Sempre procurei enxergar o lado positivo das coisas. Esse sempre foi o meu lema. Entretanto, ultimamente, começo a questionar se ele ainda faz sentido.
Estou em apuros.
Há três semanas desembarquei em Milão, carregando comigo a esperança de que, em poucos dias, teria um emprego estável e um recomeço promissor. Mas a realidade foi menos generosa do que meus sonhos.
Primeiro, distribuí currículos em hospitais, clínicas e maternidades — todos devidamente traduzidos, com minhas qualificações em destaque. Nenhuma resposta. Em seguida, comecei a buscar empregos temporários em estabelecimentos brasileiros: restaurantes, cafés, qualquer coisa que me conectasse com a comunidade local. O retorno? Nulo.
Todos os dias, saio pela manhã com o firme propósito de encontrar uma oportunidade. Mas o desespero começa a se instalar à medida que minhas economias diminuem. E se nada mudar, logo não terei sequer o suficiente para o básico.
Ao chegar ao prédio onde estou morando, cumprimento o porteiro em italiano:
— Buona sera.
Meu corpo clama por descanso. Cada passo até o apartamento pesa. O local onde estamos não é exatamente luxuoso; pelo contrário, precisa urgentemente de reformas. Ainda assim, foi uma escolha viável para mim e Lexia. E, com a ajuda de vídeos no YouTube, demos nosso jeito de torná-lo acolhedor. Afinal, se tem algo que brasileiro sabe fazer é se virar.
Uma música sertaneja começa a ecoar pelo corredor. Reconheço a melodia antes mesmo de abrir a porta. A vizinhança, com certeza, também.
"Me desarmando totalmente
Bagunçando a minha mente
E eu caio, de novo nesse seu campo minado..."
Abro a porta e sou recebida por Lexia dançando pela sala com uma vassoura como par. A cena é cômica, mas genuinamente reconfortante. A música toca alto, e ela canta junto sem qualquer vergonha:
— "O batom vermelho com o vestido preto aí cê me arrebenta, já tava te esquecendo, é covardia o que cê tá fazendo..."
— Chuchu, venha dançar comigo! — diz ela ao me ver, abandonando a vassoura para me puxar. Giro desajeitadamente e, entre risadas, caímos juntas no sofá.
— E então? Como foi o dia? — pergunta, ajeitando um lenço de bolinhas no cabelo.
— Do mesmo jeito de sempre. Amanhã continuo com a maratona de currículos. — tento soar neutra, escondendo o cansaço emocional.
Ela cruza as pernas e me encara com atenção.
— Não desanima, Olivia. Você vai encontrar algo à sua altura, e quando isso acontecer, será a oportunidade certa.
Lexia conseguiu emprego logo na primeira semana em Milão, numa renomada empresa de joias — Pandora X. Nunca pesquisei a fundo, mas pelo que ela descreve, o lugar exala sofisticação e luxo.
— Obrigada, Lex. — tento sorrir. — E você, estava fazendo o quê antes de eu chegar?
— Tirei o dia de folga e tentei preparar um jantar especial. Pensei que poderíamos relaxar um pouco hoje.
— E teve sucesso? — pergunto com um sorriso malicioso, já esperando a resposta.
Lexia não é exatamente uma exímia cozinheira. Cada tentativa na cozinha vira uma cena de comédia. Mas admiro sua disposição.
— Bom... digamos que você não vai querer comer o que eu fiz. — responde, com uma risada discreta.
Vamos juntas até a cozinha. Pego alguns ingredientes e começo a improvisar algo.
— Você é meu anjo da guarda. — diz ela, sentando-se numa das banquetas.
— Aham... Diz isso para todas? — brinco, rachando os ovos na tigela.
Lexia sorri e bate os dedos ritmicamente sobre a bancada.
— Pode existir um milhão de pessoas no mundo, mas nenhuma vai ser igual a você.
Não posso deixar de rir. O bom humor dela é contagiante.
— Vamos de omelete hoje? — pergunto, organizando os ingredientes.
— Aceito. Mas, por favor, não chame isso de omelete gourmet. A gente sabe que é o famoso "zoião mexido" com requinte.
Preparo a refeição com calma, enquanto ela me observa. Corto tomates, fatio queijo e presunto, mexo a massa de macarrão. Lexia aspira o cheiro e suspira.
— Isso está com um cheiro maravilhoso. Juro que se você não fosse enfermeira, te indicaria para o MasterChef.
— Pode ser, mas prefiro cuidar. Cozinhar é só um bônus.
Ela deixa o garfo cair no prato com um leve tilintar. Isso me alerta.
— Lilica, já pensou em trabalhar com crianças? — pergunta de forma casual, mas com um brilho nos olhos.
— Gosto da ideia... Por quê?
— Nada. Só pensei alto. — ela disfarça com um sorriso travesso.
Conheço esse olhar. É o tipo de expressão que precede planos mirabolantes. E quando Lexia tem uma ideia, é melhor eu me preparar.
— Que Deus me proteja... — murmuro em silêncio, rindo por dentro.
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Querida babá
RomansaOlívia é uma jovem que acabou de se formar em enfermagem.Brasileira forte,bagagens recheadas de sonhos e gênio dócil,ela vai em busca de seus objetivos na Itália. O que menos espera é que a vida tem um jeitinho magnífico de surpreender,tornando...
