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Camila Pov

Liguei o aquecedor do banheiro e comecei a preparar a água da banheira. Deixei encher até a borda e despejei sais aromáticos de morango; em poucos instantes, um cheiro doce e acolhedor se espalhou pelo ambiente. Tirei as roupas devagar, prendi o cabelo num coque alto e entrei na banheira, repousando a cabeça sobre uma toalha dobrada na borda.

O contato da água morna com minha pele fez meus músculos relaxarem imediatamente, um alívio que percorreu cada centímetro do meu corpo. Eram cerca de seis da manhã, e eu ainda não havia pregado os olhos desde que Lauren saiu. A loucura da noite inteira ainda girava na minha mente, tudo culpa da Taylor. Aliás, mandei uma mensagem pra ela pedindo que me ligasse assim que acordasse.

O clima no banheiro estava agradável, quase aconchegante. Fechei os olhos, buscando as memórias da noite anterior. Talvez tenha sido egoísmo da minha parte pedir que ela ficasse. Eu sabia que não podia prometer o depois... porque o depois simplesmente não existe. Mas, por algumas horas, me permiti mergulhar.

Me afoguei nos braços dela, e foi como se a vida tivesse voltado ao meu corpo. Cada beijo, cada toque em minha pele, o perfume dela nos meus lençóis, o gosto na minha boca, o olhar que me atravessava com desejo... seus lábios mapeando meu corpo com ternura e fome. Eu fui dela, por inteiro. E ela foi minha.

A nossa história é um tsunami, deixando destroços por onde passa. Mas no meio do caos... Lauren é minha calmaria. Uma calmaria que, infelizmente, eu não posso ter.

(...)

Levei um susto com o toque estridente do celular. Devia ter adormecido na banheira. Levantei de supetão e peguei o aparelho ao lado da banheira, era Taylor.

— Bom dia. – Minha voz saiu com um bocejo. 
—Bom dia, Mila! Antes que você comece a me xingar, eu só quero explicar que... – Ela começou a falar tão rápido que fiquei até tonta.
— Ei, calma. – Interrompi. — Não vou te xingar... pelo menos não agora. Posso ir até seu quarto pra gente conversar?
— Ufa! Claro que pode. Quero saber de tudo. Posso pedir café da manhã pra nós? 

Meu estômago respondeu por mim, roncando alto.

— Peça, estou morrendo de fome.
— Perfeito. Te espero. Beijo!
— Beijo.

Por Dios! São sete e quinze da manhã. Minha mãe sempre disse que eu durmo em qualquer lugar — e ela tem razão. Minha pele está toda enrugada, os dedos murchos, e se não fosse pelo aquecedor, eu teria virado uma pedra de gelo. Saí correndo para o chuveiro, liguei a água quente, lavei o cabelo e tomei um banho rápido. Vesti um jeans confortável e uma camiseta preta. Mesmo sendo no mesmo corredor, fui me arrastando até o quarto de Taylor. Meu corpo estava dolorido e a fome me fazia ver estrelas.

Taylor abriu a porta em poucos segundos. Cumprimentei com um beijo no rosto e entrei. O carrinho de café já estava lá, lotado de comidas.

— Oi pra você também, Karla. – Taylor disse, fingindo estar ofendida, me chamando pelo primeiro nome só pra provocar.
— Oi, Alison. – Revidei. — Estou com fome.

Fui direto me servir: suco de laranja, um pedaço de bolo, frutas picadas e um croissant. Me sentei à mesa e comecei a comer, misturando tudo sem o menor critério.

— Tô vendo mesmo. A noite deve ter sido intensa. – Taylor disse, sentando-se à minha frente com um potinho de iogurte com frutas.
— Não seja tola. Você só pensa besteira. – Respondi dando de ombros.
— Você não tem vergonha, né? Olha esse monte de arranhões no braço! E esse chupão no pescoço?

Ela riu alto. Me olhei no reflexo do celular e lá estava o maldito chupão. Se eu tô assim, imagina a Lauren, tão branquinha. Minha boca abria e fechava, mas nenhuma resposta saía. Continuei comendo.

— Sério, Mila... me conta. Como foi?
— Bem... A noite foi ótima. A gente conversou bastante, bebemos, e sim... ficamos juntas. – Falei gesticulando, nervosa. — Ela não me cobrou nada. A gente só viveu o momento. 

Taylor abriu um largo sorriso. 

 — No final, ela só pediu pra estar na minha vida, mesmo que como amiga. Meus demônios imploravam pra eu pedir que ela fosse minha de novo. Mas eu fui forte.. – Taylor revirou os olhos, como quem diz, lá vem você com essa força toda que só te atrapalha.

— Mila, tá tão na cara que ela ainda gosta de você. Por que não se abre com ela? Confia nela.
— Tay... ela é a única razão de eu estar aguentando tudo isso. Eu sei que você faz de tudo por mim, mas eu preciso que não se envolva mais, especialmente quando o assunto for Lauren. Aquilo foi perigoso... e doeu demais. Eu preciso fazer as coisas do meu jeito.

Taylor assentiu lentamente.

— Eu podia ter ficado naquele quarto com ela pro resto da minha vida. – Confessei com um sorriso fraco.

— E eu levaria tudo que vocês precisassem. – Taylor acariciou minha mão. — Me desculpa se fui irresponsável e invasiva. Só quero ver você feliz. E eu sei que sua felicidade tem olhos verdes.

— Tudo bem, Tay. Eu fui feliz. Feliz de um jeito que não sentia há muito tempo. Lauren é o meu porto. E por mais que o tempo passe, por mais que as coisas mudem, por mais que eu me envolva com outras pessoas, com ela é diferente. Estar com ela é estar em casa. É me sentir inteira. Mas infelizmente, eu vendi minha alma ao diabo. E ele me tem ajoelhada.

Suspirei, vencida. E só então percebi que estava chorando. As lágrimas desciam quentes, silenciosas. Taylor se ajoelhou diante de mim, segurando minhas mãos. Mesmo naquela posição, ela ainda parecia alta.

— Me desculpe, Mila, eu não devia ter feito isso...

— Não é isso, Tay. Dói não estar com a Lauren, mas dói ainda mais saber que a faço sofrer. Não poder dar explicações. Imagino o que ela deve estar pensando sobre ontem... Eu não quero brincar com os sentimentos dela. Não quero causar mais dor. Ela precisa seguir. E eu não posso...
— Camila... respira. Lauren não te pediu explicações, só pediu pra estar na sua vida. Nem que seja como amiga, certo? – Assenti, engolindo o choro. Ela me estendeu um copo de suco e praticamente me obrigou a beber.

— Então vamos com calma, respira. – Tay acariciou meus cabelos ainda molhados.

— Vocês passaram a noite juntas e ninguém saiu em crise, ninguém gritou, ninguém chorou. Vocês evoluíram. São adultas agora. E você, senhorita Cabello... – Taylor apontou o indicador para mim.

— Sei que tá doida pra ter ela na sua vida de novo. Nem que seja como amiga. – Fez aspas com os dedos. Fingi protestar, mas ela continuou. — Por enquanto. Eu já ouvi todo o seu blá blá blá, tá? Me poupe. Que tal uma troca de mensagem? Inocente. Discreta e privada.  – Ela estendeu meu celular.

— Não sei, Tay... o que eu mandaria?  – Perguntei e logo me arrependi, Taylor fez uma cara safada.
— Obrigada pelo orgasmo. – Ela disse isso com a cara mais séria do mundo.
— Quem disse que foi só um? – Rebati, sentindo meu rosto corar.
— Safada!

Caímos na gargalhada feito duas bobas. Depois, fiquei encarando a tela do celular. Lauren me bloqueou há muito tempo no WhatsApp, mas fui até os contatos... torcendo pra que ela não tivesse trocado de número. E, pra minha surpresa, lá estava sua foto: expressão séria, camisa branca, saia, cabelos longos soltos. Usava óculos escuros, mas olhava por cima das lentes com um olhar que poderia destruir qualquer um. Estava linda. Linda demais.

Senti uma pontada no peito. Não tá usando sutiã... Balancei a cabeça, tentando focar. Abri a conversa.

Respirei fundo. Digitei. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei outra vez. Taylor já tinha desistido de mim e voltou a tomar o café da manhã.

O simples pareceu o certo. Lembrei das palavras dela antes de ir embora. Com a pouca coragem que ainda me restava, enviei:

Qualquer coisa é melhor que o nada... Obrigada por hoje.



tt @rigonato13  ;)

A OUTRA FACE DA LUA - CAMRENOnde histórias criam vida. Descubra agora