Capítulo 9

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Ele estava pensando demais para falar, provavelmente selecionando o que me diria a seguir, mas não queria fragmentos da verdade, queria ela toda.

- Sem rodeios Juliano, comece a falar. – Ele deu um longo suspiro.

- Você é bem direta. – As pessoas viviam me falando isso, mas me achava tão... Tudo menos direta. – Bom Jasmim, você já deve saber dos sugadores e dos caçadores... Certo?

- Sim, sei sobre eles. – Respondi meio impaciente.

- Bom, eu não sou nenhum, nem outro. Na verdade sou um pouco dos dois. – Admito que minha cabeça deu um nó.

- Como assim? – Minha cara de espanto devia estar engraçada, por que ele deu uma risadinha.

- Sou um hibrido Jasmim, metade sugador, metade caçador. – Não consegui dizer nada. – Mais poderoso que os dois... Mais caçado e vulnerável que os dois.

- C... Como isso... Você é o que? – Isso já era surreal demais para mim. Duas raças que se odiavam estavam tendo filhos híbridos agora?!

- Minha mãe é uma sugadora e meu pai um caçador. – Ele estava rindo.

- Qual é a graça? – Perguntei emburrada, a coisa toda era bem seria e ele tinha tempo para rir de mim?!

- Nada, é que... Bom, nunca conto isso para ninguém, não é o tipo de coisa que se conte por aí sabe... E sua reação foi engraçada. – Acho que foi só naquele momento que terminei de processar os fatos.

- Meu Deus. Se você é filho de um caçador e você disse que Doutor era seu pai, então deixei Gabe nas mãos de um caçador é isso?

- É.

- Seu idiota, volte agora mesmo. – Entrei em pânico,tinha levado Gabe para a morte. Coloquei a mão na testa como se isso fosseajudar em algo.

- Calma Jasmim, meu pai é amigo, afinal ele aprendeu a controlar seus instintoscom os anos.

- Ah claro, como se isso me acalmasse. – Droga, a única pessoa que podia ajudarGabe, era um inimigo natural, ótimo.

- Vamos ver se consigo resumir a historia toda para você. – Juliano pareciaestar gostando muito daquilo tudo.

- Estou esperando. – Nem olhei para ele para responder. Juro que quando liaaqueles livros de romances sobrenaturais achava tudo emocionante... Mas quandoacontece com você, é um saco.

- Meu pai, que você conheceu a pouco não é meu pai biológico. – Ia falar algo,mas ao perceber que o olhar de Juliano ficou serio, achei melhor deixa-locontinuar. – Meu verdadeiro pai era um ótimo caçador, ou foi o que mecontaram... Bom, claro que isso depende do ponto de vista, digamos que ele erabom em seu trabalho...

- Matava muito sugadores... – sussurrei.

- Sim. Mas ele também... – Pela pausa dele vi que era algo doloroso de serdito. – Gostava de aprisionar e torturar sugadoras... Mulheres e...Violenta-las.

- O que?

- Minha mãe engravidou assim. – Os nós de seus dedos estavam brancos ao volante,pela força com que o apertava.

- O que aconteceu com ela? – Minha voz saiu abafada e envergonhada ao mesmotempo, por o estar questionando. – Além de...

- Ela conseguiu fugir, acredito que antes de saber que estava gravida... Seique ela matou meu pai na fuga. – Inconscientemente toquei meus lábios com aponta dos dedos. – Não se preocupe... Não sinto a morte dele, ele mereceu peloque fez a ela.

- Mas, onde...

- Bom, até onde sei, ela era companheira de um sugador... Casada ou algo assim,e até tinha duvidas de quem era o filho, mas quando nasci ela percebeu que eunão era um sugador... De alguma maneira ela soube e acabou me entregando parameu pai.

- Porque para ele?

- Meu pai já era conhecido pelo seu autocontrole, ele é o último membro de umgrupo extinto de caçadores que juraram equilíbrio.

- Equilíbrio?

- Sim, eles juraram não mais caçar, renegar e controlar o extinto para "manteras coisas" digamos assim... Para que não houvesse extremismos... Como o que meupai biológico fazia.

- Então, eles abdicaram da caça para monitorar o trabalho dos outros caçadores?

- É, basicamente sim. Mas esse grupo foi extinto pelos próprios caçadores... Sósobrou meu pai, que me adotou e acolheu como a um filho. – Ele me olhou por ummomento. – Devo tudo a ele. – Assenti com a cabeça.

- Mesmo assim... Não entendo porque ela te abandonou...

- Acho que ela fez suas escolhas. – A cara dele estava com uma expressão tristeagora. – E eu não era uma delas.

- Vocês dois vivem por aí fugindo? – Tentei desconversar da historia da mãedele, mas sabia muito bem que isso não resolvia nada.

- Sim, passamos no máximo um ano em cada lugar. – E eu achando minha vida ruim.

- Como seu pai conhece Gabe? – Não conseguia tirar meus olhos de Juliano, doseu jeito "Clark Kent" de ser, com aqueles cabelos castanhos e olhos azuis, suapele morena dava um ar a ele de ator de novela mexicana.

- Não sei ao certo, teremos muito tempo para conversar sobre tudo isso mais afundo. Só quero te pedir que não conte nada ao Gabe. Ninguém além de meu pai evocê sabem que sou um hibrido.

- Mas... Eles não percebem que você é diferente?

- Não. Treinei muito para conseguir passar a impressão de que sou apenas umsugador ou caçador quando necessário. Para Gabe sou o filho do Doutor...Discípulo dele, um "Equilibrium".

- Você se... Camufla? – perguntei sem ter certeza que havia entendido.

- Por aí...

- Porque confiou seu segredo a mim? – Meu coração disparou por um momento.

- Porque você é diferente... Muito diferente.

- Diferente como? – Juliano sorriu, pode ter sido impressão minha, mas mepareceu um riso pretensioso.

- Não sei como... E isso a torna ainda mais interessante! Mas meu pedido éserio, não posso arriscar a vida do meu pai, ele já se arrisca demais sozinho,atuando dos dois lados. Não conte a ninguém sobre o que te contei, nem...

- Não vou. Prometo! – Sorrimos juntos.

- O último beijo... – Disse quebrandoo silencio. Juliano me olhou de relance e vi em seu olhar que ele sabia ao queme referia. – Não funciona comigo e... Eu... Meio que matei um sugador.

- Meio? – Apesar de estar com sua concentração no transito, percebi o quantoaquilo o alterou.

- Eu matei um sugador que me perseguia e tentou me matar, bom a mim e a minhamelhor amiga... E ao Gabe...

- Entendi. O cara não era muito popular. – Não esperava por essa e acabeirindo, a primeira vez que ri ao pensar que matei alguém. – Mas, como fez isso?

- Não sei... Eu o olhei e puff... – Fiz um gesto bobo com as mãos.

- Puff... – Juliano começou a gargalhar, literalmente.

- Hey, isso não é engraçado! – Contestei enfezada.

- Puff... – Ele repetia e ria mais ainda. – Certamente você é diferente. Sóbasta saber como e quanto.

Olhei para a frente, não tinhapercebido que tínhamos voltado a cabana de Juliano e seu pai, um carro saia deum galpão que não havia notado, um carro antigo que nem sabia identificar amarca, devia ser apenas um veiculo para fugas emergenciais. Ele passou por nóse no banco do passageiro estava Gabe, pálido, com um olhar fúnebre.

- Vá atrás deles! – ordenei a Juliano, mas seu olhar me dizia que ele nãoconcordava. – Vou atrás deles com ou sem você... Com você será mais fácil. Preciso...

- Cuidado com o que deseja. – ele disse sem me olhar e no momento nem mepreocupei com suas palavras.

- Como seu pai conseguiu acorda-lo? – Perguntei já sabendo a resposta.

- Com sua ausência.

A "perseguição" estava me matando deansiedade, há pouco tempo Gabe estava morrendo e agora estava dando voltas comum caçador de carro, porque?
Juliano não falou durante o caminho enão perdeu o carro do pai de vista, eu só pensava em encontra-los e abraçarGabe, sentir sua pulsação, respiração, vida.
Estávamos quase no centro na cidade,perto de um dos muitos centros infantis, ou ao menos era como nós oschamávamos, espaços com muito verde, arvores, completamente cercado e seguro.Havia muitos brinquedos nos parquinhos, escorregador, balança, gira-gira, mas oque Doutor e Gabe faziam ali? Porque um lugar cheio de crianças e mães?

- Fique no carro Jasmim! – Juliano parecia estar entendo as coisas melhor doque eu e provavelmente ele estava mesmo.

Olhei para frente e Gabe saia docarro cambaleando, estava muito fraco. Doutor permaneceu sentado ao volante. Demoreialguns segundos para processar o que ele estava fazendo, ou melhor, o que eleia fazer. Me desesperei, automaticamente coloquei a mão no trinco da porta paraabri-la.

- Não vá. – os braços fortes de Juliano me deteram.

- Me solte! – berrei.

- Ele precisa disso. Você precisa entender...

- São crianças! – sentia a raiva em minha voz, meu nojo e incredulidade.

- Sim, são. – suas mãos me apertaram ainda mais. - Jasmim...

- Criancinhas Juliano... Não vou permitir isso... – Tentei me soltar sem sucesso. Olhei novamente para fora e Gabe já estavadentro do centro infantil, tinha que agir rápido.

- Tem que ser uma criança. Ele vai morrer!

- Por quê? – minha voz não saiu mais alto do que um suspiro.

- Gabe se alimenta de alegria... O que é mais alegre que uma criança? – era umapergunta retorica, ele tirou suas mãos de mim lentamente, provavelmente minhacara dizia que não conseguiria me mover tão cedo. – Tem que ser uma criança,caso contrario ele estará morto até amanha. É uma medida drástica, masnecessária, isso não deve deixa-lo satisfeito, acredite. – Algo nos olhos azuisprofundos de Juliano me disse que ele sabia exatamente como era ter de fazeralgo ruim e não sentir orgulho disso.

- Por quê? – respirei profundamente e de onde estava não conseguia avistarGabe. – Porque ele está tão mal?

- Sinto muito. – Juliano não precisava me responder, no fundo sempre soube,Gabe estava mal porque havia se alimentado de mim, porque não conseguia sealimentar de mais ninguém e agora tinha de recorrer a uma fonte transbordantede alegria... Crianças inocentes.

- Sinto muito também, mas ele tem uma opção... – Juliano me encarou. – Pode sealimentar de mim, não posso deixa-lo fazer isso. - Antes que Juliano pudesse semover, usei um golpe que Gabe me ensinou, um soco transversal na garganta, issoo deixaria imóvel por bons minutos, agora só precisava desviar do Doutor, quecaminhava na direção do nosso carro.

Sai o mais rápido que pude, aproveiteio momento de distração do Doutor olhando seu filho com as mãos na garganta e oacertei bem no centro do peito, ele caiu sentado no chão. Corri o mais rápidoque minhas pernas permitiram para dentro do centro infantil, passei pela partedos brinquedos, varias mães e babás conversavam, as crianças menores brincavampor ali ou nas caixas de areia, pelo canto do olho vi uma menina de uns 6 anoscontando, estavam brincando de esconde-esconde, ótimo.
Não havia mães na área de arvores, eporque haveria, se área era cercada e para alguém entrar tinha que passar pelasmães, próximas aos brinquedos? Porque elas sentiriam medo? Mas Gabe não passoupor elas, ele pulou as grades com habilidade. Elas devem ter achado que eu erauma mãe desesperada, por isso não se incomodaram com minha presença.
Corri como louca para todos os lados,achei varias crianças escondidas que se irritaram com minha presença, menosGabe. Minha bronquite já dava sinais, já podia sentir aquelas pontadasincomodas nas minhas costelas. O desespero começou a me percorrer como umveneno podia senti-lo em minhas veias.

- Gabe! – gritei em meio ao pânico, coloquei as mãos na cabeça e puxei meucabelo com toda a força que pude. Dei um giro de 90 graus e vislumbrei a sobrado meu namorado com uma criança nos braços. – Gabe...

Corri ao encontro deles, a visão me perturbou em todos os níveispossíveis. Gabe estava de pé, com os olhos brancos, segurava um menino pelosbraços na altura de sua visão, a criança não passava dos três ou quatro deidade. Ele não conseguia tirar os olhos de Gabe, sabia que isso era efeito deestar sendo sugado, me lembrei da sensação e pensei em como seria para aquelapessoinha sentir tudo aquilo... Toda aquela tristeza.
Ele chorava e dizia "mamãe" baixinho,suas pernas gorduchas balançavam no ar e suas mãozinhas se agarravam aos braçosde Gabe.
Senti um aperto no peito que nem seiexplicar, parecia que arrancavam minha alma do corpo, soltei um "Meu Deus" maispara mim, do que para eles. Congelei por alguns segundos que pareceram umaeternidade, demorei para processar tudo aquilo e mesmo com o grande pavor queestava do meu namorado me preocupei em ele ser pego, ele nunca se alimentava emlocais com tanta gente perto, mas a situação exigia uma atitude drástica,provavelmente ele não teve escolha quanto as circunstâncias.

- Gabe. Solte-o! – Avancei em cima deles e tentei arrancar o menino dos seusbraços, mas Gabe soltou uma de suas mãos e segurou minha camisa, bem na alturado peito.

- Se afaste. – Sem ao menos me olhar, ele me arremessou para longe, fui deencontro com as costas em uma arvore, cai como uma boneca de pano no chão,tentei me levantar, mas senti uma vertigem rápida e varias pontadas pelo corpo,olhei com dificuldade para a arvore agora havia um pedaço da casca arrancado,meu corpo havia feito aquilo e eu ainda estava viva?!

- Gabe... – Tentei gritar, mas a voz mal saia, me apoiei com dificuldade naarvore e quase consegui ficar ereta, senti algo molhado na minha camiseta...Sangue, uma lasca de arvore estava atravessada no meu ombro esquerdo. Porquanto tempo meu corpo ainda aguentaria ser dilacerado? – Solte-o!

Gabe o estava sugando a tempo demais,o mataria em segundos, ao menos foi o que calculei. Olhei novamente para eles evia algo que não esperava, e nem sabia ao certo se estava vendo aquilo mesmo.Era como uma aurora boreal saindo e entrando dos olhos de ambos, puxei o ar comforça, talvez estivesse com alguma concussão ou talvez estivesse só louca mesmo.Um nojo foi crescendo dentro de mim, uma vontade de acabar com aquilo, algomuito parecido com o que senti antes de matar Michael, como se meu corpo nãosuportasse a presença de um sugador, continuei tentando pressionar a minhaferida.

- MANDEI SOLTA-LO!!! – Gritei com toda a força que ainda possuía, e vi uma ondade luz branca sair de mim e atingir Gabe com toda a força. Uma onde que começoupequena, mas se expandiu ao chegar nele. Fiquei tonta e mal conseguia enxergar,meus olhos estavam pesados, mas vi o esboço do corpo de Gabe caído no chão e dooutro lado... O menininho.

Não sei quanto tempo demorei pararecuperar a consciência, mas deduzia que não havia sido muito. Engatinhei até omenino e ele estava respirando, uma onde de alivio me invadiu.
Tentei acordar o menino, mas nãoconsegui, uma chuvinha leve começou a cair e em seguida o chamado das mãescomeçou. Gabe veio para perto de nós, me encarou por um instante, se inclinou eselou seus lábios nos do menino. Foi à coisa mais macabra que já presenciei, ea mais triste também.
Depois de alguns segundos rápidos omenino começou a piscar e se sentou, perguntando o que havia acontecido.

- E aí rapaz? Que tombão!!! Corre, sua mãe tá chamando. – Disse Gabe.

O menino sorriu de leve, se levantoue saiu correndo para a parte dos brinquedos. Só conseguia olhar para suaspernas gorduchas correndo, sem acreditar em tudo que acabará de acontecer.

- Ele vai ficar bem, crianças, se recuperam em segundos... Mas foi sorte vocêter... Me feito parar. Não sei se ia...

- Ia sim! – Rebati. – Sei que ia.

- O que você fez? – Sabia que ele perguntava da onde de luz branca queirradiei.

- Não sei, mas deu certo. – Disse enquanto olhava melhor meu ferimento, nósdois já estávamos ensopados pela chuva e Doutor já estava chegando com Julianologo atrás.

- Você está ferida! – A cara de dor dele ao olhar para mim, me matava.

- Estou bem. Mas preciso ir para casa... Sozinha. – Soltei rápido a ultimaparte. O Amava, mas precisa de tempo para absorver aquela tarde.

- Entendo! – Ele disse.

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