Olívia é uma jovem que acabou de se formar em enfermagem.Brasileira forte,bagagens recheadas de sonhos e gênio dócil,ela vai em busca de seus objetivos na Itália.
O que menos espera é que a vida tem um jeitinho magnífico de surpreender,tornando...
"Em uma terra de deuses e monstros, eu era um anjo vivendo no jardim do mal." — Lana Del Rey
A vida é feita de ciclos — de finais e recomeços que se entrelaçam como estações. Uma das maiores lições que herdei de minha mãe foi jamais subestimar os pequenos começos. O destino, afinal, costuma se revelar nas passagens mais sutis.
— Estou faminta. — resmungou Lexia, revirando o conteúdo da bolsa com impaciência. — Céus, será que estou com vermes?
Desviei o olhar da estreita janela do avião. Não se passara sequer dez minutos desde que ela devorara, sozinha, um pacote tamanho família de batatas fritas.
— Você já repetiu isso pelo menos umas quinhentas vezes. — murmurei, fungando. — O que exatamente habita o seu estômago, criatura? Já tomou o remédio para vermes? Não creio que seja fisiologicamente possível sentir tanta fome...
Lexia era, e sempre fora, minha melhor amiga. Daquelas pessoas raras a quem se ligaria no meio da noite para esconder um cadáver — e ela, sem pestanejar, viria com uma pá e um plano. Ela esteve presente em todos os momentos importantes da minha vida — os bons, os ruins, os insuportáveis. Sempre ao meu lado, com sua personalidade expansiva e imprevisível.
Nos conhecemos aos cinco anos, no jardim de infância. Mamãe havia se mudado para o Rio de Janeiro em busca de uma vida mais digna, e foi nessa época que conheci a menina de cabelos cacheados e olhar desconfiado. Morávamos no mesmo condomínio, embora a princípio Lex não fosse exatamente... receptiva. Para ser precisa, ela QUEBROU o meu nariz com um soco. O motivo? Eu a encarei por engano. Acontece que sou míope, e frequentemente fico com o olhar perdido em pontos aleatórios enquanto minha mente vagueia por outras dimensões.
Sim, Lexia podia ser cruel, impulsiva, e por vezes — perdoe-me o termo — uma verdadeira vaca. Mas agora ela era a minha vaca. Minha pessoa. Meu pilar.
Nossa amizade floresceu pouco tempo após o episódio do nariz quebrado e, desde então, tornamo-nos inseparáveis. Compartilhamos a infância, a adolescência, os dramas da juventude. Cursamos juntas o ensino fundamental, o colegial e até mesmo a graduação. Eu, em Enfermagem. Lexia, em Publicidade e Marketing — algo que já era previsível, considerando sua habilidade de convencer qualquer um de qualquer coisa. Se quisesse, ela venderia um par de meias sujas como se fossem assinadas pela Chanel.
— Pelo amor de Deus, Lilica! — ela exclamou, erguendo as sobrancelhas com teatralidade. — Tenho culpa se meu estômago não sabe que horas são? Tem alguma barrinha de chocolate? Qualquer coisa serve! Pelo preço dessa passagem, deveriam me servir um coquetel a cada cinco minutos!
Ri, embora por dentro a vontade fosse chorar. A aeromoça que passava pelo corredor lançou um olhar atônito diante da pilha de alimentos que Lexia já havia consumido: salgadinho, refrigerante, uma maçã, e agora pedia por chocolate.
— Você realmente come como se o mundo fosse acabar amanhã. — murmurei, revirando minha bolsa até encontrar a bendita barra.
Ela a pegou com a avidez de um zumbi em busca de carne humana.
— É por isso que eu te amo. — disse, atirando-me beijos imaginários. — Você sabe que quando estou ansiosa, como tudo o que vejo pela frente. Claro que depois vou me entupir de laxantes e tentar sobreviver de luz solar para caber em algum manequim impossível.
Mas meu semblante mudou. Eu compreendia perfeitamente a origem da ansiedade dela — porque, na verdade, era também a minha.
Estávamos deixando tudo para trás. Tudo o que conhecíamos. Rumo ao desconhecido.
Minhas lágrimas retornaram, silenciosas. Virei o rosto para a janela, tentando disfarçar. Eu não podia fraquejar. Não agora. A decisão de mudar para a Itália havia sido dolorosa, e eu sabia que não havia caminho de volta.
Mamãe falecera no ano anterior, vítima de um câncer de mama agressivo, aos quarenta anos. Por muito tempo, me agarrei à esperança de que ela se recuperaria. Lutei contra a maré, neguei a realidade, sufoquei o medo. Mas numa tarde silenciosa de domingo, o coração de minha mãe simplesmente parou de bater. E, por alguns instantes, o meu parou junto.
Nunca imaginei que enterraria minha mãe tão jovem. Meu mundo desabou. Meu coração se despedaçou. E precisei, sozinha, recolher cada caco e seguir adiante.
Jamais conheci meu pai. Sempre que o mencionava, minha mãe desviava o assunto, envolta em sombras. Ele era uma incógnita. Com o tempo, deixei de perguntar. Se ele realmente se importasse, teria me procurado.
Elisa Sarabelly foi minha heroína. Trabalhou incansavelmente para me ver formada. Mas não viveu o suficiente para me aplaudir na cerimônia de colação.
— Está chorando novamente? — Lex perguntou, com voz suavemente embargada.
Seus olhos brilharam com a mesma emoção que ela tentava esconder.
Detesto ser tão sensível. Mas ali, naquele instante, era inevitável.
— Não é nada. — forcei um sorriso.
Ela suspendeu a barra de chocolate, agora esquecida, e estreitou os olhos.
— Vai mesmo tentar me enganar? Justo a mim, a rainha dos escândalos emocionais? — provocou. — A própria Cleópatra reencarnada?
Inclinei a cabeça, hesitante.
— Não sei, Lex... será que estamos fazendo a coisa certa ao deixar o Brasil?
Ela franziu a testa como se minha dúvida fosse um absurdo.
— É claro que sim, mana. Milão é uma cidade próspera. As clínicas valorizam enfermeiras brasileiras. É um novo começo, uma chance real. — apertou minha mão com força. — E, honestamente, nunca conheci alguém tão talentosa quanto você, Olívia.
A ideia de mudar-se para Milão partira de Lex. Passamos dois anos planejando essa mudança, economizando cada centavo, fazendo pequenos investimentos. Estudamos inglês, francês e espanhol sozinhas, com aulas gratuitas no YouTube, até conseguimos nos matricular em um curso de idiomas.
E agora estávamos aqui. Rumo à Itália.
— Estou com medo. — confessei, por fim. — Medo de verdade. E se nada der certo, Lexi? E se acabarmos sem nada? Como vamos sobreviver?
Quando mamãe partiu, Lex me acolheu em sua casa. Ela vivia sozinha, e me ofereceu abrigo sem jamais cobrar um centavo. Foi minha irmã em tudo, menos no sangue. Foi minha salvação.
— Eu sempre estarei ao seu lado, Lilica. — disse, com ternura, enxugando minhas lágrimas. — E se for preciso, viro uma prostituta de luxo, uma mendiga de esquina, o que for. Mas você nunca estará sozinha. No pior dos casos, sei onde fica a Embaixada Brasileira. Estamos juntas, ok?
Dessa vez, ri de verdade.
— Estamos. — sorri, finalmente, com esperança nos olhos.
O que o futuro nos reservava, não sabíamos. Mas, de alguma forma, estávamos prontas para descobrir.
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