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Do jardim dos fundos da casa de Amber, o som da tv da casa da Mara atravessava as cercas e cortava o silêncio preguiçoso da tarde. As vozes dos âncoras ecoavam em uníssono em praticamente todos os canais possíveis: Cíntia Rose. Dezesseis anos. Assassinada.
Sua foto — um retrato quase perfeito de juventude e promessas — aparecia em todos os lugares. Um apelo coletivo por justiça. Cíntia tinha sido morta momentos depois de sair da lanchonete onde aguardava pelo namorado, Ethan Jacobs. Mas Ethan não chegou a tempo. Ele virou o principal suspeito, claro. Até que surgiram as imagens de segurança provando que ele estava indo ao encontro dela. Só se atrasou.
Amber suspirou, fechando o livro que segurava no colo. Mitos e Lendas. A capa era dura, escura e arranhada nos cantos, como se tivesse passado por muitas mãos antes das dela. Seis dias haviam se passado desde que o pegou com o bibliotecário Robert — tempo suficiente para muitos leitores devorarem as páginas, mas Amber gostava de ler devagar. Saboreava cada frase, cada teoria, como se houvesse pistas escondidas entre as linhas.
Nos últimos tempos, ela estava cada vez mais obcecada com as lendas. Vampiros. Lobos. Criaturas que, supostamente, rondavam a história esquecida da cidade. Começou a procurar em fóruns online, sites e blogs abandonados. E para sua surpresa, muitos dos relatos batiam exatamente com o que estava escrito no livro da biblioteca. Detalhes que não pareciam coincidência.
Ela deslizou as unhas curtas pela capa do livro, produzindo um som suave e oco. Suas costas reclamavam. Já haviam se passado duas horas desde o almoço, e ela ainda estava ali — sentada no velho gazebo do quintal, cuja madeira cheirava a umidade e saudade. A escola havia decretado um dia de folga em homenagem a Cíntia Rose. À tarde, haveria um memorial no campo de futebol dos atletas, e a presença dos alunos era obrigatória. Mesmo dos que jamais haviam trocado uma palavra com a garota.
Amber alongou o pescoço lentamente, fechando os olhos e pressionando a mão contra a nuca. A dor era discreta, mas insistente.
Uma borboleta — pálida, quase transparente — pousou nas cordas que um dia sustentaram flores trepadeiras ao redor do gazebo. De onde estava, Amber tinha uma visão parcial da cozinha, através do vidro da janela. Lá dentro, sua mãe, Catarina, falava ao telefone com alguém que Amber não conseguia ver, mas desejava entender.
Os cabelos da mãe estavam presos em um coque feito às pressas, os fios escapando pelas laterais. O celular pressionado contra a orelha, a expressão carregada por uma preocupação que ela tentava esconder. Amber encostou a cabeça na coluna de madeira, tentando fazer leitura labial — um passatempo que aprendera com Cassie — mas um pássaro cantarolava alto demais na árvore do quintal da Mara.
Mesmo assim, ela notou. Algo no olhar da mãe. Um peso silencioso.
Por um momento, Amber se perguntou se a culpa era dela. Seu sonambulismo havia voltado — com mais força do que antes. Mas, nos últimos três dias, ela não acordara na cozinha, nem na sala, nem vagando pelo corredor como uma sombra. As trancas que o Roger instalara pareciam estar funcionando. Por enquanto.
Catarina estava sem maquiagem, o rosto limpo e um pouco mais pálido do que o normal. A sua blusa branca da Gucci, estava manchada por um respingo de molho do almoço — um acidente bobo, mas que a deixou visivelmente irritada.
— Ah... que droga — murmurou, baixinho, como se não quisesse ser ouvida.
— Está tudo bem, mãe? — perguntou Amber, soltando o garfo antigo no prato, o som metálico quebrando o silêncio.
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Full Moon
Lobisomema jovem Amber retorna à sua cidade natal para um funeral, apenas para descobrir que seu retorno desencadeia uma série de eventos misteriosos. Ela logo percebe que sua mãe guarda um segredo profundo. No meio desse tumulto emocional, Amber cruza camin...
