Minhas mãos tremem enquanto dirijo para Brighton. Depois de ter pego duas malas com o necessário, (talvez nem tudo tão necessário) e deixado o presente de namoro que fiz para Eric em cima da mesa com um bilhetinho, peguei meu Audi, e dei adeus para o lugar em que vivi nos últimos anos, mas que nunca pude sentir que fosse totalmente meu lar. Eu não conhecia nem meus vizinhos. Agora, com meus pensamentos mais centrados, acho que meu bilhete irá soar um tanto infantil. “Feliz aniversário de namoro, espero que goste do seu presente. E aproveite sua nova vida de solteiro. Acho que sua diretora de marketing tem uma queda por você, mas isso é algo que você já deve saber. Mando alguém para buscar as coisas assim que puder.”
Por mais que eu tenha escolhido me separar de Eric, eu ainda espero que ele ao menos ligue para mim. Mas não seria uma grande surpresa se isso não acontecesse. De certa forma, já estou preparada para o pior. Quando conheci Eric, ele parecia o homem perfeito. Fazia apenas um ano que eu havia rompido com Jack, mas meu pensamento ainda estava nele todos os dias. Me foquei como uma louca na faculdade, pois só nesses momentos, eu conseguia diminuir um pouco a dor. Um final de semana, quando fui visitar meus pais, fui surpreendida pela chegada de Jack. Eu fiquei apavorada, e simplesmente não podia lidar com isso. Fui para o meu quarto e implorei para que meus pais não contassem que eu estava em casa. Jack ficou quase uma hora conversando com eles, e eu podia sentir a tristeza em sua voz. Com um travesseiro abafando meus soluços, eu chorei, o tempo todo, até ouvir o carro dele sair acelerado. Foi a coisa mais difícil que eu fiz. Me senti horrível. Só me senti pior, quando saí com Eric pela primeira vez. Ele havia feito uma visita na faculdade, estava à procura de novos talentos. Apesar de Rachel ter sido indicada, ele me escolheu. Marcou um jantar que eu achava ser profissional, para discutirmos sobre minhas coleções, e no final da noite, acabei com minha boca colada na dele. Foi horrível, pelo fato de eu sentir como se estivesse traindo Jack. Mas depois de algum tempo, com minhas roupas sendo vendidas nas lojas dele, e eu passando várias noites em sua companhia, no dia 10 de junho coincidentemente ele me pediu em namoro, e eu aceitei. Eric me fez quase esquecer Jack por um tempo. Depois de dois anos de namoro, ele me convidou para morar com ele. Achei que isso seria acompanhado de um pedido de casamento, mas não foi. Saí do apartamento que dividia com Rachel, e me instalei em sua humilde mansão. Devo admitir que ele me deu muita sorte, pois graças a influência que ele tem nesse ramo, eu mal havia terminado a faculdade, e já estava fazendo o maior sucesso. Rachel, que já trabalhava comigo, não parece ter gostado muito disso tudo no início. Afinal, era para ela ter esse sucesso, não eu, a novata. Mas isso logo passou, e ela começou se dedicar ao máximo no ateliê. Minha vida profissional não parava de subir, enquanto minha vida amorosa decaia numa velocidade impressionante. O homem cortês e romântico, se tornou uma pessoa ausente, quase fria, e quanto mais eu sentia essas pequenas diferenças, mais eu pensava em Jack, e no meu passado. Parei de visitar meus pais, com medo de encontrar Jack, aos poucos fui parando de ligar, e fui esquecendo quem eu sou. Sei apenas que sou uma designer famosa. Tirando isso, não sei mais nada sobre mim. Isso é difícil de acreditar.
Quando vejo a placa “Bem-vindo a Brighton” está quase anoitecendo. Quando chego ao meu bairro, fico dando voltas, até que me acalmo e paro em frente à minha casa. Mesmo insistindo para meus pais se mudarem de lá, para um lugar melhor, mais sofisticado, eles não quiseram. Eu achei estupidez, mas agora, parada em frente à casa que cresci, vejo como tem a cara deles. Cada detalhe, cada descascado na cerca, cada tufo de grama, está repleto de histórias e memórias. Isso, dinheiro nenhum pode comprar. Quando entro em casa, minha mãe se desmancha em meus braços, e não para de me beijar. Me sinto uma garotinha novamente, e isso é bom. Meu pai, não para de falar como eu estou linda, e como eles sentiram minha falta. Não quero chorar, então sorrio sem parar, pois tenho medo de que se eu parar de sorrir, vou começar a chorar compulsivamente. Quando conseguimos parar de nos abraçar, sou obrigada a contar sobre todas as minhas entrevistas, os desfiles, e por fim, o rompimento com Eric. Falo brevemente sobre isso, com a desculpa de que estou cansada da viagem. Subo para tomar um banho, e fico pensando como meus pais envelheceram tão pouco. Parecem os mesmo de nove anos atrás, tirando alguma pequena ruga, um pouco de cabelos brancos nas têmporas. Quando saio do banho relativamente demorado, coloco um vestido curto, vermelho, meia-calça preta, botas de salto com cano curto e uma jaqueta de couro marrom. Preciso sair para beber. Tomara que eu não encontre Jéssica, o que é pouco provável, já que minha mãe disse que ela tem um filho. Tomara que eu não encontre Jack. Não sei quais as probabilidades, já que impedi meus pais de me falarem qualquer coisa a respeito dele. Nem sei se ele ainda mora aqui. Penteio meus longos cabelos negros, e faço um make caprichado. Batom vermelho, blush, delineador preto e muito rímel. Não preciso me arrumar tanto para ir até algum pequeno pub, encher a cara. Mas uma faísca, está acesa em mim. Algo como um pressentimento, de que vou encontrar Jack esta noite. Só quero parecer bonita. Quando desço as escadas, meus pais ficam impressionados. O cheiro da comida da minha mãe faz meu estomago roncar, e só então me lembro de que não comi nada o dia todo.
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E se...?
Non-FictionQuem nunca pensou sobre o que poderia ter acontecido se tivesse feito escolhas diferentes na vida? Emilly Foster é uma designer bem sucedida, e seu namorado Eric é a personificação da perfeição. Porém, ela se sente incompleta, sente que algo falta e...
