Memórias da noite

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Na manhã de domingo, a luz suave do sol entrava em feixes perfeitos pelas frestas da cortina, iluminando o quarto de Amber com um brilho quase cinematográfico. Do lado de fora, os pássaros se empolgavam num coral afinado demais para ser real, e os beija-flores flutuavam entre as rosas recém-abertas perto da cerca do jardim, como se estivessem em slow motion. Tudo parecia calmo. Bonito. Normal.

Amber bocejou preguiçosamente, sentando-se à beira da cama. Seus pés tocaram o chão gelado, fazendo-a arrepiar. O relógio de ponteiros — marcava 9h32. Ela suspirou.

O céu do lado de fora estava limpo, num tom azul-claro quase irreal. As árvores dançavam suavemente com o vento, e havia o cheiro inconfundível de flores silvestres no ar — uma mistura de lavanda, terra úmida.

Mas mesmo com toda aquela calmaria... a noite anterior estava ali. Latejando na mente dela.

Sem dizer uma palavra, Amber se deixou cair de novo sobre os lençóis brancos, afundando o rosto no travesseiro macio como se pudesse sufocar os pensamentos — ou, pelo menos, adormecê-los por mais um tempo. Fechou os olhos. Mas foi inútil.

Ele apareceu. De novo.

Aqueles olhos — escuros, fundos, quase perigosos — invadiram sua mente como se estivessem gravados ali, como uma música grudenta que não quer sair.

Ela apertou os olhos com força. Mas até isso parecia trazê-lo de volta com mais intensidade. Podia quase sentir o cheiro dele: Marlboro e menta. Uma combinação que deveria ser repelente, mas que, de alguma forma, era viciante. E aquela sensação — os músculos dele pressionando contra os dela, a respiração entrecortada, o olhar faminto — tudo voltava como uma lembrança que nunca aconteceu.

Por que ele ainda estava ali? Por que ainda rondava seus pensamentos, mesmo quando tudo nela implorava por distância?

Amber odiava aquilo. Odiava o poder que ele tinha. Odiava o jeito como, mesmo sem conhecê-lo de verdade, sentia como se soubesse tudo.

— Ei, garota? É surda ? — Black cruzou os braços com a calma de quem não tinha absolutamente nada a perder. O sorrisinho torto nos lábios dele era quase um desafio. — E agora?

Amber respirou fundo, tentando controlar o rubor que já subia por seu pescoço. Ótimo. A cereja do bolo: ficar vermelha na frente de um completo lunático. E um lunático bonito ainda por cima, o que tornava tudo mil vezes pior.

Ela tentou manter a compostura, mas seu olhar escorregou — traidora — para os lábios dele. Cheios. Rosados. Como se a violência que ele acabara de cometer não tivesse deixado sequer uma rachadura naquela perfeição.

— Você... você é um louco — gaguejou, sentindo a bile da lembrança subir à garganta. Se ela não tivesse intervindo... ele poderia ter matado aquele garoto. — Você ia matá-lo.

Amber queria xingar. Queria gritar. Mas sua voz parecia ter sido sequestrada por alguma força invisível. Como se estivesse hipnotizada, presa naquele instante, nos olhos dele, nos segundos anteriores à catástrofe.

— Olha aqui, menininha — começou Black, e o apelido já a fez querer socar alguma coisa — eu poderia ter te machucado. Feio. Você não tinha que ter interferido. Mas não quero dor de cabeça com os Pierce.

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