Quando Dulce entrou no quarto e viu a mãe naquela cama, foi impossível conter as lágrimas.
A mulher que sempre fora forte, elegante, imponente — impecável na postura, na maquiagem, nos cabelos sedosos — agora estava deitada, frágil, ligada a diversos aparelhos. Sem um fio de cabelo na cabeça. Olheiras profundas marcavam o rosto pálido, e os lábios estavam quase sem cor.
O contraste doía.
— Mãe? — chamou com a voz rouca, quase um sussurro.
Blanca virou lentamente o rosto. Seus olhos encontraram os da filha — primeiro confusos, depois surpresos.
— Dulce... — disse com dificuldade. — O que você veio fazer?
A pergunta cortou, mas Dulce sorriu mesmo assim.
— Eu vim ver você. Me avisaram que você estava aqui... — engoliu seco. — Faz tanto tempo que não nos vemos.
Blanca fechou os olhos por um instante.
— Eu estou morrendo.
A palavra ecoou no quarto silencioso.
— Mãe... — Dulce se aproximou da cama e segurou a mão frágil, marcada pelo acesso venoso. Estava fria. — Não fala assim.
— Você não precisava ter vindo.
Dulce apertou os dedos dela com cuidado.
— Eu não precisava... mas eu quis. Eu sou sua filha.
Os olhos de Blanca se encheram de lágrimas. Ela abriu novamente para encarar Dulce.
— Dulce... você me perdoa?
O pedido saiu quebrado.
Dulce sentiu o peito apertar.
— Mãe... eu amo você.
Blanca respirou com dificuldade.
— Então diga... — a voz quase falhou. — Me perdoa?
Dulce não hesitou.
— Claro que eu perdoo. Claro.
Inclinou-se com cuidado e a abraçou, respeitando os fios e os aparelhos. Blanca chorou baixo. Dulce também.
Ficaram assim por alguns minutos — cinco anos de silêncio dissolvidos em lágrimas.
Quando se afastou, Dulce sentou-se na cadeira ao lado da cama, ainda segurando a mão da mãe.
— Eu precisava do seu perdão... pra morrer em paz.
— Não fala assim. — Dulce forçou firmeza na voz. — Ainda temos muito o que viver juntas.
Blanca esboçou um sorriso pequeno, cansado.
— Não temos.
O silêncio se instalou novamente.
Dulce a observava, absorvendo cada detalhe, como se quisesse gravar aquela imagem para sempre.
— Por que você nunca me procurou? — perguntou, finalmente.
Blanca fechou os olhos antes de responder.
— Orgulho... medo... — cada palavra parecia exigir esforço. — E quando eu resolvi procurar você... desmaiei no aeroporto. Me trouxeram para o hospital. Descobriram o câncer. Nunca mais saí dessa rotina de doença.
Dulce sentiu uma pontada no peito.
— Você podia ter ligado. Podia ter pedido para alguém...
Blanca a interrompeu, mudando o rumo da conversa.
— E o seu filho?
Dulce sorriu suavemente.
— É uma garotinha.
Os olhos de Blanca brilharam.
— Uma menina?
— Isadora.
O nome pairou no ar.
— Ela se parece com você?
Dulce riu de leve, emocionada.
— Muito pouco... Ela se parece com o Christop... — hesitou por um segundo — com o pai.
Pegou o celular da bolsa.
— Deixa eu mostrar.
Aproximou a tela do rosto da mãe. Blanca sorriu ao ver a foto da neta — um sorriso verdadeiro, apesar da fragilidade.
— Que linda... — murmurou.
Depois de alguns segundos, perguntou:
— Ele sabe?
Dulce respirou fundo.
— Ainda não. Mas o Cris me contou que ele voltou. Eu vou contar.
Blanca começou a chorar novamente.
— Filha... eu me arrependo tanto.
— Eu sei, mãe. — Dulce acariciou a mão dela. — Mas já passou.
— Não passou. — A voz saiu embargada. — Tudo poderia estar diferente. Vocês poderiam estar juntos. Com a minha neta... talvez mais netos...
Dulce sentiu o peso daquelas possibilidades, mas manteve a serenidade.
— Eu vou falar com a enfermeira. Vou pedir autorização para trazer a Isa amanhã. Quero que você conheça sua neta.
Os olhos de Blanca se iluminaram.
— Oh... eu adoraria.
O sorriso foi fraco, mas cheio de algo que não existia antes: ternura.
Dulce permaneceu mais alguns minutos ali, conversando pouco, apenas fazendo companhia. Antes que o choro voltasse com força, inclinou-se e beijou a testa da mãe.
— Eu volto amanhã. Com a Isa.
Blanca assentiu devagar.
Dulce saiu do quarto segurando as lágrimas até o corredor. Assim que a porta se fechou atrás dela, o mundo pareceu pesar novamente.
Mas, pela primeira vez em cinco anos, seu coração estava um pouco mais leve.
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Nossa menina - VONDY (REESCRITA 2026)
FanfictionDulce e Christopher eram um casal apaixonado, mas devido ao destino, com a ajuda de Blanca, os dois não se veem há quase 5 anos. Quando se reencontram ele descobre que ela carregava uma parte dele consigo.
