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Já é de madrugada e ainda estou acordada. Não consigo dormir por causa da dor, tanto a física como a emocional. Se até mesmo meu pai percebeu que eu não me encaixo, como alguém não irá perceber?

Feéricos são fortes, são guerreiros, e eu sou aquela que não consegue correr um quilômetro sem desabar de dor.

Esfriou muito durante a madrugada, e agora estou sentindo puxões terríveis na perna. Já peguei todas as cobertas do armário e vesti a calça mais quente que eu tinha. Eu estou suando, mas minha perna continuava fria.
Olho para a lareira e me concentro até que uma chama surja. Foi o único poder que herdei da minha mãe. Vou aumentando a chama até que a temperatura do quarto esteja sufocante. Espero quase meia hora, mas a maldita ainda dói. Se a lareira fosse mais perto da minha cama... Não tenho força suficiente para arrastar a cama até perto do fogo, mas talvez possa trazer o fogo para perto da cama.

Há um vaso de flores em cima da cômoda, no lado do espelho. Pelo ele, coloco as flores no chão e jogo a água silenciosamente na banheira. Depois de secá-lo, pego alguns papéis velhos, coloco dentro dele e acendo o fogo. Mordendo os lábios para conter a dor, pego a cadeira da penteadeira e coloco-a no pé da cama, pondo o vaso sobre ela.

Quando me deito, a perna machucada próxima ao calor, a dor começa a passar lentamente e enfim consigo adormecer.

***

Acordo com os gritos dos meus pais.
O vaso virou durante a madrugada e incendiou todos os dosséis da cama. Não sei o que está acontecendo, não consigo pensar. Minha mente grita para que eu corra dali, mas não consigo. Apenas deixo que meu pai me carregue para longe daquela fumaça enquanto minha mãe usa os poderes de água para apagar as chamas.

Menos de um minuto se passou e todo o fogo já foi apagado. A fumaça está sendo soprada para fora, mas o cheiro ainda está forte. Escuto as crianças pequenas chorando em seus quartos, e me encolho na poltrona da sala. Aquilo é culpa minha.

— Você está bem? — pergunta minha mãe, se agachando na minha frente.

Antes que eu possa responder, Cassian entra na sala e chama meu pai; Tamlin e Alis não paravam de chorar. Meu pai sai com Cass e mamãe e eu ficamos a sós.

— Desculpe-me — murmuro, me encolhendo ainda mais. — Minha perna estava doendo por causa do frio e eu não conseguia dormir assim, então pensei que...

Os braços de minha mãe me envolvem em um abraço, me interrompendo. As lágrimas que eu tentava conter acabam escorrendo pelo meu rosto. Odeio ser assim. Fraca. Quando tinha minha idade, minha mãe sustentava toda a família sozinha, e ela era humana. Minha mãe é forte, meu pai, meus tios, todos eles são fortes, e eu não passo de uma fraca chorona.

— Não foi culpa sua, querida — Minha mãe me abraça mais e acaricia minhas costas.

Alguns minutos se passam até que minha mãe se afasta um pouco e seca meu rosto com as mãos.

— Vou preparar um remédio para você, está bem?

Minha mãe está se levantando quando Alis entra na sala carregando um Tamlin chorão nos braços. Alis é idêntica ao nosso pai, e Tam parece uma versão mais nova da nossa mãe.

— Tam não para de chorar — diz minha irmão, embora não fosse preciso.

Ela entrega nosso irmão para nossa mãe, que me pede desculpas apressadas e vai com Tam para o quarto dele, acompanhada por Alis.

Fico sozinha de novo.

A casa começa a ficar silenciosa. Mamãe consegue acalmar Tam, Alis volta a dormir, os gêmeos de Mor e Elain param de chorar... Mas minha mãe não volta para preparar o remédio.

Noite Sombria e Perversa Onde histórias criam vida. Descubra agora