Jornada de três

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"Em certos instantes eu não preciso de conselhos sábios seus, apenas escutar teu riso, ou fazer você arrancar o meu para fora de mim."

Lorem Krsna

A gente sempre precisa de uma crença para se manter de pé, minha mãe sempre falava isso.

Minha mãe nunca foi de me amaciar, ou mentir para mim. Eu lembro bem no dia que o papai morreu. Por causa do trabalho dele como piloto das forças armadas, a gente havia vivido em vários lugares, e como eu o via apenas nas folgas, não era muito. Mas eu amava muito meu pai, e sempre que ele aparecia me levava para um monomotor que ele tinha e deixava que eu mexesse em tudo.

Quando ele morreu, morávamos na Califórnia. Meu pai era Australiano, mas vivia na América desde a adolescência. Minha mãe era do Japão, crescera lá mas havia ido para a América em busca de uma vida diferente, tentando seguir os passos opostos da minha avó que fora uma mulher de Nova York e fora ao Japão e lá vivera toda a vida após casar. Minha mãe uma vez me falara que cresceu em uma família cheia de frufrus. Na época não sabia o que era isso, e até hoje não imagino minha mãe crescendo como uma dama. Eu penso mesmo que se ela não houvesse encontrado meu pai em uma briga de bar ela nunca teria casado com ninguém.

Quem os visse juntos, sabia que não podia existir um sem o outro. Eram como uma continuidade só, em pensamentos, discussões e sonhos. Por isso eu penso o quando minha mãe é forte, o quanto ela foi quando ele se foi. Quando ele morreu, depois do enterro ela me levou para um café que ficava na rua da nossa casa. Eu tinha sete anos, mas lembro bem como o sol batia na vitrine da frente no fim de tarde. E lembro que a garçonete trouxe panquecas e minha mãe me deixou tomar café e me tratou como adulto. O rosto dela escondia muitos sentimentos que eu não entendia na época.
Ela disse que íamos ser só nós dois agora, e que íamos embora para o Japão para ficar perto da família dela, que eu nunca havia conhecido. Eu lembro das palavras exatas que eu falei.
– Eu acreditei que a gente ia ficar aqui pra sempre, nós três. Que o papai viveria para sempre.
– Eu sei, mas sabe, Naru? Quando você for grandinho vai entender que na vida a gente vai acreditando e desacreditando sempre. A gente precisa crer sempre em alguma coisa, mas nem sempre vai ser a mesma coisa para sempre.
Aquelas palavras sempre me perseguiram. Mesmo quando a gente chegou no Japão e minha Avó Tsunade estava lá de braços abertos. E bem depois, e com o tempo eu sempre pensei que já entendia isso.
Eu estava errado.

Eu só comecei a entender na noite depois da noticia que eu ficaria cego. Eu passei um bom tempo da madrugada olhando pela janela do quarto, me questionando sobre a existência de Deus e sobre os planos que ele teria para mim. Eu sempre acreditei que minha vida seguiria uma linha reta, se eu caminhasse reto. Eu sempre acreditara de verdade nisso. Mas ali estava eu, com um troço na minha cabeça que me deixaria cego, e poderia até me matar.

O que eu fizera de errado? Eu repassei todos os meus passos, e tudo que encontrei foi um grande ponto de interrogação. E naquele momento, toda minha crença foi por água abaixo. Eu continuava acreditando em Deus, mas não conseguia entendê-lo. E nem qualquer plano, ou justiça. Eu precisava crer em algo, mas não sabia em quê mais.
E era isso que eu iria descobrir.
Pela manhã, quando acordei minha avó estava na cozinha com minha mãe. Ela já sabia, mas não me questionou, apenas me abraçou e foi com minha mãe me deixar no galpão dos aviões de meu avô e de meu pai.
No portão deste já estavam Sakura e Sasuke conversando sentados no capô do Delrey antigo do Uchiha. Quando me viram ela abriu um sorriso largo e ele apenas assentiu e pulou do capô entrando no galpão. Itachi também estava lá, e meu avô Jiraya, e Kakashi. E quando eu desci do carro todos me olharam. O sol ainda estava nascendo, fora o horário que eu decidira partir, e ele vinha dançando uma luz alaranjada em todos nós, e eu pensei que naquele momento tudo parou por alguns segundos enquanto eu gravava todos os rostos que talvez eu não visse mais quando voltasse.
Um mês, eu tinha um mês para fazer valer a pena e fazer tudo o que eu nunca fizera na vida. Depois disso eu encontraria Itachi e minha mãe no hospital em Tokyo, com tudo pronto para a cirurgia.
Um mês para ver tudo o que eu mais desejava ver, antes de não ver mais.
Senti o braço da minha mãe me rodear e me puxar para um abraço forte fazendo o tempo voltar a andar.
– Não precisa fazer isso. - ela sussurrou, sem tentar me convencer de verdade.
– Preciso sim. - respondi calmo e lhe dei um beijo na testa. A porta do galpão abriu e de dentro dele saiu um SENECA branco e laranja. Segurei a mão da minha mãe e caminhamos juntos até a máquina enquanto Sasuke pulava de dentro. Acariciei o corpo do bimotor e sorri para todos.
Coisas foram ditas, outras não se fizeram necessárias. Um abraço da minha avó, pedidos de cuidado. Eu sabia que eles estavam sentindo pena de mim, eu algo assim, e eu não queria ver isso nos olhos de ninguém. Nem queriam que vissem o quanto eu estava assustado e não fazia ideia do que estava fazendo realmente. E se naquele momento minha mãe houvesse pedido, eu teria ficado, talvez. Mas ela não pediu, ela me conhecia.
Então entramos, Sasuke como Piloto pois eu não sabia quando um apagão poderia vir, eu a seu lado caso precisasse interferir em algo, e Sakura atrás após guardar nossas mochilas e algumas previsões até a próxima cidade que teríamos que abastecer. Na noite, Jiraya, meu avô, e Sasuke haviam testado tudo, e parecia tudo ok. Havíamos feitos os planos das cidades em que teríamos que descer, contagem de combustível e necessidade de revisão.
Quando subimos, eu olhava para baixo, vendo os pontos sumir, como tantas vezes fizera, mas com a sensação que aquela seria a ultima vez que eu veria os cabelos vermelhos da minha mãe voando ao longe enquanto eles acenavam.
Nenhum de nós três falou por um tempo. Até Sakura ligar uma música dos anos 60 em um rádio velho que ela era apegada desde criança. Ela era meio assim, de uma outra época.
A música inundou o ambiente, era do grupo Bread, e sabíamos a letra decorada por ela cantar tantas vezes. Meu rosto que estivera afundado sorriu de leve e eu quase pude ver um no sempre estoico Uchiha a meu lado.
– Desejo 1, subir em um avião e viajar sem destino certo pelo país. - Ela falou divertida em nossa direção.
– Ainda gostava mais da ideia do menagé. - falei alto direcionando a voz para a garota de cabelos rosa e blusa do Greenpeace atrás para provocá-la por vetar uma das minha ideias na noite anterior. Um sapato bateu no meu assento.
– Você teria colocado isso se eu não tivesse lá mesmo para impedir seu imbecil? - ela gritou irritada.
– Ela tem razão Dobe. - Sasuke falou sério. - Isso foi idiota.
Ouvi a risada triunfante de Sakura por Sasuke concordar com ela, o que era raro de acontecer.
– Afinal, você pode fazer isso mesmo cego. - ele completou. - Você vai perder a visão e não o seu pênis.
Outro sapato voou e Sakura começou a xingar por ter aceitado vir. Eu só conseguia rir, saindo de meu humor negro enquanto Sasuke lançava um olhar mortal para trás pelo sapato quase ter acertado sua cabeça.
– Para de rir dobe, está me atrapalhando com essa risada de urso engasgado. Vai derrubar esse avião e matar a gente! - O Uchiha sibilou enquanto eu já chorava de rir.
– Meu Deus, como eu fui aceitar viajar que esses dois idiotas. - Sakura xingava atrás. - Pervertidos de uma figa.
– Se jogar outro sapato aqui vou fazer você engolir!
– Na próximo não jogo, eu enfio ele no seu...
Aquela ia ser uma longa jornada, eu tinha certeza. E eu só tinha a agradecer por aqueles dois idiotas virem comigo e me fazerem rir e esquecer por alguns instantes o quanto minha vida estava fodida.

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