Capítulo 8

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-Bom dia, já estás levantada?-perguntou-me a minha avó quando entrei na cozinha. Estava sentada num dos bancos da bancada da cozinha.
-Sim, vou validar a minha candidatura no hospital.-respondi.
-Como é que tem corrido-perguntou ela.
-Muito bem, vai-me ajudar imenso no currículo e no curso.-respondi enquanto metia uma maçã e a minha garrafa de água na mala.
-Mas como é que te candidataste?-perguntou ela.
-Não candidatei, o hospital vai sempre lá à escola à procura de candidatos de medicina e vieram falar comigo, propuseram-me e eu aceitei.-respondi sem conseguir olhar para ela enquanto preparava tudo.
-Ou seja, viram as tuas notas e foram logo implorar-te para ires trabalhar com eles?-perguntou com um grande sorriso enquanto mexia o café.
-Sim, é mais ou menos isso...-respondi rindo-me com ela.-Vou andando, só devo chegar lá para o jantar.-disse pegando nas chaves do carro.
-Continuas a trabalhar naquele maldito restaurante?-perguntou-me em tom de desaprovação.
-Não por muito tempo.-respondi abrindo a porta da garagem.-Adeus.
-Tem um bom dia!-exclamou e fechei a porta.

Estacionei o carro na zona restrita a trabalhadores. Tinham-me dito que podia lá estacionar. Fui até ao balcão.
-Bom dia.-disse para chamar a atenção da senhora do outro lado.
-Bom dia.-disse olhando para mim.
-Vim para assinar os papéis da candidatura.-respondi.-Valentine Scott.
-Piso 6, no fim do corredor, sala 53.-disse apontando para o elevador.
-Obrigada.-respondi pegando na minha mala e deslocando-me ao elevador.
Demorei algum tempo até conseguir chegar ao piso 6 pois as pessoas paravam em todos os pisos e entrava mais gente. Quando finalmente cheguei, reparei que nunca tinha ali estado. Era um único corredor, em frente ao elevador, com paredes brancas e iluminadas, forradas com portas dos dois lados. Até tive medo de entrar e perturbar o silêncio que ali pairava. Reparei que não fui a única a sair. Um senhor de cor negra, de bata, saiu comigo. Parecia preocupado. Percorri o corredor com o senhor até uma porta à direita onde ele entrou, fechando-a atrás dele. Percorri o corredor pacífico até à última porta. Tinha escrito "Director Franklin". Bati levemente e esperei até ouvir uma voz.
-Sim?-ouvi do outro lado. Abri ligeiramente e espreitei.
-Posso, Dr. Franklin?-perguntei.
-Ah, sim, menina Scott, faça favor.-disse levantando-se da cadeira. Entrei fechando a porta atrás de mim.-Seja bem vinda ao meu desarrumado mas importante escritório.-disse estendendo-me a mão. Retribuí, apertando a mão com um sorriso.-Já não a via há algum tempo.-disse enquanto me fazia sinal para me sentar numa cadeira do outro lado da secretária dele.
-Pois, mostraram-me as instalações e as carrinhas e disseram que era só assinar os papéis e só tive tempo hoje, peço desculpa.-respondi.
-Ora, não faça caso, estava apenas a comentar a falta que fazia.-disse sorrindo. Retribuí o sorriso.-Mas, como tempo é dinheiro, vamos lá despachar isto.-disse abrindo uma gaveta.-Scott...Scott...-murmurou enquanto procurava algo num monte de folhas.-Ah, Scott, Valentine. Aqui está.-disse colocando uma pasta em cima da mesa. É só assinar aqui...-disse estendendo a folha.-...e preencher o questionário. Considere-se novamente no ensino básico.-disse sorrindo novamente.
Ficámos em silêncio durante algum tempo enquanto fui preechendo o questionário até o telefone tocar e o Dr. Franklin atender.
Nome, Valentine Amorim Scott, sexo, feminino, morada...era bastante extenso. Parei numa zona que dizia "doenças/anomalias". Era para colocar sim, ou não. Nesta altura o Dr. Franklin já não estava ao telefone.
-Há algum problema?-perguntou reparando que eu tinha parado de escrever.

-Não, quer dizer eu não sei o que...ham...não sei se devo...
-É contagioso ou pode prejudicar o seu trabalho ou os outros à volta?-perguntou apoiando os cotovelos na mesa.

-Não.-respondi.

-Então não vale a pena. Isso serve para saber se se deve ter cuidado caso lhe aconteça alguma coisa enquanto está a ajudar alguém. Se não prejudica, não vale a pena.-respondeu piscando-me o olho.

-Obrigada.-respondi e continuei. O resto foi fácil e rápido. Uma das coisas que eu notei de diferente dos questionários do ensino básico, como o Dr. Franklin tinha dito, foi o facto de não pedirem informações dos pais. Tinha sido algo difícil responder a isso visto que não tenho a certeza se os meus pais estão...vivos.

-Muito bem, foi rápido. Basta assinar em baixo uma última vez e pode começar na segunda.-disse com um sorriso. Acentei e assinei.-Pronto, vemo-nos segunda.-disse levantando-se. Levantei-me.-Um bom resto de fim de semana.-disse estendendo-me a mão. Retribuí e sai, agradecendo.

Voltei a caminhar pelo silencioso corredor. Olhei para o relógio. Onze. Ainda tenho tempo de ir pôr gasolina. Quando ia aumentar o passo, a porta onde antes o médico que vinha comigo tinha entrado, abriu-se.

-Já lhe disse, vai acontecer, e não podemos evitar. Eles têm reservas de doenças, não vamos conseguir fazer nada.-ouvi uma voz masculina.

-O que é que aconselha, então?-perguntou uma voz feminina.

-Eu vou aproveitar estes momentos, tudo pode acontecer.-disse aparecendo no corredor. Olhou para mim. Era o mesmo senhor de há bocado. Ficou parado algum tempo a olhar para mim. Acabou por desistir e afastou-se até outra porta. Assim que a porta se fechou ouvi um burburinho dentro da sala que parece estar cheia. Continuei a andar.

-Vamos ficar de braços cruzados à espera que isto aconteça mesmo?-ouvi uma voz.

-Não podemos fazer nada, o Doutor tem razão, se for mesmo isto que vai acontecer, não podemos fazer nada.

-Então desistimos e entregamos a morte de vários continentes assim?-ouvi uma voz mais grossa.

-Ninguém falou em vários continentes...-murmurou uma voz.

-Com sorte, ficam pela América e Europa.-disse uma voz mais calma.

Quando passei à frente da porta a sala silenciou-se. Senti todos os olhos da sala postos em mim. Olharam preocupados com o mesmo olhar do médico anterior. Continuei a andar até ao elevador.

Morte. O que é queriam dizer? Quem é que vai morrer? Falaram da América e da Europa. De doenças. Mas o pior, disseram que íamos todos morrer.

Apressei-me a entrar no carro e dirigi-me a uma bomba de gasolina. Depois de atestar fui pagar a gasolina.
-Bom dia. Bomba quatro.-disse abrindo a carteira. Olhei para as montras. Reparei que num dos jornais falavam de mortes. "Caos na Alemanha". Não consigo deixar de pensar no que ouvi. Afinal de contas eu vivo na Austrália, mas nasci na Europa.-E queria aquele jornal.-disse apontando para a montra. A senhora tirou um debaixo da bancada e deu-mo.
-São cinquenta e um euros e meio.-disse. Paguei e sai até ao carro. Liguei-o e parei mais à frente no estacionamento do Mc'Donalds. Abri o jornal na página correta.
Mais um atentado em massa. Os números têm vindo a aumentar e os autores destes massacres não têm revelado um alvo concreto mostrando assim que apenas pretendem lançar o pânico. "Este grupo de pessoas estava apenas no local errado à hora errada. Nada os podia prever de tal coisa. É de facto desconcertante. Nenhum de nós sabe qual o próximo alvo. Nem os próprios autores sabem. Limitam-se a disparar ou soltar uma bomba num local, e quem aí estiver, sofre as consequências." Afirma assim o General Collins, encarregue de resolver este problema. Está agora confirmado que tudo isto é o resultado de uma guerra religiosa onde crentes muçulmanos insistem em fazer-se ouvir.
Saltei algumas partes, mas consegui reter a ideia. E se tudo estivesse ligado. Talvez estejam a tentar esconder isto das pessoas para não causar o pânico. Aquela conversa no hospital foi algo alarmante. Se for verdade o que eu ouvi, vai haver uma guerra.
Mas pode ser tudo imaginação minha. Talvez esteja a confundir. Afinal de contas, todos os dias existem mortes pela religião e nunca vi ninguém preocupado com isso. Aliás, as pessoas lêem os jornais e continuam a sua vida normal. Até porque já muita gente deve ter lido o jornal hoje e não vejo ninguém preocupado... Já nem sei o que pensar.
Ás vezes parece que a minha cabeça tenta arranjar problemas com que se preocupar, como se só assim fosse feliz. Quando consigo livrar-me de um problema, a minha cabeça faz questão de arranjar outro. Sou um pesadelo para mim própria.

Two Different WarsOnde histórias criam vida. Descubra agora