Ontem eu vivia num sonho ao qual eu julgava ser um pesadelo, e hoje me arrependo amargamente. Eu queria estar em casa agora, rindo ao ouvir mamãe reclamando de algum paciente que vomitou nela enquanto papai tentava se manter acordado no sofá. Ou então tentando fazer com que Joe não comesse sozinho toda a pizza que Lara comprou enquanto discutiam o porque de ele não querer entrar para o time de basquete. Eu queria tentar decifrar as histórias doidas que minha avó contava sobre Cher Airns.
"Os Airntesn são os vilões, os Cherans os bonzinhos que tentam o tempo todo salvar o mundo. E os Rains são a ONU, eles quase nunca aparecem, admito, mas estão sempre lá, no meio de tudo, tentando acabar com uma guerra que nunca terá fim" - ela parecia estar novamente se perdendo em seus pensamentos. - "É o que espero."
"Por que não quer que a guerra acabe vó?"
"Um dia você entenderá, Amélia."
Bem, hoje eu entendo o que ela quis dizer, ela esperava que eu nunca viesse para Cher Airns, nunca tivesse de fazer nada do que devo fazer e com isso essa guerra nunca chegaria ao fim. Mas tudo o que ela menos queria, era que eu acabasse igual a ela. Sozinha num quarto frio de um hospício, mas agora, eu sabia que esse era o meu destino, que foi traçado antes mesmo de eu nascer.
Eu já não era mais a mesma de duas semanas atrás, nem meu corpo parecia ser mais o mesmo de antes, minha pele estava muito mais pálida que o normal e meu cabelo estava sem vida e caia cada vez mais. Emagreci no mínimo dez quilos, pode parecer bom, mas já sou magra demais, se eu emagrecer mais uma grama saio voando. Eu não era mais tão sã quanto antes, e acabava descontando isso em meu corpo. Minhas queridíssimas unhas agora são mais do que curtas, são minúsculas, Angel e Lara não querem que eu corte mais meu rosto ou arranque meus cabelos com elas quando tenho uma crise. A cicatriz em meu rosto está sumindo pouco a pouco, isso é a única coisa boa que anda me acontecendo.
Alguns a dias atrás cortei Joe com uma faca, desde então não me permito sair deste quarto, não quero machucar mais ninguém. O pior de ser diferente é ter de fingir ser normal como todos.
Andei pensando em muitas coisas ultimamente, principalmente agora que tenho tempo o suficiente para pensar no que quiser, apesar de que Lara ouve tudo o que penso e de Claus ficar vindo me visitar telepaticamente o tempo todo... Tenho pensado se por acaso não houve alguma falha no destino, alguma coisa que deu errado e partiu como uma enorme flecha que acertou bem no meio do meu peito. Não é possível que eu tenha de ser a Amélia Johansson deles, existem tantas por aí, não deve ser eu. Eu sou apenas uma adolescente maluca que herdou a doença mental de sua avó. A adolescente que não sabe mais como dividir quatro por dois, e que não faz ideia do que é raiz quadrada.
Amy?
O que foi Lara?
Você está bem?
To sim.
Tem certeza que não quer que eu vá aí? Você não vai mesmo comer nada?
Não para as duas perguntas. E o que vocês estão fazendo aí?
Advinhe!
Não tenho ideia.
Travor está dando algum tipo de aula, sorte sua não ter de participar.
Aí é que está, não é que eu não tenha de participar, é que não confiam em mim o suficiente para me entregarem uma espada, principalmente uma que segue todos os meus comandos perfeitamente.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A Maldição da Lua.
Teen FictionAmélia Johansson Stohl, é apenas mais uma adolescente norte-americana comum, bem, isso é o que todos pensam... Agora com seus dezessete anos completos, Amélia terá de unir-se com seres não identificados de um outro universo para acabar com uma...
