12°

898 57 4
                                        

Ao chegar no restaurante, Dulce e Christopher se sentaram em uma mesa, ainda sem jeito. Trocaram desculpas silenciosas pelo rumo que a conversa da noite anterior havia tomado. Pediram a comida e, por alguns segundos, ficaram apenas olhando um para o outro, tentando encontrar palavras.

— Acho que preciso começar do começo... — Dulce sorriu, um pouco trêmula.

Christopher assentiu, esboçando um sorriso contido.

— Você lembra da última mensagem que me mandou?

— Lembro. — Ele concordou.

— Eu havia acabado de fazer um teste de farmácia. — Ela respirou fundo, a voz entrecortada. — Eu estava grávida.

Ele a observava, cada palavra penetrando fundo em seu peito.

— Desci as escadas... e fui burra o suficiente de contar para a minha mãe antes de ir falar com você. — Um soluço escapou dela. — Ela quase me matou, não aceitou... trancou portas, desligou o telefone, a internet e pegou meu celular.

Dulce tomou um gole de água, tentando se recompor, mas o peso da lembrança era evidente.

— No dia seguinte, cedo, fez uma mala pequena e me levou até uma clínica... — a voz falhou. — Ela queria que... que eu abortasse a Isadora.

As lágrimas escorriam livres agora, e Christopher não conseguiu conter as suas próprias. Ele tocou a mão dela, que tremia sobre a mesa, apertando-a levemente.

— Conversei com o médico sozinha... — continuou, a voz falhando de emoção — Como eu já tinha 18 anos, ele aceitou minha decisão. Quando saímos, fomos direto pro aeroporto, depois para Milão, no apartamento que meu pai comprou antes de morrer. Lá... ela não deixou eu usar celular ou internet também. Até que, com os enjoos, ela descobriu que eu não tinha abortado...

Christopher permanecia imóvel, boquiaberto, os olhos marejados, sentindo a dor e a coragem de Dulce ao mesmo tempo.

— E então... — ela respirou fundo. — Ela voltou pra casa, me deixou sozinha lá, pediu que eu não procurasse mais ela, falou que eu e meu bebê não éramos nada dela. Foi horrível... meus hormônios estavam a mil... eu quase... me matei, Ucker. Mas o que me deu forças foi a Isa. Então trabalhei como garçonete duas semanas e juntei dinheiro pra voltar e contar pra você.

— Eu... — Christopher concordou com a cabeça, engolindo em seco. — Você já tinha ido encontrar seus pais... e o telefone que eu tinha deles não funcionava mais, nem o seu.

Ele não sabia se sentia dor por tudo que perdeu, ou alívio por não ser culpa dela.

— Nós mudamos de estado, precisamos mudar os números... — a voz dele saiu rouca.

— Eu mandei e-mails... — Dulce sorriu entre lágrimas. — Uns mil e-mails. Eu falei tudo pra você... sobre a gravidez, sobre ela, quando nasceu. Mandei muitas fotos... — ela soluçou, olhando para ele. — Mas você nunca respondeu.

— Eu... meu Deus... — ele murmurou, sem saber o que dizer. A culpa pela ausência de respostas pesava, mas ele sabia que não era culpa de Dulce.

— Eu falei sobre você... todos os dias, em todas as oportunidades... — ela continuou, os olhos marejados. — Ela sabe que você existe.

Christopher apertou a mão dela, ainda sobre a mesa.

— Me perdoa por achar que foi sua culpa...

Dulce assentiu levemente com a cabeça, sem conseguir falar.

O silêncio se estendeu por alguns instantes, até que os pratos chegaram, e a conversa tomou um rumo mais leve.

— Do que ela gosta? — ele perguntou, tímido, e viu um sorriso surgir no rosto de Dulce, dando espaço para mais perguntas. — Como ela é? O que ela gosta de fazer?

— Ela ama sorvete de flocos e batata frita, gosta das princesas da Disney, esportes... tem uma personalidade bem forte.

Christopher sorriu, absorvendo cada detalhe.

— Ela tem algo que parece comigo? O que ela tem que se parece comigo? — perguntou, ansioso, a esperança brilhando nos olhos.

— Além do rosto? — Dulce revira os olhos, limpando as lágrimas, mas sorrindo.

— Além do rosto. — ele insistiu, orgulhoso.

— Ela ama... simplesmente ama skate. E disse mais de uma vez que quer ser médica.

— Você tá falando sério? — ele sorriu bobo, incapaz de esconder o orgulho.

— Tão sério que quando você souber quanto custam skates com rodinhas cor de rosa e estetoscópios de brinquedo, vai desmaiar. — Dulce riu, e ele não conseguiu conter a risada também.

— Ela parece ser uma criança incrível.

— Ela é. — Dulce respondeu, os olhos brilhando de emoção, sentindo que, finalmente, parte do tempo perdido estava sendo reparada.

Nossa menina - VONDY (REESCRITA 2026)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora