Acabei entrando no carro do Doutor, não sabia se porque queria ou porque me mandaram, estava exausta, meus olhos pesavam, estava com tontura e enjoo. Juliano ficou com Gabe até que ele estivesse em condições de ir embora sozinho. Doutor me passou um pano para pressionar na ferida, meu sangue se misturava a água que escorria e por algum tempo não disse nada, só conseguia me lembrar do menininho.
- Já estamos chegando ao hospital.
- Não! – Berrei. – Não posso ir a hospitais, já estou com o serviço social no meu pé...
- Ok... Sem hospitais, sei bem como é isso! Mas precisa dar pontos se não, não vai parar de sangrar. Vamos a minha casa, fique tranquila. – Não sabia dizer se estava nervosa, não conseguia me definir.
Chegamos a sua cabana e doutor correu para dentro e logo começou a remexer em gavetas procurando por algo. Dei uma olhada ao redor e do meio dela se podia ver todo o lugar pequeno. Dois quartinhos, banheiro e cozinha que dividia espaço com a sala.
Doutor logo fez sinal para que me deitasse no sofá, ele limpou o ferimento com água, desinfetou com algodão e álcool o que fez arder muito e quando digo muito quero dizer a beira do insuportável, gemi alto e me retorci de dor.
Ele pegou uma pinça e retirou as lascas de madeira, antes de começar a sutura. O fio para isso ele já tinha e imaginei quantas vezes ele já teve que remendar feridas e lá se foram sete pontos no meu ombro esquerdo, eu me sentia retalhada por dentro e por fora.
Aquela cicatriz faria companhia a que já possuía na testa, mas elas não doíam mais que meu peito. Não conversamos, e aquele senhor emanava uma paz e serenidade deliciosa, isso fazia com que nosso silencio não fosse incomodo.
Ele me ofereceu uma muda de roupa do Juliano e agradeci a esse gesto, estava ensopada e tremendo de frio, enrolada nas roupas estava uma pequena caixa de antibiótico que teria que tomar por alguns dias, me troquei no banheiro e quando sai, Doutor me esperava na pequena área da cabana com chá quente.
- Obrigada Doutor, por tudo...
- Jeremias. – Ele disse e piscou para mim.
- Certo. Obrigada Jeremias! Por salva-lo... – Mal consegui dizer as ultimas palavras, minha voz sumiu e um choro ficou preso em minha garganta.
- Devia um favor enorme ao Gabe, e além disso não fiz nada de mais, Jasmim não é? – Seus olhos azuis me passavam uma bondade tão genuína junto daquela cabeleira e barba branca.
- Sim, Jasmim Acaiah. Que favor?- Perguntei me sentando ao seu lado em um banco e pegando uma xicara de chá quentinho.
- Ele salvou minha vida, muito tempo atrás... – Não conseguia imaginar Gabe salvando um caçador e estranhei o olhar arregalado que ele fez ao ouvir meu sobrenome. – Mesmo sendo de raças rivais conseguimos fazer concessões quando necessário. – Parecia que ele havia lido meus pensamentos.
- Minha cabeça está um turbilhão. – Confessei. – Estou confusa... Sobre tudo.
- Algo em que possa ajudar? – Queria ajuda em tantas coisas, que ficava difícil escolher alguma.
- Talvez... – Após pensar um pouco, decidi que ele talvez fosse a melhor pessoa para esse assunto. – Poderia me contar mais sobre os caçadores? Não sei quase nada sobre eles. – Achei melhor não contar que meu pai era um.
- Imagino que ter mergulhado nesse mundo sobrenatural, não esteja sendo fácil – Fiz que não com a cabeça. – Vejamos o que posso dizer sobre a minha raça.
Enquanto falava com sua voz rouca Doutor colocou um cobertor azul quadriculado sobre as minhas pernas, e achei esse gesto reconfortante, assim como o chá de camomila que bebericava. Me senti acolhida e quente, embora bem maltrapilha no moletom largo de Juliano, sua camiseta branca e cabelo desgrenhado, sem contar que os pontos recém feitos, estavam latejando.
- Quando o universo criou os sugadores e sua necessidade de alimentação, criou também os caçadores, para que esses protegessem os humanos, uma forma de equilíbrio natural. Sabe que seu nome Acaiah em hebraico quer dizer anjo da guarda?... Você descende da linhagem mais pura de caçadores, família de onde geralmente vêm nossos chefes... E não adianta negar, sempre conseguimos identificar outro caçador pelo olfato e o cheiro do seu pai está em você. – Ele disse com ar casual e sem me olhar.
- Sim, meu pai... – Balbuciei incrédula, e se alguém o encontrasse através de mim? Nunca me perdoaria.
- Seu sobrenome lhe entrega, mas por sorte poucos hoje em dia sabem da antiga linhagem real, como chamamos. Sugadores mais novos a desconhecem e eles não tem o olfato tão apurado quanto nós.
- Isso é bom! – Pensei em quanto meu pai também corria perigo, mais do que imaginava.
- Só existem caçadores homens, e somos filhos de caçadores, a caça é nossa herança. Nossos instintos só se manifestam aos 21 anos, mas somos treinados desde os cinco para isso. Desde a seguir rastros, do mesmo modo que os humanos fazem com os animais, até a acampar e a sobreviver quase sem comida e sem água, os treinamentos são inúmeros...
- Instintos?
- Sim, nossos "poderes" digamos assim...
- E quais são?
- Na hora da caça ganhamos supervelocidade e força. Somos mortais e envelhecemos normalmente, mas não ficamos doentes e quanto mais caçamos mais nosso sistema imunológico fica forte. – Ele tomou um gole de chá, e a chuva recomeçou, sem ao menos eu ter notado que ela havia parado. - Somos mortais, podemos morrer em acidentes, por exemplo, mas na presença de um sugador ficamos mais fortes que o Hulk. – Ele deu uma pequena risada, eu não em contive e sorri também. - A caça é uma necessidade do nosso corpo, mas podemos aprender a controla-la com o tempo, mas essa é uma coisa muito difícil de aprender.
- Um caçador que não caça... Morre?
- Não necessariamente, mas aprender a controlar os extintos e não caçar leva anos e é um processo lento e doloroso. Então na maior parte dos casos, sim, ele morre!
- Como os caçadores encontram os sugadores? – Perguntei curiosa.
- A "alimentação" dos sugadores deixa um rastro, que é um odor muito forte e singular, de podre. Os caçadores são atraídos por esse odor, pois sabem que se o seguir, encontraram sua caça.
- É só seguir e pronto?
- Não. – Ele sorriu. – Nem sempre é tão simples. O Odor quer dizer que naquela região um sugador se alimentou, muitas vezes é preciso ficar de vigia em locais mal iluminados e desertos, são geralmente onde os ataques acontecem... Essas vigias podem levar meses, às vezes.
- Nossa. – Fixei meu olhar na grama que era molhada pela chuva, para ver se assim me concentrava melhor nas informações que recebia.
- Claro que pode ocorrer de pegar um sugador se alimentando bem no ato, mas geralmente esperamos que eles deem o último beijo, para que a vitima não se lembre de nada.
- Espertos! Vocês se utilizam de um dos poderes deles, para se manterem ocultos da humanidade. – Me ajeitei melhor no banco, coloquei minha xicara já vazia em cima de uma mesinha e puxei o cobertor para que aquecesse também meus braços.
- Sim, aguardamos eles darem o último beijo, e os caçamos para dar o último olhar.
- O último olhar? Não sei quem inventa esses nomes, mas definitivamente é alguém sem nenhuma criatividade.
- Concordo. - Nós sorrimos um para o outro. - Esse é o nome que damos, ao ato de matar um sugador. Nossos olhos ficam como espelhos, refletem o olhar do sugador, se este estiver com os olhos brancos... É praticamente como se ele fosse se alimentar dele mesmo, mas um sugador como Gabe, por exemplo, que se alimenta de alegria... Seria como ele tentar sugar alegria dele mesmo, impossível! Com o último olhar, o sugador se autodestrói.
- Mas, eles podem se proteger com os espelhos, não? – Já havia visto Gabe fazer isso.
- Sim, Sim! Com os olhos brancos e um espelho na mão, um sugador pode facilmente matar um caçador.
- É muita informação... Uma realidade totalmente nova.
- Você não sabia sobre seu pai? – Confesso que estava com receio de falar do meu pai com ele.
- Não...
- Isso é normal, geralmente os caçadores mantem uma vida dupla para proteger sua família. Somos um grupo muito unido e muito atarefado, porque precisamos levar uma vida normal e ainda sim cumprir com os deveres da raça. Para cada dez sugadores, nasce um caçador...
- Ual. Quer dizer nossa... Realmente não sabia de nada disso.
- Caçadores sentem verdadeiro nojo e repulsa pelos sugadores, matam todos sem distinção, porque acreditam que assim estão salvando a humanidade.
- E o senhor não acredita nisso?
- Acredito. – Meu coração acelerou. – Mas, discordo de todo tipo de covardia e maus tratos, por isso virei um equilibrium. Para isso faço um treinamento continuo, para reprimir meus instintos.
- Não deve ser fácil.
- Nunca é. – Abaixei a cabeça, queria não ter de perguntar o que precisava.
- Porqu... – Minha voz falhou, precisei pigarrear para limpar garganta. – Porque perguntou se já tínhamos feito sexo? – Senti meu rosto ferver e nem quis olhar para ver a cara do Doutor.
- Um sugador não pode se alimentar de alguém por quem nutre sentimentos, é muito perigoso... A pessoa acaba sendo, a única de quem ele consegue se alimentar, cria-se um vinculo sentimental muito forte, o que pode ser muito ruim e catastrófico, pois cada vez mais ele precisará sugar uma quantidade maior e cada vez mais a pessoa terá menos a dar... Isso pode levar a morte de ambos.
- O excesso de alimentação pode levar a morte do humano... E com isso, bom o sugador não iria conseguir se alimentar de mais ninguém e com a pessoa morta, ele... Morreria também?! – Doutor fez que sim com a cabeça. É Gabe e eu, estávamos ferrados.
- Confesso que nunca vi isso ocorrer tão rápido como com vocês, é impressionante o elo que se formou em tão pouco tempo, pelo que Gabe me contou... – Meu coração batia tão rápido que meu peito doía. – E se por acaso tivessem tido relações sexuais, esse vinculo seria basicamente indestrutível e eu não poderia tê-lo ajudado hoje... Seria o fim, para vocês dois.
- Então não... – Perguntei olhando fundo em seus olhos.
- Não! Acho que você já sabe o que tem que fazer.
- Terminar com Gabe.
- Não apenas terminar... Quebrar o vinculo. – Doutor segurou minha mão. – Sinto muito querida. Decisões difíceis fazem parte do crescimento da alma.
- Não é justo. – Reclamei.
- A Vida nunca é... Nunca! Mas essa é uma decisão que você terá que tomar, só lhe expliquei as consequências... – Me apertei mais naquele cobertor.
- O senhor sabe o que foi aquilo que fiz no parque... Quer dizer chegou a ver o que...
- Vi de longe e confesso que fiquei intrigado.
- O que eu sou? – Perguntei olhando fixamente em seus olhos.
- Não faço ideia, mas farei minhas pesquisas... Só posso dizer que não é humana.
- Você tem noção de como isso soa? – Disse meio revoltada.
- Sim... Familiar. – Ele respirou profundamente e me arrependi de ser amarga com ele. – Vou pegar as chaves para leva-la para casa.
Fiquei olhando as arvores, a grama molhada pela chuva e sabia que não tinha escolha, deixar Gabe morrer não era uma opção, mas sabia onde encontrar as forças necessárias para fazer o que tinha que ser feito... Nem sabia como fazer, onde fazer. Minha cabeça começou a doer e a apoiei entre as mãos.
- Vamos? – Ergui o olhar ao sentir uma mão quente em meu ombro. Apenas concordei e entrei em seu carro antigo.
- Sua formação é em qual área? – Perguntei quando estávamos quase chegando em casa.
- Como? – Ele parecia bem assustado com a pergunta.
- Se especializou em qual área da medicina? – Na verdade não queria realmente saber, só queria me ocupar para não ter que pensar em meus problemas.
- Medicina? – Ele fez uma cara de estranheza.
- Sim, o senhor é Doutor em que? – Qual parte da pergunta ele não havia entendido?! A parte mais estranha foi quando ele começou a gargalhar.
- Eu não sou medico... – Ele mal conseguia falar de tanto que ria, eu fiquei com cara de paisagem. – "Doutor" é um apelido...
- Como assim? - A assustada agora era eu, como assim o cara me enche de pontos e não é medico?!
- Ganhei esse apelido há alguns anos, pela minha habilidade de "ajudar"... Aprendi a fazer suturas pela necessidade mesmo!
- Que maravilha! – De repente, estava desesperada para olhar aqueles pontos no espelho e ver o estrago. O "Doutorzinho caduco" demorou a parar de rir.
Depois disso não falei mais, confesso que fiquei meio emburrada, chegando em casa, subi para tomar um banho, e a primeira coisa que fiz foi analisar os pontos, e dentro do que eu entendia, estava dentro do padrão de aceitável.
Assim que sai do banheiro dei de cara com um Salem dormindo na minha cama, a idéia de fazer o mesmo me agradava, me troquei e deitei ao lado do meu gatinho, que estava virando um gatão, Salem estava crescendo rápido. Em poucos segundos senti meus olhos pesarem e logo em seguida estava perdida em meus sonhos, ou melhor, pesadelos.
Estava em um bosque, corria como se minha vida dependesse daquilo, meus pulmões pareciam que iam explodir, minhas pernas ardiam, meu coração parecia que ia saltar pela boca, depois de correr muito uma chuva forte começou a cair, continuei correndo, avistei Gabe caído a minha frente, corri em sua direção, olhei para os lados para ver se não havia nenhum caçador por ali e para meu espanto havia sim... Meu pai. Parei de correr e gritei "O que você fez com ele?" Meu pai não respondeu, apenas, caiu de joelhos no chão, levou a mão a sua barriga, percebi então que ele estava sangrando, começo a chorar desesperadamente, não posso correr até os dois, eles estão em lados opostos do bosque, sinto uma mão em meu ombro, ergo o olhar e é minha mãe, ela diz "Escolha de que lado você está! Você só pode salvar um deles".
Acordei no outro dia, com meu pai me chacoalhando pelos ombros, dizendo que estava tudo bem. Havia me esquecido de que já estava na hora dele voltar para casa e te-lo em casa era um alivio, pois significava que não estava caçando meu namorado.
- Pai?
- Pesadelos de novo? – Respondi apenas movendo a cabeça em sinal de sim. – Achei que já não tivesse mais isso há anos. – Apenas ignorei o comentário.
- Que horas são?
- 07h03min.
- Meu Deus, estou atrasada para o trabalho!
- Venha direto para casa, hoje a tarde você tem sessão com a assistente social.
- Que horas?
- Eles não marcam horários específicos só o período. – Ele disse já saindo do meu quarto. – Esteja em casa.
- Ótimo! – Resmunguei.
Tinha tempo de sobra para pensar nisso depois, naquele exato momento precisava me arrumar para o trabalho, corri o máximo que pude, mas me atrasei alguns minutos, Gabe não estava, havia um homem lá, que julguei ser o professor substituto do Danny, Gabe já havia mencionado que precisaria de ajuda extra.
- Olá! Você é Jasmim, certo? – Fiz que sim com a cabeça, já passando para o lado de dentro do meu balcão de atendimento. - Gabe me pediu que viesse assumir suas aulas de manha nas próximas semanas. Parece que ele tem alguns compromissos de ultima hora. - Sabia que não era bem isso. – Meu nome é Samuel, sou professor da academia Long Bye e amigo de Gabe.
- Claro Samuel. Já havia sido informada a respeito. – Não havia não, onde estava Gabe?! Fugindo de mim?! Tentei disfarçar meu desgosto com a situação toda e comecei a fazer minhas rotinas diárias.
- Ok. – Ele se virou e foi indo em direção à sala de aula, mas parou na metade do caminho – Há, ele pediu para te avisar que lhe enviou um e-mail e que era para você ler agora pela manha. Possivelmente deve ser algumas instruções de como proceder na ausência dele.
- Possivelmente. – Assim que Samuel virou as costas, corri para ligar o computador, abri a caixa de e-mail o mais rápido que a internet permitia e lá estava, o titulo era "Instruções".
Bom dia, Jasmim.
Durante a minha ausência na academia, no período damanha, você ficará responsável pela recepção.
Qualquer problema, de ordem administrativa que venha a ocorrer, você tambémficará responsável. Já orientei aos funcionários para lhe procurarem, casoprecisem de algo.
Peço que deixe tudo anotado, e nas tardes onde for possível minha ida áacademia, verifico e resolvo as coisas pendentes. Os casos mais urgentes vocêpode me ligar que lhe ensino como proceder.
Obs: O Samuel irá substituir o Mestre Daniel e o Claudio substituirá a mim.
Att,
Gabriel De La Cour.
Gabriel?!Quanta impessoalidade. O dia se passou sem novidades, a academia estava semmuito movimento, além de conhecer o Claudio, que era um negro alto e musculoso,nada mais aconteceu.
Alguns alunos reclamaram da ausênciade Gabe e Danny na academia, mas eu acima de todos era a que sentia mais falta.E era a mais confusa, porque Gabe havia se afastado? Na teoria era para eu meafastar, não ele. O menininho, e a cena de Gabe se alimentando dele e obeijando, não saiam da minha cabeça e ainda me causavam enjoos.
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O Último Olhar
Ficção AdolescenteOUO - O Último Olhar - É o segundo livro da Serie The Last (que contará com 5 volumes). Esse livro será publicado de forma independente em 2017. Esse livro NÃO está revisado, mas a pedidos de diversos leitores será postado assim mesmo, portanto não...
