Não sei quanto tempo havia se passado, mas ainda estava escuro. Camila estava deitada em meus braços, e eu sentia sua respiração subir e descer de forma tranquila enquanto acariciava seus cabelos e as costas nuas. Marcas espalhadas pelos nossos corpos contavam tudo o que vivemos naquela noite, uma, duas, três, quatro vezes... Ainda era pouco pra tanta saudade acumulada.
— Camila?
— Huum. – Ela murmurou preguiçosamente, com um sussurro abafado contra meu pescoço.
— Já que está acordada, podemos conversar? – Arrisquei, temendo estragar o clima, mas não consigo fechar os olhos e fingir que está tudo bem.
— Estou dormindo. – Camila resmungou, se aninhando mais ainda em mim.
— Por favor, Camz.
Ela suspirou, então se sentou lentamente, puxando o lençol para cobrir o corpo. Estava com os cabelos todos bagunçados e o rosto amassado. Linda.
— Laur... eu não tenho muito o que falar. Mas... a gente pode comer o fondue. Que tal?
Ela desconversou, levantando. Apenas assenti. Camila me emprestou um moletom e colocamos algo confortável. Sentamos, lado a lado, comendo o doce maravilhoso em silêncio. Quando acabamos, ela ainda resmungou que queria outro. Foi nesse momento de silêncio tranquilo que senti a coragem me invadir.
Tomei meus 20 segundos de coragem e desabafei.
— Eu não posso viver assim pra sempre, Camila. Dentro do meu peito, isso aqui... – Apontei para nós duas. — Parece tão certo.
— Estar aqui com você me parece o certo também... mas eu preciso que você me diga por quê. Eu perdi a razão, joguei fora meses tentando me reconstruir, tentando esquecer. Você não imagina o quanto doeu quando você se foi... – Falei tudo num fôlego só, sentindo a garganta embargar.
Camila balançou a cabeça, os olhos já marejados.
— Você acha que eu também não sofri?
Seus olhos já estavam banhados em lágrimas.
— Você me pergunta o porquê... mas eu nem sei por onde começar. Não gosto de falar disso, mas por meses eu não me senti em paz. Mesmo livre, eu estava presa... com vontade de dar fim a tudo. – Ela olhou para o chão. — Eu precisei me destruir pra conseguir me tornar mais forte.
Me aproximei segurando em suas mãos marcadas com pequenas cicatrizes. Só de imaginar Camila cogitando dar fim à própria vida... uma dor profunda me invadiu. Eu não sei viver num mundo sem ela.
— Você não precisa se destruir, Camz... Eu não fazia ideia de que se sentia assim. Do lado de fora, parecia feliz. Você mesma me pediu pra ir embora, me disse pra nunca mais voltar. Você escolheu seguir sua carreira solo. Eu só quero entender.
— Lauren... Fui eu quem escolheu tudo isso. Mas nem sempre uma risada bonita significa uma vida feliz. Eu precisei de ajuda. Os remédios cuidaram da depressão... mas não do sentimento de culpa.
— Culpa de quê?
Ela olhou para nossas mãos entrelaçadas e deu um sorriso fraco.
— De tudo, Laur. Do fim da banda, da amizade com as meninas, do jeito que eu te tratei... todo mundo me odeia.
Me sentia impotente diante de sua dor, eu só queria abraçá-la e espantar todos os sentimentos ruins.
— Camila, você tem tanto pela frente, não carregue essa culpa pelo resto de sua vida, todos fazemos escolhas, boas ou ruins fazem parte da vida, eu posso nunca ter entendido seus motivos, mas ei, olhe pra mim. – Levantei suavemente seu queixo. — Eu não te odeio.
Era verdade. Eu não a odeio. Mas ainda dói. A ferida não cicatrizou. O abandono ainda pulsa em mim, como se tivesse acabado de acontecer. Mas essa é minha dor, e eu não vou despejá-la sobre ela, não agora, não assim. Camila chorava silenciosamente, seu peito subia e descia rápido. A puxei para um abraço, seu corpo frágil colado ao meu.
Eu conhecia seus medos antigos. Camila nunca se sentiu boa o bastante. Suas crises de ansiedade eram constantes. Mas agora... ela parecia realmente partida.
— Camz, a gente pode resolver isso. Já percorremos essa estrada tantas vezes. Eu conheço cada linha sua. Me deixa te ajudar, nem que seja só como amiga.
O choro dela cessou... e então, seu corpo ficou rígido.
Ela se afastou dos meus braços e se levantou.
— Eu não posso ser sua amiga, sempre vamos acabar em algo a mais.
Me levantei rapidamente indo até ela, nossos poucos centímetros de diferença me faziam mais alta, a segurei pelos ombros virando-a de frente para mim.
— E daí? A gente é adulta. Hoje foi a prova de que ainda existe algo entre nós. – Descansei minha testa na dela, esperando sua resposta, sentia tantas vibrações percorrerem meu corpo.
— Lauren, você quer uma alma quebrada? Porque é isso que eu sou.
A verdade? Eu quero. Quebrada, inteira, confusa, perdida. Eu a aceito como for. Posso cuidar dela, posso ajudar a apagar as dores aos poucos, até que nosso passado vire só uma lembrança distante. Camila respirou fundo, captando minha atenção.
— Eu também estou machucada... Mas talvez a gente possa voltar do início. Recomeçar.
— Você espera encontrar uma versão minha que não existe mais, Laur. Nada volta a ser como era. Sempre vão existir cicatrizes pra provar isso.
Camila falou colocando a mão sobre meu coração.
Ela tinha razão. Eu também mudei. Mas essa noite... esses beijos, essas risadas. Mesmo diferentes, estávamos em um lugar melhor. Há tempos eu não me sentia inteira. E agora entendo por quê: sempre vai faltar uma parte de mim. Vai faltar ela.
— Por favor, Camz... me deixa voltar pra sua vida. – E lá estava eu, colocando meu coração em um vespeiro.
— Não me peça pra voltar, Lauren. Deixa o fim ser o fim. – Camila sentenciou, cerrando os punhos com força.
Sorri, um sorriso sarcástico e triste.
— Não estou te pedindo em casamento, Camila. – Segurei suas mãos, desfazendo os punhos. — Só quero que a gente melhore nossa situação atual. Qualquer coisa é melhor do que o nada. Você disse que não podia me prometer o amanhã... então eu não vou cobrar. Só quero que saiba que estou aqui, se quiser conversar. Tudo bem? – Camila ergueu seu olhar até o meu, acariciei sua bochecha.
— Agora eu preciso ir. – Sussurrei. Ela sorriu, fraco.
Saí pelo quarto vestindo minhas roupas, quando estava um pouco mais apresentável e com os cabelos menos revoltos, caminhei com Camila até a porta.
— Lauren, bem e-eu, eu, hoje, ah. Obrigada por vir. – Camila bufou se embolando nas palavras, estava sem jeito e corada. Me fez sorrir vê-la tão tímida, eu também gostaria de falar tantas coisas...
— Até logo, Camz. – Me aproximei e beijei sua testa. Camila fechou os olhos, e continuou assim quando virei para ir embora.
Mas antes que eu cruzasse a porta, ouvi sua voz embargada.
— Até logo, Lo.
Talvez eu esteja procurando por algo que não posso ter. Ela me aconselhou a deixar o fim ser o fim...
Mas o problema é que eu não pedi conselho nenhum.
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A OUTRA FACE DA LUA - CAMREN
Fiksi Penggemar[Concluída] - Lauren, eu não deveria dizer isso, mas sim... eu te amo. E talvez sempre ame, porque uma parte de mim sempre será sua. Podemos fazer muitas coisas, mas ficar juntas definitivamente não é uma delas. Então, por favor, Lauren, você tem u...
