Capítulo 01

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— Tenha cuidado — minha mãe me instruiu, enquanto eu arrumava rapidamente minha bolsa em cima da mesa da sala. Eu estava tão acelerada por dentro que minhas mãos pareciam sempre um segundo à frente do resto do corpo, enfiando coisas como se eu estivesse me preparando para uma viagem longa, e não só para atravessar a cidade até a faculdade. Revirei os olhos, mais por cansaço do que por birra, internamente condenando a forma como ela ainda me tratava como uma criança, embora eu já tivesse meus 25 anos de idade e estivesse indo para a faculdade; havia um tipo de vigilância dela que não era maldade, era hábito, e justamente por isso me irritava tanto, porque vinha embrulhada em amor e preocupação e, mesmo assim, me apertava como um casaco errado.

— Vou fazer exatamente o que venho feito faz 25 anos — respondi, exausta de repetir pacientemente que nunca fiz algo que me colocasse em risco. Eu não costumava agir grossa assim, por isso minha mãe ignorou, talvez compreendendo que eu havia passado a noite acordada com ansiedade para meu primeiro dia na faculdade de Letras. Eu sabia que a minha voz tinha saído mais seca do que eu pretendia, e ainda assim não me corrigi; a verdade é que eu não tinha sobrado energia para polir frase nenhuma, porque eu tinha gastado a noite inteira tentando controlar a cabeça, que insistia em correr sozinha, repassando rotas, horários, possibilidades de eu me perder, de eu fazer algo errado, de eu parecer deslocada.

— Aliás, o Thomas ligou para mim. Disse que havia ligado para você, mas que não atendeu. Quer conversar. — ela falou, pacientemente. Aquilo entrou no ambiente como uma coisa indesejada, como um cheiro ruim que você não consegue identificar de onde veio, mas já sabe que vai ficar. Eu senti meu estômago dar uma pequena guinada, não por saudade, nem por dúvida, e sim pelo cansaço de carregar esse assunto como se fosse um pacote que sempre reaparecia na porta de casa.

— Mãe, eu estou ansiosa. Estressada. Por favor, apenas me deseje um ótimo dia e pare de me deixar na expectativa de coisas ruins e falando de pessoas que não me interessam. Se eu não atendi às ligações dele nem respondi às mensagens, já passei uma mensagem clara — respondi, terminando de jogar meu fichário, meu livro preferido do momento, o Corte de Espinhos e Rosas e meu estojo cheio de canetas dentro da bolsa e indo engolir um pedaço de pão com café puro na cozinha. A fome era quase inexistente, mas eu precisava forçar alguma coisa para o corpo não desabar, e o café, forte e simples, parecia a única âncora aceitável naquela manhã. Eu não estava nem perto de chegar atrasada, ainda faltavam 2 horas e 30 minutos para começar minha aula na faculdade que ficava à meia hora de distância; ainda assim, o relógio parecia me perseguir, como se eu tivesse que estar lá antes de todo mundo para provar alguma coisa. Acontece que eu desisti de cair no sono às 05:00 da manhã e não consegui esperar para minha aula que começava às 08:30, porque ficar em casa era como ficar dentro da própria ansiedade, sem distração possível.

— Charlotte, é só uma faculdade — ela falou, como tantas outras vezes — não precisa ficar assim, vai se acostumar. O "só" dela sempre me pegava, porque não era "só" para mim; não naquele dia, não depois de tudo que eu tinha estudado, não com aquele peso de recomeço que eu sentia no peito como se fosse uma responsabilidade física.

— Tudo bem mãe, eu sei que isso não significa merda nenhuma, é apenas uma faculdade que eu tive que estudar como uma louca para entrar, mas tenho o direito de ficar ansiosa com isso — enfiei o resto do pão na minha boca, peguei a minha bolsa na sala e fui em direção à porta antes que aquela conversa gerasse uma enorme discussão e eu já começasse meu dia de mau humor por conta da mania da minha mãe de ansiar ajudar e acabar piorando tudo. Eu mastigava rápido, com a sensação de que se eu demorasse mais um minuto, eu ia explodir ali mesmo, na frente dela, e eu detestava dar esse gostinho para a ansiedade, detestava confirmar a imagem de "dramática" que, às vezes, parecia ser o rótulo mais fácil para quem não sentia aquilo na pele. — tchau.

Prof DaddyOnde histórias criam vida. Descubra agora