Quadragésimo terceiro capítulo

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Tudo o que eu via era a cor azul.

Como eu fiz isso eu não sei, na verdade não me lembro. A dor que eu sentia a poucos minutos atrás, havia sido substituída por uma sensação ótima de estupor e paz. Cheguei a pensar que estava morta e que estava presa naquele meio termo entre a vida e a morte, mas eu estava viva, e ainda podia ouvir a voz de Joe gritando meu nome.

Em segundos me coloquei de pé novamente, mas não exatamente de pé, poismeu corpo flutuava a quase um metro acima do chão. E não estava nem um pouco assustada com isso.

- Mas que diabos é isso? - Perguntou Joe fechando os olhos por causa do brilho que se expandia de meu corpo.

  Ainda não sei como esse brilho surgiu, nem como ele desapareceu, me fazendo cair de joelhos no chão, e sei muito menos ainda o que ele fez comigo que me faz sentir tão bem. 

- Ainda bem que esta viva - disse meu adversário. - Ainda tenho muita raiva pra descarregar.

Ele correu em minha direção, e antes que eu pudesse me levantar seu corpo bateu contra o meu. Eu senti o impacto e a dor que se expandiu por todo meu corpo com ele, mas eu não me movimentei um centímetro sequer. Fechei os olhos, eu só tinha que imaginar. Não adiantaria nada eu usar força bruta com ele, ele tinha quase o triplo do meu tamanho. Estiquei meu braco direito para frente, e algumas gotas de sangue pingaram no chão. Imaginei elas parando no caminho, como se o tempo houvesse parado, e ele de fato parou, apenas por alguns segundos. Segundos o suficiente para a minha mente viajar até a do Airnsten rabujento enjoalhado a minha frente.

Ele de fato me odiava. Sua mente era sombria e perversa, mas havia muita dor também. O irmão era tudo o que ele tinha, e eu tirei isso dele. Eles sempre foram unidos, sempre estiveram juntos, em tudo, até quando o seu mundo foi dividido em dois e eles tiveram de escolher entre os Airnstens e os Cherans. Sempre. Ele perdeu a mãe, quando a mesma tentou os defender de alguns Airnstens que procuravam por comida. Claus o manipulou para que ele o servisse, para que ele fizesse todos pensar que servia a Claus de bom grado, mas seu irmão se ofereceu em seu lugar e acabaram indo os dois. Ele ainda é controlado por Claus, mas ele não tem noção disso, ele acha que esta livre. Com o fim da maldição Claus prometeu libertar todos eles, mas não os libertou, apenas se escondeu na parte mais obscura de suas mentes, na parte em que nenhum deles procurava acessar. Ele se escondeu nas memorias. que todos preferem esquecer, nas memórias que estou acessando e trazendo a tona novamente.

As gotas de sangue se chocaram com a terra, fazendo soar um estrondo que apenas eu pareceu ouvir. Logo minhas lágrimas também começaram a gotejar. Eu nunca imaginei que qualquer um deles pudessem ter um passado tão doloroso. Claus era um monstro. E eu também era um monstro, eu matei o irmão dele, e o caçoei logo em seguida. Eu me odeio. Quantos mais eu teria de matar para conseguir o que quero? Quantos mais devem ter um passado assim? Eu não quero mais fazer isso. Eu não quero nada disso. Eu quero voltar pra casa.

Respirei fundo. Minha cabeca estava doendo, e até mesmo o som da minha própria respiração parecia ressonar na minha cabeça, tudo fazia eco dentro de mim. Claus era o culpado por todo o sofrimento dele, de todos nós. Eu o odeio. Mais do que tudo.

O Airnstens à minha frente chorava tanto quanto eu. Eu não conseguia parar. Eu queria matar Claus agora mesmo, mas a única coisa que fui capaz de fazer foi encara-lo, demonstrando todo o meu ódio, e sussurrar algumas palavras:

- Você é um monstro.

Depois eu corri para longe dele antes que o matasse impulsivamente.

- Drucker, está fora? - gritou Silvermaan.

- Eu desisto! Desisto de tudo.

Corri para o interior da montanha novamente, tropecei no caminho mas não parei de correr. Ouvi passos atrás de mim, mas não fiz questão de me virar para ver quem era, deveria ser o Joe. As lágrimas haviam secado em minha face, mas eu ainda chorava por dentro. Eu também tenho memórias das quais odeio me lembrar, mas eu estava me lembrando de cada uma delas, eu fazia questão de me lembrar. Fazia questão de me lembrar da primeira vez em que meu pai chegou bêbado em casa. Da primeira vez em que vi minha melhor amiga morrer para me defender. De quanto Emily fez picadinho de mim a pedido de Claus, eu gritei tanto por Amy, mas ela não chegou a tempo. Do acidente carro. Da vez em que meu pai tirou a própria vida.

A Maldição da Lua.Onde histórias criam vida. Descubra agora