Depois de passarmos por aquela multidão aparentemente inacabável de pessoas e após eu levar 2 cotoveladas de pessoas mal-educadas, chegamos até de frente da sala do coordenador. Era o tipo de corredor em que todo mundo parecia ter decidido parar exatamente onde não devia, formando pequenas ilhas de conversa que obrigavam qualquer pessoa a se espremer pelas beiradas, e eu já estava com aquela sensação de roupa encostando em roupa, de mochila batendo no braço, de calor acumulando em camadas. Alice ia um passo à frente, abrindo espaço como se tivesse nascido naquele caos, e eu vinha atrás tentando não perder o ritmo e, ao mesmo tempo, tentando não parecer totalmente perdida, embora eu estivesse contando cada cotovelada como se fosse um placar pessoal de sobrevivência.
Dei duas batidas na porta, para o caso de o mesmo estar ocupado e já começarmos parecendo duas sem noção. O som foi curto, meio engolido pelo barulho do lado de fora, mas, ainda assim, aquela batida me deu um tipo de alívio imediato, como se eu tivesse finalmente encontrado um ponto fixo para onde olhar, em vez de só seguir a correnteza humana. A porta parecia pesada, e eu reparei nisso porque, por um instante, minha mente decidiu que até o material da madeira era mais fácil de analisar do que a ansiedade de "e se eu estiver no lugar errado?".
Um senhor simpático de aparentemente uns 70 anos abriu a porta, nos dando permissão para entrar. O contraste foi imediato: do lado de fora, a avalanche; do lado de dentro, um silêncio de escritório, com ar de papel e de coisa organizada, como se aquele cômodo não tivesse sido contaminado pelo primeiro dia de aula. A sala dele era muito organizada, com uma resma enorme de papéis em cima da mesa e umas 3 prateleiras de livros fixadas na parede; era aquela organização funcional, de quem tem hábito e rotina, e não aquela arrumação feita só para impressionar. De frente a mesa, havia duas cadeiras, mas uma estava ocupada por um homem louro e com roupa social, sentado como se tivesse pressa e, ao mesmo tempo, como se não quisesse demonstrar que tinha.
— Bom dia , alunas — o coordenador falou — meu nome é Marco. Sou o orientador de curso de vocês, meu dever é estar atento ao desenvolvimento de cada um e dar orientações profissionais, caso alguma se sintam perdida no meio da jornada.
Ele falava com um tom que parecia treinado para acalmar calouros: firme, mas não duro, e eu senti aquela coisa estranha de ser tratada como "aluna" de novo, como se uma parte de mim estivesse voltando para um lugar antigo, enquanto outra parte tentava se convencer de que agora era diferente, agora era sério, agora era a minha escolha.
— Acho melhor eu sair, Marco — o homem se levantou da cadeira — depois resolvemos o problema.
Ele se moveu rápido, e a cadeira fez um ruído discreto no chão. Eu não soube explicar por quê, mas aquele "problema" dito desse jeito, solto, sem detalhes, deu a impressão de que eu tinha entrado no meio de algo que não era meu, e eu automaticamente fiquei mais quieta, como se qualquer movimento meu pudesse atrapalhar.
— Excelente então. Calouras, esse é o professor da matéria de Literatura de vocês, Adam. Desculpe, não perguntei os nomes de vocês.
O coordenador apontou para ele com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo, e, no entanto, para mim, era uma informação grande demais para aquele minuto: professor, literatura, primeiro dia, rosto novo, presença nova. Minha atenção foi puxada como um imã, e eu odiei perceber isso, porque era óbvio demais.
— O meu é Alice e o dela é Charlotte — minha nova amiga se antecedeu, percebendo que minha atenção ainda estava no professor e me dando um beliscão escondido nas costas.
O beliscão foi pequeno, mas certeiro, o suficiente para me trazer de volta ao corpo, e eu engoli em seco, tentando parecer normal, tentando não ficar com aquela cara de quem esqueceu o próprio nome por causa de um homem bonito.
— Prazer — o professor disse com uma voz cortante, dando um sorriso formal e saindo da sala.
O sorriso dele foi o tipo de sorriso que não se espalha no rosto inteiro, só cumpre uma função social, e isso, em vez de me afastar, me deixou mais consciente ainda da presença dele. Que homem maravilhoso era aquele? Devia ser um dos obstáculos para uma pessoa se formar. A frase veio na minha cabeça com um humor meio desesperado, porque era mais fácil brincar internamente do que admitir que eu já tinha notado demais alguém que eu nem conhecia.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Prof Daddy
Roman d'amourDepois de ter acabado o namoro com seu ex-namorado, Thomas, Charlotte saiu completamente destruída e com um único objetivo: entrar na faculdade de Letras, seu maior sonho. Mas não esperava que encontraria muitas surpresas, e entre elas, o simpático...
