✦| eighteen

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DALILA

Ok, não fui tão inconsequente dessa vez. Depois de esclarecer as coisas com Wesley e do mesmo ir embora, preparei uma pequena mala para a viagem, já que ficarei pouco tempo no Alabama. Não vou negar que, no inicio, por ser impulsiva, a primeira coisa que veio à mente foi pegar o primeiro ônibus que eu visse, mas aí parei para pensar que ficar sentada por trinta e três horas não seria fácil. Também joguei fora o recado que havia deixado para meu genitor, seria melhor mandar uma mensagem no caminho.

Respirei fundo e comecei a organizar uma bolsa de mão contendo o mais essencial — meus documentos, cartões de crédito e meu celular. Louise o havia tirado de minhas mãos no dia em que a confusão ocorreu pois, segundo ela, eu estava bêbada demais para mexer no mesmo, o que por um lado foi ótimo, não precisei comprar outro.

Agora, parada em frente à porta de entrada de minha residência, encarando a madeira escura, começo a pensar que talvez seja melhor desistir dessa ideia absurda. O problema em planejar e pensar muito sobre uma ideia, é que você começa a querer abrir mão dela graças ao medo que te paralisa. Eu sei que pode parecer loucura e tudo acabar dando completamente errado. Reviver as memórias que tenho com minha mãe e imaginar novamente o porquê dela ter nos abandonado só irá piorar meu emocional.

Ouvi durante toda a minha vida que era absurdo pensar nela, que eu deveria deixar tudo isso para trás e esquecer que um dia tive uma figura materna ao meu lado. Esquecer que tive alguém que me acordava todos os dias com um café da manhã caprichado e recheado de tudo que eu mais gostava. Apagar da minha memória as inúmeras histórias de ninar que uma voz feminina me contava todas as noites, para que eu pudesse pegar no sono e esquecer o monstro fictício que havia embaixo da minha cama. Nunca mais lembrar o nome, cheiro, o carinho e a risada gostosa que ela tinha.

É difícil superar alguém que já foi tão especial em nossas vidas. Portanto, sinto que este é um peso que estou disposta a tirar de minhas costas, por mais doloroso que possa ser. É um capítulo que quero finalmente poder colocar um ponto final, independentemente de como esse final será.

Estava tão perdida em meus pensamentos que todo o oxigênio presente na sala de estar pareceu ser pouco quando vi a porta se abrir e meu pai passar por ela. De início meu genitor não reparou em minha presença, fechou a porta e ficou a encarando por segundos, até que suspirou e falou em um tom mais alto do que o esperado:

— Dalila, está em casa? Precisamos conversar — pude reparar em como o cansaço tomava conta de boa parte de seu corpo. Ele parecia mais velho do que a idade que tem e seus ombros aparentavam carregar um peso maior do que ele poderia aguentar, devido a tensão dos últimos dias. — eu fui injusto com você, gostaria de pedir desculpas — ele continuou a falar.

Não posso ser injusta e esquecer o quanto ele sofreu com a partida dela também. Se tornar pai solo de uma garota de sete anos não é tarefa fácil, ainda mais tendo que superar a mulher dos seus sonhos no meio de todo o caos que a vida passou a ser. Apesar de toda dificuldade enfrentada, meu pai sempre foi maravilhoso comigo, fazendo o possível para suprir o vazio que minha mãe havia deixado.

Ele ficou imóvel assim que virou e me viu pronta para desaparecer mais uma vez. Eu nada respondi, até que o homem a minha frente se viu tentado a falar novamente.

— Você não desiste fácil, huh? — Respirei fundo, pronta para o discurso e o sermão que viria em seguida, preparada para qualquer ferramenta que ele fosse usar para me convencer a ficar — Tudo bem.

— O quê? — questionei, assustada. Acho que não entendi direito.

— Vá para o Alabama, não vou impedir você — nesse momento, seus olhos encontraram os meus e eu pude ver a dor que o mais velho carrega a anos, desde o dia em que ela nos deixou para trás. — mas por favor... volte para casa. Volte para mim.

E foi naquele momento que eu finalmente entendi toda a preocupação que meu pai possuía sobre mim. Todos os sermões e "nãos" que eu ouvi boa parte de minha vida, todos os momentos dos quais achei que ele não se importasse comigo. A casca grossa em torno de seu coração fazia parte da pessoa que ele precisou se tornar para manter nosso lar estável, para lidar com as adversidades.

Ele sempre teve medo de me perder da mesma forma que perdeu ela.

Suas atitudes e palavras sempre quebravam uma parte minha que eu achei que nunca mais conseguiria consertar. Mas agora, bem aqui nesta sala de estar, pude finalmente sentir esses cacos se juntando novamente.

Corri para seus braços, envolvendo sua cintura e apoiando minha cabeça em seu tórax.

— Eu jamais o deixaria, papai — ele retribui o abraço, depositando um beijo no topo de minha cabeça — amo você.

— Eu também amo você, filha. E se é isso que você quer, vá em frente.

Sabia que meu pai estava chorando e sabia que eu chorava também. Sabia o quanto ele estava se esforçando para acreditar que estava tudo bem em minha ida para o Alabama.

Por isso o abracei mais forte.

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⏰ Última atualização: Jun 28, 2025 ⏰

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