Capítulo 2

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Sempre procurei enxergar o lado positivo das coisas. Esse sempre foi o meu lema. Entretanto, ultimamente, começo a questionar se ele ainda faz sentido.

Estou em apuros.

Há três semanas desembarquei em Milão, carregando comigo a esperança de que, em poucos dias, teria um emprego estável e um recomeço promissor. Mas a realidade foi menos generosa do que meus sonhos.

Primeiro, distribuí currículos em hospitais, clínicas e maternidades — todos devidamente traduzidos, com minhas qualificações em destaque. Nenhuma resposta. Em seguida, comecei a buscar empregos temporários em estabelecimentos brasileiros: restaurantes, cafés, qualquer coisa que me conectasse com a comunidade local. O retorno? Nulo.

Todos os dias, saio pela manhã com o firme propósito de encontrar uma oportunidade. Mas o desespero começa a se instalar à medida que minhas economias diminuem. E se nada mudar, logo não terei sequer o suficiente para o básico.

Ao chegar ao prédio onde estou morando, cumprimento o porteiro em italiano:

— Buona sera.

Meu corpo clama por descanso. Cada passo até o apartamento pesa. O local onde estamos não é exatamente luxuoso; pelo contrário, precisa urgentemente de reformas. Ainda assim, foi uma escolha viável para mim e Lexia. E, com a ajuda de vídeos no YouTube, demos nosso jeito de torná-lo acolhedor. Afinal, se tem algo que brasileiro sabe fazer é se virar.

Uma música sertaneja começa a ecoar pelo corredor. Reconheço a melodia antes mesmo de abrir a porta. A vizinhança, com certeza, também.

"Me desarmando totalmente
Bagunçando a minha mente
E eu caio, de novo nesse seu campo minado..."

Abro a porta e sou recebida por Lexia dançando pela sala com uma vassoura como par. A cena é cômica, mas genuinamente reconfortante. A música toca alto, e ela canta junto sem qualquer vergonha:

— "O batom vermelho com o vestido preto aí cê me arrebenta, já tava te esquecendo, é covardia o que cê tá fazendo..."

— Chuchu, venha dançar comigo! — diz ela ao me ver, abandonando a vassoura para me puxar. Giro desajeitadamente e, entre risadas, caímos juntas no sofá.

— E então? Como foi o dia? — pergunta, ajeitando um lenço de bolinhas no cabelo.

— Do mesmo jeito de sempre. Amanhã continuo com a maratona de currículos. — tento soar neutra, escondendo o cansaço emocional.

Ela cruza as pernas e me encara com atenção.

— Não desanima, Olivia. Você vai encontrar algo à sua altura, e quando isso acontecer, será a oportunidade certa.

Lexia conseguiu emprego logo na primeira semana em Milão, numa renomada empresa de joias — Pandora X. Nunca pesquisei a fundo, mas pelo que ela descreve, o lugar exala sofisticação e luxo.

— Obrigada, Lex. — tento sorrir. — E você, estava fazendo o quê antes de eu chegar?

— Tirei o dia de folga e tentei preparar um jantar especial. Pensei que poderíamos relaxar um pouco hoje.

— E teve sucesso? — pergunto com um sorriso malicioso, já esperando a resposta.

Lexia não é exatamente uma exímia cozinheira. Cada tentativa na cozinha vira uma cena de comédia. Mas admiro sua disposição.

— Bom... digamos que você não vai querer comer o que eu fiz. — responde, com uma risada discreta.

Vamos juntas até a cozinha. Pego alguns ingredientes e começo a improvisar algo.

— Você é meu anjo da guarda. — diz ela, sentando-se numa das banquetas.

— Aham... Diz isso para todas? — brinco, rachando os ovos na tigela.

Lexia sorri e bate os dedos ritmicamente sobre a bancada.

— Pode existir um milhão de pessoas no mundo, mas nenhuma vai ser igual a você.

Não posso deixar de rir. O bom humor dela é contagiante.

— Vamos de omelete hoje? — pergunto, organizando os ingredientes.

— Aceito. Mas, por favor, não chame isso de omelete gourmet. A gente sabe que é o famoso "zoião mexido" com requinte.

Preparo a refeição com calma, enquanto ela me observa. Corto tomates, fatio queijo e presunto, mexo a massa de macarrão. Lexia aspira o cheiro e suspira.

— Isso está com um cheiro maravilhoso. Juro que se você não fosse enfermeira, te indicaria para o MasterChef.

— Pode ser, mas prefiro cuidar. Cozinhar é só um bônus.

Ela deixa o garfo cair no prato com um leve tilintar. Isso me alerta.

— Lilica, já pensou em trabalhar com crianças? — pergunta de forma casual, mas com um brilho nos olhos.

— Gosto da ideia... Por quê?

— Nada. Só pensei alto. — ela disfarça com um sorriso travesso.

Conheço esse olhar. É o tipo de expressão que precede planos mirabolantes. E quando Lexia tem uma ideia, é melhor eu me preparar.

— Que Deus me proteja... — murmuro em silêncio, rindo por dentro.

Querida babá Onde histórias criam vida. Descubra agora