Quando consegui me acalmar, pedi para subir para meu quarto e meu pai não se opôs, acho que ele não sabia muito bem como lidar com a minha dor, mas honestamente, eu também não estava me saindo muito bem nisso.
Embora a crise tivesse passado, o choro não cedeu, havia aberto a "torneira" e agora não conseguia mais fecha-la. Só sai da cama para alimentar o Salem e então voltei á minha fossa, me encolhi em posição fetal e chorei como uma criança, nas mãos estava o colar com o símbolo do chakra de Gabe, o apertava tanto, que mais tarde seu formato ficou gravado na minha palma, aproveitei para ouvir musicas triste e desgraçar a coisa toda de uma vez.
Fui para a cozinha no dia seguinte, de manhã cedo, não dormi a noite toda e me sentia oca por dentro, encontrei meu pai todo enérgico, fazendo o café da manhã, talvez comer algo não fosse má ideia, pois estava me sentindo tonta e enjoada. Sentei na banqueta alta e apoiei os braços na bancada da cozinha para poder cheirar o meu prato, que já estava servido com ovos mexidos, o cheiro estava convidativo, embora não sentisse fome.
Peguei um garfo e me obriguei há comer um pouco, enquanto observava meu pai, ele quase nunca cozinhava, muito menos vestia meu avental de vaquinhas. Meu pai estava na frente do fogão preparando mais uma porção de ovos mexidos para ele mesmo, e seu esforço para me animar e agradar era notável, embora inútil.
- Como está? – Ele perguntou olhando para o meu prato.
- Ótimo! – Tentei fazer a melhor cara possível para não desaponta-lo e na verdade, estava muito bom mesmo.
- E você? – ele perguntou sem me encarar, acho que com medo de se deparar com algo terrível em meus olhos.
- Não sei... – disse para poupa-lo da verdade, que estava mais para 'estou definhando por dentro'.
- Pronta para a nossa viagem? – Meu pai se sentou á bancada comigo, com seu prato cheio e nos serviu suco. Isso pai mude de assunto. Agradeci mentalmente.
- Sim. Quando vamos? – Perguntei encarando meu prato e tendo certeza absoluta de que não conseguiria comer mais.
- Daqui a pouco. Se estiver tudo bem para você!
- Está. – não queria viajar, mas precisa admitir que passar um tempo em um lugar que não me lembrasse Gabe, soava agradável. – Droga! - exclamei, assim que tomei um gole do suco.
- Está sem açúcar? – meu pai correu provar o suco do meu copo.
- Não, não é isso... Tenho visita da psicóloga hoje, não lembro o horário, tenho que checar isso no computador.
- Sem problemas, vamos assim que a visita acabar! – ele estava abatido, seu animo excessivo com a viagem era uma mascara para disfarçar, que ele também não havia pregado o olho á noite. Acho que isso é uma coisa que os pais fazem, sofrem junto com os filhos. – Preciso mesmo sair e comprar algumas coisas, resolver os últimos detalhes antes de irmos...
Parei de prestar atenção ao que ele dizia, pois meu celular vibrou no bolso da calça de moletom, meu coração deu um duplo mortal carpado no peito, parei de salivar, o que deixou minha boca seca, meu corpo começou a tremer como louco. Era uma mensagem de texto, sei que era algo completamente egoísta, mas desejei com todas as minhas forças que fosse Gabe, pedindo para que eu mudasse de ideia, eu queria mudar de ideia, queria voltar atrás, só que não podia... Mas queria que fosse ele mesmo assim. Tirei o celular do bolso da calça com dificuldade devido ao nervosismo. Por favor, seja Gabe, por favor:
Fikei sabendo do q aconteceu... Está precisando de alguma coisa?
PS: Juliano ;)
Meu coração afundou no peito, soltei um suspiro longo que ardeu minha garganta. Gabe era orgulhoso demais para se rebaixar assim, mas me deixei acreditar por alguns segundos. Guardei o celular no bolso, sem enviar resposta, pois não sabia o que responder.
- Não era ele, não é? – perguntou meu pai, com tom de pena.
- Não! – senti meus olhos arderem e então se encherem de lagrimas. – Era só um amigo... – meu queixo começou a tremer e me odiei por ser tão fraca. Tomei mais um gole de suco para afundar o choro goela a baixo.
- Ia ser pior se fosse ele! – foi apenas uma frase, mas com um conselho escondido entre as palavras, ao qual me apeguei para não desmontar de novo. – Ia ser pior, querida!
Ele colocou sua mão sobre a minha por um segundo e então se levantou para lavar a louça do café. Agradeci a ele mentalmente pela frase, tão simples e tão verdadeira. Uma frase que vinha com um alivio implícito, apenas alguns segundos de paz, mas mesmo assim um alivio... Se fosse Gabe, se fosse ele me pedindo para voltar, ia ser mais devastador do que não ser ele. Fui para meu quarto para ver o horário da visita da psicóloga, mas antes fui ver o Salem e alimenta-lo.
Era ainda pela manhã, mas dava tempo para tomar banho, separei um vestido de algodão comprido, alias ele chegava a arrastar no chão, laranja claro, de alcinha, que ganhei da Ana em alguma data que não me lembrava, era novinho em folha, extremamente elegante e requintado. Ele ressalta meus seios e me deixava com um ar alegre, era bom para entrar no clima de praia, pena que não combinava em nada com meu estado de espirito. Me encarei no espelho, estava com olheiras terríveis, fechei os olhos por um momento e juro que podia sentir o cheiro de Gabe ali, como se ele estivesse do meu lado, mas ele não estava, o que fez com que assim que eu abrisse meus olhos, lagrimas escapassem deles.
Para me distrair, comecei a arrumar as malas, precisava me manter ocupada, assim não mergulharia no vazio do meu peito, então comecei a separar alguns shorts, vestidos, camisetas, regatas. Nesse meio tempo meu pai gritou lá de baixo, que estava saindo para resolver algumas coisas e já retornava. Ainda estava arrumando a mala, quando a campainha tocou, anunciando minha carrasca.
- Amei seu vestido! – ela exclamou assim que sentamos na sala.
- Obrigada, foi um presente da minha amiga... – tentei parecer o mais feliz possível, precisava que o serviço social saísse do meu pé de uma vez.
- Alguma ocasião especial? – disse ela, abrindo seu caderno de anotações.
- Vou viajar, com meu pai... Para a praia. – notei que Helena possuía aquela beleza simples, sem ser forçada. Era delicada, decidida e inteligente.
- Isso é ótimo... – ela deixou a coisa no ar, porque queria saber se eu achava ótimo, ou se tinha medo dele, medo de viajar com meu pai e ele me fazer algum mal.
- Vai ser legal, ele quase nunca tira férias... – criei forças para parecer ainda mais entusiasmada. – Sempre sonhamos com isso!
- Uhum. – odiava quando ela dizia apenas isso, "Uhum", coisa chata. – E onde ele está? – ela percorreu os olhos pela casa.
- Saiu, para resolver algumas coisas, mas já deve estar voltando! – ela apenas assentiu com a cabeça.
- Gostaria de conhecê-lo! – disse ela.
- Achei que ele também estivesse sendo acompanhado pela assistência social...
- E está, mas não por mim... – tinha que admitir que o serviço social levava aquilo bem a serio. - Vai encontrar com amigos lá? – minha garganta deu um nó ao pensar na Ana, e no tom de decepção em sua voz na ultima vez que nos falamos.
- Talvez... – fui evasiva.
- Talvez seja bom fazer novos amigos...
- É. – encarei o chão para recobrar a pose de feliz.
- E o namorado? – senti que ela arrancou meu coração com a mão e o esmagou. – vai também?
- Nós terminamos... Eu terminei! – disse com a voz tremula.
- Oh, sinto muito! – ela anotou varias coisas, o que foi bom, pois estava difícil engolir o choro dessa vez, então isso me deu tempo. – E como está lidando com isso?
- Ainda estou descobrindo... – fiz uma pausa, minha voz estava falhando e meu autocontrole também. – Como vou lidar com isso!
- Isso é ótimo. Muito maduro de sua parte disser algo assim...
- É. – quanto tempo demora para passar uma hora afinal?! Estávamos conversando a uma eternidade já.
- É importante que não se deixe levar pela dor... Embora seja muito tentador faze-lo!
- Como? – percebi que me auto abraçava e com força. – Como não sucumbir à dor?
- Vivendo! – disse Helena, com seus olhos castanhos bondosos.
Queria perguntar como eu viveria sem Gabe, mas ela não saberia me responder. Isso era algo que eu teria que aprender sozinha, mas achava do fundo do meu coração que sem ele, restava apenas à existência. Ela fez mais um trilhão de perguntas antes de ir, mas estava longe demais para me concentrar nelas, respondi no "piloto automático". Meu pai chegou quando Helena já pegava suas coisas para ir embora.
- Moças! – meu pai nos cumprimentou e largou algumas coisas junto à porta e veio dar a mão a minha psicóloga, que cambaleou um pouco.
- Prazer em conhecê-lo! – ela disparou, estreitei meus olhos para o sorriso largo que meu pai lançou a ela. – Sou a psicóloga da Jasmim, enviada pelo serviço social... Helena.
- Alberto Acaiah. E o prazer é todo meu! – Ah fala serio, minha psicóloga e meu pai flertando na minha frente?!
- Ela já estava de saída... – disse de braços cruzados no peito, com uma das sobrancelhas erguida.
- Sim estava... – ela finalmente soltou a mão do meu pai, que resolver mexer no cabelo, ao estilo Elvis Presley. – Você tem meu numero Jasmim... – ela me olhou. – Qualquer coisa me ligue! – agora ela encarava meu pai. Para quem era aquele recado afinal?!
- Se precisarmos, não hesitaremos em ligar! – respondeu meu pai, senti minhas bochechas esquentarem de raiva. – Agradeço o cuidado com a minha filha! – ele a acompanhou até a porta e não fiz questão de responder o "tchau" que ela me lançou.
- O que foi isso? – perguntei irritada ao meu pai, assim que ela saiu. – Para que essa "melação" toda?
- Eu que pergunto... "Ela já estava de saída"? Essa não foi a educação que te dei!
- Qual o problema? Ela estava indo mesmo! – bufei e comecei a subir a escada.
- Aonde você vai?
- Arrumar as malas! – revirei os olhos e o deixei lá, rindo da minha cara por algum motivo desconhecido, o cumulo.
Pena que a irritação com meu pai não durou tempo suficiente, ela logo deu lugar ao vazio de Gabe, percebi que esse vazio aumentava quando ficava sozinha, era como se uma sombra tomasse conta de mim, e ela estava crescendo cada vez mais. Terminei de por algumas coisas na mala, creme para o corpo, shampoo, condicionador, protetor solar, perfume, desodorante, maquiagem e inclusive acessórios, Ana ficaria orgulhosa, mas pensar nela fez meu coração ser alfinetado, então logo tirei isso da cabeça.
Não levei o colar que ganhei de Gabe, alias o escondi muito bem, para que quando eu voltasse, ele não estivesse à vista, o Guardei em uma caixa no fundo do guarda roupa junto com o diário da minha mãe. Desci as escadas com duas malas generosas, as deixei perto da porta, onde vi uma maleta de transporte animal, vermelha em cima e transparente em baixo, meu pai havia comprado.
- Isso é para o Said! – disse meu pai satisfeito, com as mãos apoiadas na cintura, uma de cada lado.
- Quem? – assim que perguntei, a "ficha caiu" e comecei a rir.
- Esse não é o nome dele? – ele estava com o semblante confuso.
- É Salem... – disse em meio ao riso. – Said...
- Tanto faz... É para o gato. - ele visivelmente ficou emburrado - Achei um bom hotel de animais para deixa-lo... Pensei em levá-lo junto, mas vai que ele foge...
- Não tinha pensado nisso... – parei de rir e fiquei seria ao me dar conta que deixaria meu gatinho com estranhos. – Eles vão cuidar bem dele? É seguro?
- Alguns amigos me recomendaram! – estremeci por um momento, ao pensar nos amigos dele, caçadores, deixando seus animais em hotéis, enquanto caçavam/matavam sugadores.
- Ok... – era melhor do que perder Salem na praia, meu pai tinha razão, ele podia fugir. – Obrigada!
- Me aconselharam também a castra-lo para que ele não fuja, mas isso vemos depois que voltarmos! – para quem me fez arrumar um emprego por causa do gato, ele estava bem generoso, dento da maleta de transporte tinha até brinquedinhos novos.
Sai para procurar Salem pela casa e o achei em seu local preferido, na cama do meu pai, resmunguei para ele: 'Deixa seu avô ficar sabendo que esteve aqui' e parti para a difícil tarefa de coloca-lo na tal maleta, muitos arranhões depois, consegui, meu coração ficou apertado com seus miados xoxos. Peguei as coisas do Salem, caminha, potinhos, ração, cobertinha e abri a porta de casa para coloca-lo no carro, que meu pai havia dito que tinha alugado, mas fiquei petrificada na varanda.
Era deslumbrante, incrível, nem parecia real para dizer a verdade, mais tarde ele me disse que aquele era um modelo muito exclusivo, um tal de "acura NSX", era extremamente de luxo, prata, parecia um carro do James Bond. Fiquei de queixo caído, por longos minutos.
- Gostou? – meu pai perguntava da rua, enquanto colocava nossas malas no porta malas.
- O aluguel disso deve ser uma fortuna... – me aproximei para ver se o carro era real.
- Estou pensando em compra-lo! – ele dizia como se comprar um caro de modelo único, fosse como comprar pão.
- Você está fora de si! – ele riu e pegou as coisas da minha mão para me ajudar.
- Então você gostou! – nunca havia visto esse ar de convencido no meu pai.
- É... Quem não gostaria? – meu instinto estupido, foi de querer fotografar para mostrar a Gabe depois. Porque minha mente ficava me torturando assim?! Ele ia adorar aquele carro.
- Pronta? – ele abriu a porta para mim, como um chofer faria. – Posso acrescentar que está linda nesse vestido? Muito elegante!
- Obrigada! – agradeci sem jeito. – Foi um presente da Ana...
- Ela tem um ótimo gosto, é lindo! – sorri e entrei no carro, ele me entregou a maleta com Salem, que ainda miava em descontento.
Depois que fiz milhões de perguntas a meu pai, sobre ele ter fechado corretamente a casa e desligado todos os parelhos, paramos na frente do hotel para animais. Fui com meu pai levar Salem e passar a relação de todos os mimos que meu gato gostava, a moça da recepção me garantiu que tinham veterinários 24 horas para emergências e que cuidariam bem dele, há 150,00 a diária. Meu pai definitivamente estava "fora da casinha". Perguntei diversas vezes se podíamos mesmo pagar por aquilo tudo, mas ele apenas dizia: 'Confie em mim'.
- Agora podemos ir... Quero ver se chegamos a tempo para o almoço, no Palotinos, o camarão frito de lá é uma delicia! – disse ele sorrindo.
Queria do âmago do meu ser parecer animada, mas sabia que não conseguiria. Aquela ida ao litoral, aquele sol a pino, não estavam condizentes com o inverno que se fazia dentro de mim. O carro estava silencioso, ambas as janelas da frente estavam abertas e eu apenas mirava na paisagem sem realmente ver de fato por onde passávamos.
- Como você está se sentindo... Emocionalmente? – Olhei rapidamente para meu pai e depois olhei para frente, focando no asfalto.
- Bem melhor! – Fui bem convincente, isso se ele ignorasse meu silencio perturbador, minha cara inchada e vermelha, e minhas olheiras.
- Você mente muito mau Jasmim... Assim como sua mãe! – Olhei para ele sem entender direito, pois as janelas abertas e a velocidade faziam o vento distorcer as palavras, encarei seus olhos verdes e como sempre era repelida por eles. Fechei minha janela, ele logo fez o mesmo.
- Você nunca fala dela! – Retruquei.
- É difícil... Reviver, lembrar e... Você nunca perguntou nada, achei que talvez saber dela fosse doloroso demais, ou acreditei nisso porque me era mais conveniente!
- Eu queria ter perguntado, sempre quis, mas nunca tive coragem... Isso sempre pareceu te perturbar demais. – agora podia entender melhor a dor de perda do meu pai.
- E perturba, mas vou me esforçar para tentar descrever a preciosidade que ela era, mas acho que não terei muito sucesso nisso... – ele deu um sorriso triste. – Vamos começar do começo:
"Conheci sua mãe quando tinha 8 anos, ela se mudou para a casa do lado da minha, que por sinal foi a que moramos até virmos para Imperial. Cecilia tinha apenas 4 anos, o dia estava muito quente e enquanto os avos dela descarregavam a mudança, ela mesma encheu com a mangueira de água uma bacia enorme, correu para dentro da casa e saiu com um biquininho vermelho de bolinhas brancas. Ela estava de "Maria Chiquinha", o que a deixava adorável, já que ela era bem gorducha, de bochechas rosadas e olhos negros como seus cabelos.
Eu fiquei hipnotizado, até larguei minha bola em um lugar qualquer do quintal e fiquei a olhando por cima da cerca, minhas pernas chegaram a doer por ter ficado tanto tempo de pé. Fiquei lá até que minha mãe me chamou para o café da tarde, ela me perguntou o que eu estava fazendo que estava tão corado e sorridente, e a única resposta que dei foi: "Estava vendo uma sereia".
Ri em voz alta com a ultima parte e meu pai deu um sorriso torto, provavelmente ao se lembrar de minha mãe pequena.
- Foi assim que a conheci e foi assim que me apaixonei por ela! – seus olhos focavam a estrada, mas vi a tristeza neles.
- Não sabia que ela morava com os avós... – Disse.
- Sim, os pais dela, seus avós, faleceram quando ela tinha 2 anos, em um acidente de carro. – Isso era horrível, pensei. – Então Cecilia passou a morar com os avos paternos, no caso seus bisavós, Sra. e Sr. Adélia e Dorival Goldin.
- Não sabia nem seus nomes... – Disse meio chateada.
- Eram pessoas excelentes, simples, honestos, generosos... Eles faleceram durante a adolescência da sua mãe! – todos que ela amava morriam, isso era muito triste.
- Porque eles se mudaram? Quer dizer... Demorou 2 anos para minha mãe ir morar ao seu lado.
- Eles tinham ficado com a propriedade do seu avô, Celso, pai da Cecilia, quando ele e a esposa faleceram, mas morar lá estava acabando com eles, então venderam tudo e começaram vida nova!
- Ela também se apaixonou por você, quando criança? – perguntei depois de minutos de silencio, após remoer a historia na minha cabeça. Ele soltou um riso cínico.
- De jeito nenhum. Tive que sofrer para conquista-la, não antes de vê-la namorar um imbecil da companhia de dança, que não a merecia, Alfredo.
Enquanto ouvia sobre meus pais, conseguia afastar momentaneamente aquela dor infernal que estava me corroendo por dentro, conseguia por instantes esquecer o sorriso de Gabe, do seu cheiro, dos seus beijos, então por míseros minutos, o buraco em meu peito ficava suportável.
- Me conte... Me conte como foi... A historia de vocês! – no fundo sabia que isso traria sofrimento ao meu pai, mas precisava disso há muito tempo, precisava saber deles, saber de onde vim, como minha mãe era... E acima de tudo naquele momento, precisava anestesiar minha dor.
- Certo, deixe-me ver...
"Eu fui educado em casa pela minha mãe e tia, meu pai não permitia que eu fosse à escola, e tive uma educação num todo, muito rígida, nas férias ia para a fazenda da família, sem amigos, sem contato com o mundo exterior, apenas treinando... Para ser, o que nasci para ser... Sabia que a responsabilidade era enorme e que não havia espaço para mais nada em minha vida... A não ser Cecilia..."
Jesus que tipos de sacríficos meu pai teve de fazer por ser quem ele é?!
"Ela era meu refugio, era como respirar ar puro em meio à poluição, não podia me dar ao luxo de ama-la, mas não conseguia evitar. Só que demorou o que pareceu séculos para ela me notar, não que ela me ignorasse, mas realmente me notar sabe? Notar o que sentia por ela... Mas não podia reclamar eu sabia disfarçar, eu a vigiava de longe, sempre de uma distancia segura.
Como éramos vizinhos nos víamos diariamente, mas mantínhamos apenas um contato cordial, não conversávamos, não realmente. Para minha sorte, minha família fazia questão de manter as aparências, então sempre íamos a festas do bairro, que eram comuns naquela época, e foi em uma dessas festas que começamos a nos aproximar. Sua mãe sempre foi muito educada e simpática, eu por outro lado, já não possuía muitas habilidades sociais, e em uma festa junina, depois de passar algumas horas sentado sozinho, ela veio me fazer companhia".
- Vocês eram adolescentes, quero dizer nessa tal festa? – perguntei, mergulhando na historia e imaginando cada detalhe.
- Sua mãe era, ela tinha 16 eu já estava com 20 anos...
- 20? E ainda ficava sozinho em uma festa? – perguntei incrédula.
- Como disse, eu não possuía muitas habilidades sociais, as meninas vinham conversar comigo, mas logo percebiam o quanto eu era "travado" e logo saiam de perto, os rapazes já nem se davam ao trabalho, eles queriam amigos "descolados":
"Acredito que por educação misturada com pena, Cecilia veio sentar ao meu lado e começou a falar comigo, estava tão nervoso que não conseguia completar as frases, me atrapalhei todo, achei que fosse perder a oportunidade, que fosse afugenta-la assim como fazia com as outras meninas, mas ela sorriu..."
Sim, definitivamente minha "habilidade" de engasgar nas frases quando estava nervosa, vinha do meu pai.
"Você tinha que ver como o rosto dela se iluminava quando sorria, tão linda... Enfim, conversamos sobre varias coisas e fiquei de leva-la em casa, já que ambas as famílias já tinham saído e morávamos um do lado do outro, isso era comum, os jovens ficarem um pouco a mais nas festas.
Bom, saímos de lá, caminhamos, conversamos e quando me dei conta, já havíamos chegado a nossas casas, o que me entristeceu profundamente. Me despedi e entrei no meu quintal, então ela me chamou, me chamou de "Beto" e acredite, foi a primeira vez na vida que me deram um apelido, amoleci, mal conseguia andar até a cerca, mas disfarcei e me mantive forte, como um homem deveria ser... Me aproximei da cerca e ela me disse: Para alguém que me ama há tanto tempo... Você deveria se esforçar mais para fazer parte da minha vida!"
- E você? – perguntei ansiosa.
Me ajeitei no banco do carro, estava nervosa, meu coração estava até disparado, minhas mãos suavam, estava excitada com aquele amor, em saber como minha mãe era direta, assim como todos dizem que também sou. Isso era como ler um livro maravilhoso pela primeira vez, inebriante, estava avida por mais.
- Fiquei pasmo, petrificado no lugar, vendo-a entrar em casa...
- E? – ele precisava me dar mais detalhes do que isso.
- E... Que nós chegamos ao Palotinos, e estou faminto, continuamos o resto da historia durante o almoço!
- Ah! – exclamei involuntariamente.
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O Último Olhar
Teen FictionOUO - O Último Olhar - É o segundo livro da Serie The Last (que contará com 5 volumes). Esse livro será publicado de forma independente em 2017. Esse livro NÃO está revisado, mas a pedidos de diversos leitores será postado assim mesmo, portanto não...
