Capítulo 1

26.9K 1.1K 104
                                        


"Em uma terra de deuses e monstros, eu era um anjo vivendo no jardim do mal." — Lana Del Rey

A vida é feita de ciclos — de finais e recomeços que se entrelaçam como estações.
Uma das maiores lições que herdei de minha mãe foi jamais subestimar os pequenos começos. O destino, afinal, costuma se revelar nas passagens mais sutis.

— Estou faminta. — resmungou Lexia, revirando o conteúdo da bolsa com impaciência. — Céus, será que estou com vermes?

Desviei o olhar da estreita janela do avião. Não se passara sequer dez minutos desde que ela devorara, sozinha, um pacote tamanho família de batatas fritas.

— Você já repetiu isso pelo menos umas quinhentas vezes. — murmurei, fungando. — O que exatamente habita o seu estômago, criatura? Já tomou o remédio para vermes? Não creio que seja fisiologicamente possível sentir tanta fome...

Lexia era, e sempre fora, minha melhor amiga. Daquelas pessoas raras a quem se ligaria no meio da noite para esconder um cadáver — e ela, sem pestanejar, viria com uma pá e um plano.
Ela esteve presente em todos os momentos importantes da minha vida — os bons, os ruins, os insuportáveis. Sempre ao meu lado, com sua personalidade expansiva e imprevisível.

Nos conhecemos aos cinco anos, no jardim de infância.
Mamãe havia se mudado para o Rio de Janeiro em busca de uma vida mais digna, e foi nessa época que conheci a menina de cabelos cacheados e olhar desconfiado.
Morávamos no mesmo condomínio, embora a princípio Lex não fosse exatamente... receptiva. Para ser precisa, ela QUEBROU o meu nariz com um soco.
O motivo? Eu a encarei por engano. Acontece que sou míope, e frequentemente fico com o olhar perdido em pontos aleatórios enquanto minha mente vagueia por outras dimensões.

Sim, Lexia podia ser cruel, impulsiva, e por vezes — perdoe-me o termo — uma verdadeira vaca. Mas agora ela era a minha vaca. Minha pessoa. Meu pilar.

Nossa amizade floresceu pouco tempo após o episódio do nariz quebrado e, desde então, tornamo-nos inseparáveis.
Compartilhamos a infância, a adolescência, os dramas da juventude.
Cursamos juntas o ensino fundamental, o colegial e até mesmo a graduação. Eu, em Enfermagem. Lexia, em Publicidade e Marketing — algo que já era previsível, considerando sua habilidade de convencer qualquer um de qualquer coisa. Se quisesse, ela venderia um par de meias sujas como se fossem assinadas pela Chanel.

— Pelo amor de Deus, Lilica! — ela exclamou, erguendo as sobrancelhas com teatralidade. — Tenho culpa se meu estômago não sabe que horas são? Tem alguma barrinha de chocolate? Qualquer coisa serve! Pelo preço dessa passagem, deveriam me servir um coquetel a cada cinco minutos!

Ri, embora por dentro a vontade fosse chorar. A aeromoça que passava pelo corredor lançou um olhar atônito diante da pilha de alimentos que Lexia já havia consumido: salgadinho, refrigerante, uma maçã, e agora pedia por chocolate.

— Você realmente come como se o mundo fosse acabar amanhã. — murmurei, revirando minha bolsa até encontrar a bendita barra.

Ela a pegou com a avidez de um zumbi em busca de carne humana.

— É por isso que eu te amo. — disse, atirando-me beijos imaginários. — Você sabe que quando estou ansiosa, como tudo o que vejo pela frente. Claro que depois vou me entupir de laxantes e tentar sobreviver de luz solar para caber em algum manequim impossível.

Mas meu semblante mudou.
Eu compreendia perfeitamente a origem da ansiedade dela — porque, na verdade, era também a minha.

Estávamos deixando tudo para trás. Tudo o que conhecíamos. Rumo ao desconhecido.

Minhas lágrimas retornaram, silenciosas. Virei o rosto para a janela, tentando disfarçar.
Eu não podia fraquejar.
Não agora.
A decisão de mudar para a Itália havia sido dolorosa, e eu sabia que não havia caminho de volta.

Mamãe falecera no ano anterior, vítima de um câncer de mama agressivo, aos quarenta anos.
Por muito tempo, me agarrei à esperança de que ela se recuperaria. Lutei contra a maré, neguei a realidade, sufoquei o medo.
Mas numa tarde silenciosa de domingo, o coração de minha mãe simplesmente parou de bater.
E, por alguns instantes, o meu parou junto.

Nunca imaginei que enterraria minha mãe tão jovem.
Meu mundo desabou. Meu coração se despedaçou.
E precisei, sozinha, recolher cada caco e seguir adiante.

Jamais conheci meu pai. Sempre que o mencionava, minha mãe desviava o assunto, envolta em sombras.
Ele era uma incógnita.
Com o tempo, deixei de perguntar. Se ele realmente se importasse, teria me procurado.

Elisa Sarabelly foi minha heroína. Trabalhou incansavelmente para me ver formada.
Mas não viveu o suficiente para me aplaudir na cerimônia de colação.

— Está chorando novamente? — Lex perguntou, com voz suavemente embargada.

Seus olhos brilharam com a mesma emoção que ela tentava esconder.

Detesto ser tão sensível. Mas ali, naquele instante, era inevitável.

— Não é nada. — forcei um sorriso.

Ela suspendeu a barra de chocolate, agora esquecida, e estreitou os olhos.

— Vai mesmo tentar me enganar? Justo a mim, a rainha dos escândalos emocionais? — provocou. — A própria Cleópatra reencarnada?

Inclinei a cabeça, hesitante.

— Não sei, Lex... será que estamos fazendo a coisa certa ao deixar o Brasil?

Ela franziu a testa como se minha dúvida fosse um absurdo.

— É claro que sim, mana. Milão é uma cidade próspera. As clínicas valorizam enfermeiras brasileiras. É um novo começo, uma chance real. — apertou minha mão com força. — E, honestamente, nunca conheci alguém tão talentosa quanto você, Olívia.

A ideia de mudar-se para Milão partira de Lex.
Passamos dois anos planejando essa mudança, economizando cada centavo, fazendo pequenos investimentos.
Estudamos inglês, francês e espanhol sozinhas, com aulas gratuitas no YouTube, até conseguimos nos matricular em um curso de idiomas.

E agora estávamos aqui. Rumo à Itália.

— Estou com medo. — confessei, por fim. — Medo de verdade. E se nada der certo, Lexi? E se acabarmos sem nada? Como vamos sobreviver?

Quando mamãe partiu, Lex me acolheu em sua casa.
Ela vivia sozinha, e me ofereceu abrigo sem jamais cobrar um centavo.
Foi minha irmã em tudo, menos no sangue.
Foi minha salvação.

— Eu sempre estarei ao seu lado, Lilica. — disse, com ternura, enxugando minhas lágrimas. — E se for preciso, viro uma prostituta de luxo, uma mendiga de esquina, o que for. Mas você nunca estará sozinha. No pior dos casos, sei onde fica a Embaixada Brasileira. Estamos juntas, ok?

Dessa vez, ri de verdade.

— Estamos. — sorri, finalmente, com esperança nos olhos.

O que o futuro nos reservava, não sabíamos.
Mas, de alguma forma, estávamos prontas para descobrir.


Mas, de alguma forma, estávamos prontas para descobrir

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Querida babá Onde histórias criam vida. Descubra agora