de sempre, meus pesadelos... Cada vez mais assustadores e profundos em meu subconsciente.
"Estou andando na rua, descalça e na chuva, de pijama, um carro está parado lá bem no meio, com todas as portas abertas, o carro da foto. Me encharco inteira. Corro até ele, mas está vazio. Olho assustada para todos os lados, uma casa chama a minha atenção, ando até a porta, ela está aberta. Subo as escadas sem ligar em ser pega por alguém, paro em frente a uma porta, tremendo de frio. Com um toque a empurro, uma mulher gravida está sentada em uma cadeira de balanço com um diário na mão. Minha mãe. Meus olhos se enchem d'água. "Você não podia me salvar, mas pode salva-los". Antes que pudesse dizer algo um homem todo vestido de preto, sai de trás da porta, agarra meu pulso e diz "Te Achei".
- Shhh. Calma. – mãos quentes e firmes acalmavam meus movimentos de desespero na cama. Olhos pretos atentos me zelavam, revelando que não haviam dormido nem um minuto sequer. – Foi só um pesadelo, não era real. – Gabe retirou meu cabelo que estava espalhado pelo meu rosto e o afagou.
- Que bom que está aqui. – respirei profundamente, tentando acalmar meu coração, a sensação amarga do sonho ainda estava presente, quem eu poderia salvar?! Como puderam sugar minha mãe gravida, quem seria tão monstruoso assim?!
- Sempre estarei aqui para afugentar seus medos. – Sorri com suas palavras doces e sinceras. Gabe estava de regata branca e boxer da mesma cor, enlouquecedor como sempre, mas essa noite queria apenas me refugiar em seus braços, onde era seguro, apesar de ele ser quem era, sabia que ali estaria segura para sempre. – Me mata vê-la sofrendo assim... Queria que esses pesadelos fossem comigo para que você pudesse ao menos dormir em paz... Para que pudesse sonhar com coisas maravilhosas. – ele beijou minha testa que estava suada, mas não me importei com esse detalhe. – Meu maior pesadelo é vê-la sofrer.
Suas palavras pesavam em meu coração, pois sabia que não podia adiar mais o que precisava fazer, mas não naquela noite, aquela era nossa despedida, embora Gabe não soubesse disso.
- Antes comigo do que com você... - Me aconcheguei em seu corpo. – Você já tem muitas coisas acontecendo na sua vida quando está acordado. – Meus olhos pesavam, mas lutava contra o impulso de fecha-los. – Estou com medo de voltar a dormir.
- Não sou tão bom nisso quanto minha mãe, mas Dona Maristela sempre sabia como acalmar a mim e a minha irmã. – fiquei em silencio, Gabe nunca falava de sua família e tinha medo que ele parasse caso fizesse alguma pergunta, mas queria profundamente fazer varias. - Quando eu ou Susan estávamos com medo, assustados ou manhosos... – um pequeno sorriso escapou de seus lábios, entregando que ele fazia muita manha. – Minha mãe costumava, nos recitar um "verso sugador", não sei se era muito próprio para crianças, mas na voz dela ficava tão doce... – por um segundo ele se perdeu em lembranças. – Não sou tão bom quanto ela, como disse, mas posso tentar...
- Eu gostaria disso... – Disse melosa.
- "O último beijo apagará o meu toque de você,
Não deixará lembranças dos momentos que te fiz passar,
Esse último beijo te fará esquecer cada momento de terror,
Que meus olhos te fizeram enxergar."
- Adorei. É lindo! – Consegui imaginar um Gabe criança, fazendo manha para ouvir de novo e de novo, convencendo sua mãe com seu sorrisinho e odiei os caçadores que tiraram isso dele.
- Nunca soube se ela inventou o verso ou se o ouviu de alguém, mas costumo recita-lo mentalmente para mantê-lo em minha memoria.
- Agora está na minha também. – O beijei suavemente, apenas encostei nossos lábios. – Obrigada.
- Melhor? – sabia que ele não voltaria a falar do seu passado tão cedo.
- Muito melhor, pronta para dormir, ou tentar...
Acordei me sentindo menos nauseada, sentindo também o cheirinho de café fresco que vinha da minha cozinha. Gabe havia feito meu café da manhã, com direito também a suco, iogurte, frutas e pão de queijo feito na hora. Deus como não ama-lo?!
- Bom dia minha flor! Que bom que está melhor, até sua cor já está voltando...
Apenas sorri fracamente e me sentei perto da bancada, enquanto o observava atentamente. Gabe estava visivelmente mais magro, suas costelas estavam aparentes, suas olheiras cada vez mais escuras e profundas. Ele estava virando em uma sombra triste do cara que amava, e isso me matava por dentro, lentamente.
- Como ficou sua alimentação depois... Do que fiz... – Perguntei olhando para baixo.
- Fiquei dias sem precisar me alimentar de novo, e me senti plenamente satisfeito... Você é muito mais poderosa do que sonhávamos.
- Isso é bom não é? – Me animei por um momento, talvez se eu pudesse voltar a fazer o que fiz no parque, pudéssemos ficar juntos. – Isso quer dizer que posso te alimentar...
- É, mas... Piorou muito depois. É como seu fosse um viciado, e depois do parque tive uma recaída grande, muito pior... – Seu olhar ficou vazio, e minha esperança ruiu dentro de mim.
- Sinto muito, não sei como fiz aquilo...
- Tudo bem, não se preocupe comigo. – Como eu faria isso?! – Vou te dar uns dias de folga do trabalho, só me apareça lá na quinta, entendido?
- Ok. Obrigada. – Talvez isso fosse algo bom, poder ficar em casa e pensar.
Depois que Gabe saiu, me joguei na cama novamente, meu corpo estava exausto, assim como minha alma e eu sabia da dor que teria pela frente e isso tirava todas as minhas forças.
- Nossa. Lembrou da minha existência Ana Paula? – Atendi ao telefone, que tocava insistentemente.
- Bom dia pra você também, Acaiah. Como você está? – Amarga. Eu quis responder.
- Ótima, sem porcaria nenhuma para fazer.
- Que bom que não está fazendo nada... Meu pai está em casa e vai descer para a praia hoje. Vou pedir para ele passar ai te buscar, então podemos passar uns dias da férias juntas...
- Ana... Estou trabalhando na academia lembra? Não posso ir.
- Ai Jasmim, fala com Gabe. – Aquilo foi uma pontada no meu peito. O ar chegou a faltar e não consegui dizer nada. – Quer dizer... Vocês ainda estão se falando... Não brigaram certo? – Demorei sabe Deus quanto tempo processando aquilo.
- Na verdade não... Mas prefiro ficar aqui Ana, além disso, meu pai está com aideia de irmos para praia natal e ano novo...
- Isso é ótimo, que maravilha!
- É...
- Nossa Acaiah que mau humor, tá louco! Você reclama, mas nunca me liga, járeparou?
- Não estou de mau humor. – Sim, eu estava. – Só não estou a fim de falar notelefone, só isso.
- Chata que só ela... Ok, mas fiquei feliz de saber que vai viajar com seu paium pouco, já sabe em qual praia?
- Não, mas dou um jeito de convencê-lo a ir á Riviera.
- Essa é a minha garota. Vamos ficar na mesma praia, faz dancinha...
- Faz o que?
- Você precisa de um face urgenteeee.
- Vou fazer esse treco, pode deixar.
- Amo-te, beijocas.
- Beijocas. – Falei ao desligar.
Passei os dias seguintes basicamentena cama, tentei chorar, mas não consegui. A tristeza estava tão enraizada emmim que não me permitia nem o luxo de ter lagrimas. Para melhorar tive a visitada Hellen no meio, só para ajudar a dar um up nas coisas, que já estavam ótimas.Analise maldita.
- Estou te achando muito quieta Jasmim, o que aconteceu? Algum problema? – Sim,você! Meu lado mau humorado respondia.
- Eu e meu namorado... Meio que brigamos. – Não era a verdade atual, mas talvezfosse uma verdade breve.
- Entendo. E o que está lhe incomodando nisso?
- Tudo. Isso dói... – Disse com a voz embargada. Sem saber porque estava meabrindo com ela.
- Sim, brigas são dolorosas. Mas porque brigaram?
- Por que... – Nenhum motivo falso me ocorreu. – Só não... Acho que percebi quese ficarmos juntos, vou sofrer demais no futuro. – Desabafei sem olhar a ela.
- Isso é muito maduro da sua parte Jasmim. Devia estar orgulhosa de si mesma. –Ela sorria para mim, mas não consegui retribuir, não via motivo algum paraorgulho naquilo tudo.
- Estou tentando me habituar a... Ausência dele. – Abracei minhas pernas contra o peito, comose isso diminuísse a dor.
- Quer falar mais sobre isso? – Fiz que não com a cabeça e após fazer maisanotações, e outras perguntas chatas, Hellen foi embora.
Durante aqueles dias, ignorei todasas mensagens que recebi de Gabe, e todas elas ficavam pinicando na barreira queestava construindo em volta do meu coração. Todos os "Como vc está?" "Me reponde,pf" "Te Amo" eram como facassendo enfiadas dolorosamente devagar em minha carne.
Praticamente não comi, só queriaficar deitada e dormir, esquecer. Dormi demais e quando acordava me forçava adormir de novo, pois até meus pesadelos eram melhores que minha realidade. Sóde imaginar meu futuro sem Gabe, já me tirava às forças de levantar. O pior eranão conseguir chorar, porque sabia que minha alma precisava ser lavada, masisso me foi tirado também.
Gastei bastante tempo me culpando pornão ser normal, culpando o mundo por ter criado os sugadores e os caçadores,mas nem a culpa conseguia aplacar minha dor, nenhum sentimento seria forte obastante para fazer parar de doer. Não há palavras para descrever o vazio emmim, vagando no mundo das sombras.
Levantei na quinta feira para otrabalho, tomei banho, mas não fiz questão de me arrumar, fui de cara limpa econsciência suja. Não podia passar mais tempo adiando o inevitável.
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O Último Olhar
Novela JuvenilOUO - O Último Olhar - É o segundo livro da Serie The Last (que contará com 5 volumes). Esse livro será publicado de forma independente em 2017. Esse livro NÃO está revisado, mas a pedidos de diversos leitores será postado assim mesmo, portanto não...
