O esconderijo

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Era mais que urgente despistar aqueles animais enormes que grunhiam e arranhavam as unhas nas raízes das árvores a cada passada. Juyeon sentia seu coração pulsar desesperado, enquanto suava frio pela têmpora — acabara de presenciar uma das coisas mais bonitas que já viu na vida, ali naquele lago, onde as fadas apareceram e tão brevemente se foram. Agora ele e Eric corriam entre os troncos, mudando excessivamente de direção para tentar despistar os três estranhos e os lobos que os perseguiam, incansáveis. A vantagem de ambos ali era que a mata começava a ficar bem fechada e os lobos vez por outra se atrapalhavam, contudo voltavam a correr tão rápido quanto um relâmpago, recuperando a distância perdida. Temia que se cansassem primeiro assim como temia o que viria depois.

Juyeon tomou a mão de Eric, vendo que ele vacilava um pouco ao correr, e assim passaram a fugir, unidos. Um levando o outro pela escuridão, atenuada apenas pela luz da lua. O loiro apertou sua mão de volta como se ele pudesse morrer se soltasse. De fato, nenhum dos dois sabia ao certo porque estavam sendo perseguidos, entretanto a possibilidade de que a morte viesse a se aproximar caso eles parassem era mais que clara.

Então Eric respirou fundo, vendo o brilho oscilar na lâmina de sua espada enquanto ele e o humano ao lado se jogavam de curtos barrancos, atravessavam trilhas e pulavam sobre riachos. Ele sentia uma tensão, além do medo e da ansiedade, era uma vontade de se proteger que vinha de dentro para fora, algo que também queimava a sua visão, fazendo a floresta parecer mais iluminada do que realmente estava. Ardia em seus olhos.

— Eric! Você tá bem? — Exasperado, Juyeon notou a vertigem do mais baixo, voltando a puxá-lo como podia. Notou também os símbolos aparecendo no corpo alheio como sinais azuis luminosos, pelo pescoço e nas mãos.

— Eu fiz as flores desabrocharem... Você viu... — Disse o loiro, ofegante ao correr. Ele ainda pensava em muitas coisas ao mesmo tempo, no humano ao seu lado, no desejo de chegar ao Castelo, em Sangyeon, no sonho que teve com o elfo. Mas tudo apontava para um mesmo problema: Eric não se conhecia o suficiente, ele não sabia do que era capaz e quais segredos havia por trás de sua existência. Aquilo o deixava tão furioso quanto os grandes lobos que se aproximavam; apertou os punhos, fazendo as unhas fincarem na própria carne, como se isso fosse externar tudo aquilo que sentia.

Então nesse instante, um dos lobos emitiu um choro agudo, e logo os outros dois fizeram o mesmo, perdendo o foco da perseguição. Um deles acabou de estabacando contra um tronco e derrubou a pessoa que o guiava. As outras duas pessoas tentaram controlar os animais, mas falharam, pois eles pareciam machucados.

Aproveitando do incidente, os dois viajantes seguiram mata adentro, indo bem rápido e evitando pisar em áreas com muita lama. Com o tempo, sumiram de vista dentro da escuridão e perderam sinais dos lobos e de seus domadores.

Juyeon tinha algumas dúvidas sobre o que acabou de acontecer, mas ele esperou até que ambos estivessem num ritmo menos urgente para que pudesse se manifestar.

— Foi você que fez isso?

— Com os lobos...? — Eric estava visivelmente esgotado. Seus olhos ficaram avermelhados ao redor da íris azul, que se ofuscou depois da correria. A mão dele ainda estava apertada na de Juyeon e era possível para o moreno sentir a pulsação alheia a partir do toque firme de seus dedos. — Sim. Fui eu. 

— Mas o que aconteceu?

— Fiz espinhos nascerem... — Disse o qareen, suas pálpebras pesando enquanto caminhava. — ... Nos arbustos. Eles pisaram.

Dito isso, após alguns passos, o loiro desmaiou nos braços do mais velho, sendo tomado por ele no colo, logo em seguida. Juyeon continuou andando por alguns minutos na direção que a adaga apontou anteriormente, até que seus calcanhares reclamassem. Assim ele se distanciou ligeiramente da rota, procurando um bom esconderijo e achando a sombra de um bordo, onde os galhos eram baixos e bastante numerosos. O humano levou Eric ali por baixo e se deitou entre as raízes, deixando o loiro dormindo em seu colo.

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