Sangue e maldição

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Amber se acomodou no chaise junto à janela do quarto, o livro antigo repousando em seu colo. O cheiro de mofo e papel envelhecido impregnava o ar. Pegara o volume mais cedo com o senhor Robert, o bibliotecário, que lhe entregara com uma expressão grave, quase como se estivesse confiando a ela um segredo.

Ela passou a ponta dos dedos sobre a capa de couro desgastado antes de abrir. As páginas eram frágeis, amareladas pelo tempo, e carregavam histórias que pareciam vivas, sussurrando entre as linhas. O livro falava de bruxas, lobisomens e vampiros que, muito antes da modernidade, fizeram de Charlwood Hills seu domínio.

Entre os relatos mais perturbadores, havia menções ao Museu de Charlwood. A construção de pedra, erguida no século XVIII, fora apelidada de A Casa do Vampiro, pois ali teria vivido Victor Valek, a criatura que espalhou terror por gerações.

Amber virou a primeira página.

"Victor Valek - O Primeiro Vampiro de Charlwood Hills

Victor Valek foi o primeiro vampiro a assombrar Charlwood Hills no século XIX. Um predador meticuloso, encantador e implacável.

Diferente dos vampiros comuns, Victor caminhava à luz do dia, protegido por algum feitiço ou objeto perdido no tempo. Relatos descreviam sua pele fria como mármore, seus olhos hipnotizantes e sua beleza não-humana que atraía vítimas para a escuridão, onde ele drenava cada gota de vida de seus corpos.

"Valek não caçava por necessidade. Ele caçava pelo prazer da destruição."

Os moradores aprenderam a temê-lo. Com o passar dos anos, passaram a evitar as ruas após o pôr do sol. Quem ousava desafiar a noite via sombras se movendo pelas paredes, como se uma aranha gigantesca rastejasse pelas casas, espreitando através das janelas.

Corpos começaram a aparecer nas margens do rio. Corpos secos. Exauridos. Como se o sangue houvesse evaporado dentro deles.

Ninguém sabia como detê-lo.

Amber virou a página, sentindo um arrepio na espinha.

"O Terror das Noites de Lua Cheia"

"Os trilhos enferrujados da antiga ferrovia escondem mais do que lembranças. Dizem que a fera caçava ali, entre o cemitério e os vagões abandonados."

Samuel era apenas um fazendeiro. Um homem simples, até a maldição o transformar em algo muito pior. Em noites de lua cheia, seu corpo se retorcia, sua pele se rasgava, e ele se tornava o lobo.

"As vítimas eram deixadas em pedaços. Ossos quebrados, órgãos arrancados. Nada restava além do sangue espalhado pelo chão."

Moradores aterrorizados relatavam pegadas enormes no solo úmido, arranhões profundos nas cascas das árvores e uivos que atravessavam a cidade como um lamento ancestral.

Uma noite, um homem que cortava caminho pelo bosque foi atacado.

"A coisa tinha mais de dois metros de altura. O cheiro de carne podre e terra úmida impregnava o ar. Olhos brilhantes, presas afiadas, garras que reluziam sob a lua."

Ele se defendeu com uma faca de prata, enfiando-a no braço da criatura. A fera uivou, recuou e... diante de seus olhos apavorados, tornou-se um homem novamente.

Na manhã seguinte, Samuel desapareceu. Apenas um rastro de sangue levava até sua cabana abandonada.

"As Bruxas da Floresta"

"Na floresta densa, sussurros se misturavam ao vento. Alguns diziam que era o farfalhar das folhas. Outros sabiam a verdade: eram vozes."

As bruxas de Charlwood não voavam em vassouras nem tinham narizes retorcidos com verrugas. Elas andavam entre os humanos. Eram curandeiras, perfumistas, mulheres comuns... até que alguém suspeitasse delas.

Uma vez marcadas, eram arrastadas de suas casas. Jogadas às chamas. Queimadas com suas famílias, seus gritos ecoando na noite.

Mas o horror atingiu seu ápice quando 17 bebês desapareceram em um único inverno.

"Alguns acreditavam que foram levados para rituais. Outros diziam que as bruxas os trocavam por algo pior."

Foi então que os "caçadores" surgiram.

"Os Guardiões da Luz - A Caçada de 1923"

Um grupo secreto se formou para erradicar as criaturas que ameaçavam Charlwood Hills. Os Guardiões da Luz.

"Armados com estacas, balas de prata e fogo, os caçadores marcharam contra as trevas. Em 1923, exterminaram mais de 100 lobos e 60 vampiros."

Os corpos eram deixados para apodrecer na floresta. Os Guardiões não buscavam apenas matar-buscavam extinguir.

Mas algo mudou.

" A Guerra Entre Vampiros e Lobisomens - O Pacto de Sangue"

Antes da chegada dos caçadores, vampiros e lobisomens já eram inimigos. Eles se odiavam. Caçavam uns aos outros, disputavam território.

"Os moradores encontravam corpos nas matas - mas não eram humanos. Eram vampiros estraçalhados. Lobisomens despedaçados. Massacrados pela sede de sangue e pela fome de carne." Mas então Victor Valek e Samuel perceberam a ameaça real.

Os caçadores não diferenciavam inimigos. Todos estavam na mira.

Assim, um pacto foi feito.

Nenhum vampiro mataria um lobisomem. Nenhum lobisomem mataria um vampiro.
E, acima de tudo, nenhum deles mataria humanos.

Qualquer criatura que quebrasse o pacto seria caçada. Morta por seu próprio clã.

E assim, aos poucos, a caça cessou.

A cidade voltou a respirar. Mas não significa que o perigo havia desaparecido.

Amber fechou o livro. O peso daquelas palavras ainda pairava no ar.

"Se essas lendas forem reais... então existem vampiros e lobisomens vivendo entre nós."

Ela olhou pela janela.

O vidro estava embaçado pela neblina da noite. No quintal da Mara, os arbustos pontudos se moviam com o vento. Mas por um breve segundo... ela viu algo ali.

Uma silhueta.

Imóvel. Observando-a.

Amber deslizou a mão sobre o vidro, tentando ver melhor.

Mas não havia mais nada ali. Apenas o vento.

Ou talvez... não fosse só o vento.

Full MoonOnde histórias criam vida. Descubra agora