A feira (parte 3)

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— Se você sair agora, não vai ter conversa depois.

Bill deteve-se. Então ia ter que ser assim. Virou-se com cautela, sabendo que um passo em falso acarretaria consequências desastrosas.

— Isso é uma ameaça?

— Eu não sei. — Ele deixou o ar escapar dos pulmões. — Honestamente, eu nem sei se te conheço. Aquele Will que eu conheci, aquele que conversou comigo no telhado, que me ajudou a cortar a grama... Ele sequer existe?

Era visível a tristeza por trás de sua voz. As palavras atingiram Bill como um soco. Ele suspirou e baixou a guarda.

— Eu devia saber que isso não era uma boa ideia.

— O que você quer dizer? — Dipper perguntou, aproximando-se.

— Eu estraguei tudo de novo. Sinto muito.

A preocupação do garoto humano só estava aumentando.

— O que você fez?

— Eu achei que, se eu me afastasse de você, tudo seria melhor. Tanto pra mim quanto pra você. Meu plano era me afastar lentamente, sem você perceber... Mas fui muito brusco, e você percebeu.

Dipper não estava entendendo mais nada.

— Se afastar de mim? Por quê??

O demônio continuou seu monólogo, ignorando a pergunta.

— Quando você me procurava e eu não estava por perto, eu estava me escondendo.

— Isso é loucura — Dipper desabafou.

Bill ficou em silêncio.

— ... Você não acredita em mim, não é?

— Não, eu acredito!

— Vem, eu posso te provar que é verdade. Vamos para um lugar mais privado. Vou te mostrar.

— O quê? Will!

Dipper se viu arrastado até uma parte mais densa da floresta de pinheiros, afastado da feira.

— Eu vou te mostrar o que eu estava fazendo enquanto você me procurava — disse o demônio.

— Você não precisa. — Dipper tentou intervir.

Foi inútil. Bill fez com que se sentassem juntos embaixo de um pinheiro. Sem escolha, o garoto resolveu aceitar e ver o que o outro queria lhe mostrar. Como da primeira vez em que os dois embarcaram em um sonho juntos, no sótão, o demônio pousou a mão na testa de Dipper, iniciando assim a conexão empírica.

No mesmo instante, eles fecharam os olhos e sua mente entrou em um estado entorpecente. A sensação era de ter mergulhado em água e dado uma cambalhota. Ao emergir do lado oposto, os dois se encontraram no conhecido cenário cinzento, envolto por pinheiros e céu nublado. As únicas coisas coloridas eram Bill e Dipper.

— Vamos ver... Eu preciso te mostrar o quintal da cabana, ontem...

Enquanto o demônio tentava encontrar as memórias em seu mostrador, o humano reparou em algo curioso. A forma de Bill continuava igual. Ao invés de retomar sua forma triangular antiga, como tinha acontecido no primeiro sonho compartilhado, Bill continuava humano, mesmo em sonho. A única diferença era que, ao invés de usar as roupas habituais, Bill vestia um belo terno amarelo que realçava seus ombros, com uma barra longa triangular na parte de trás. Usava ainda uma gravata borboleta e detalhes em preto.

— Droga, o que tem de errado comigo? — murmurou Bill.

— Tá tudo bem, não precisa me mostrar — disse Dipper, rápido, mas no mesmo segundo o outro anunciou:

Ele é WillOnde histórias criam vida. Descubra agora