15; A Elasticidade da Verdade

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Segunda-feira.

A corrida de ônibus até a faculdade parece durar uma eternidade para s/n, Jace havia passado em sua casa como de costume e não parou de tagarelar sobre suas expectativas para o baile, a garota apenas o ouvia sem ânimo e assentia uma vez ou outra. Lidar com seus sentimentos estava sendo mais difícil do que pensava, ainda mais tendo que ouvir o garoto falar sobre Kira o tempo inteiro.

Agradeceu mentalmente quando ele percebeu que ela não estava interessada na conversa e ficou quieto, chegou a perguntar o que ela tinha, mas ganhou apenas um "estou com muito sono para conversar" como resposta. Não que tenha acreditado naquela mentira tosca, mas ele sabia que a amiga gostava de ficar um tempo sozinha quando tinha algum problema. Depois, quando se sentisse confortável, lhe contaria. Ao menos, era isso que ele esperava que ela fizesse. Levou um bom tempo pra ele entender como a cabeça dela funcionava nessas horas, mas no fim, ele entendeu. E era isso que fazia eles se darem tão bem.

Quando chegaram na sala de aula, não trocaram nenhuma palavra. O loiro a observava de canto, ela fazia riscos aleatórios no caderno, sem prestar atenção no que o professor falava. Jace suspirou, os pensamentos de que aquela atitude tinha algo a ver com ele o invadiam, e fazia seu peito se contrair em angústia. A última coisa que queria era magoa-la, mas parecia que a cada decisão que ele tomava, era exatamente isso que ele lhe causava.

Voltou sua atenção ao homem na frente do quadro, ele explicava sobre a parte da organização do baile de primavera na qual o curso tinha ficado responsável. Teriam que ensaiar uma peça de teatro, não seria tão grande, afinal não tinham tanto tempo para ensaiar, seria uma curta, mas com um grande significado.

— A peça decidida desse ano será uma adaptação do livro "La città di Smeraldo". - disse o professor, causando várias burburinhos pela sala, Jace tentou se lembrar onde ouvira esse nome.

"É claro!", pensou. "Foi ela que me mostrou na biblioteca, no dia que fomos lá pela primeira vez.". Lembrou-se da história, um cara feio e solitário que cultivava flores em seu jardim, até que um dia uma mulher misteriosa passou a rouba-las. "Perfeita para o dia de início da primavera.", completou mentalmente. Ouviu o professor perguntar se alguém conhecia a história, e viu a decepção em seu olhar ao ver que somente um terço da sala levantou a mão, incluindo Jace e s/n.

— Certo, precisaremos decidir os protagonistas, alguém se candidata? - o homem perguntou, esperando que gentilmente os alunos demonstrasse interesse, mas era apenas o primeiro semestre, não se conheciam bem e alguns ainda tinham suas inseguranças, era de se esperar que ficassem acanhados com a proposta, mas se ninguém se pronunciasse, o professor provavelmente escolheria a dedo. Foi quando Jace arregalou os olhos ao ter uma ideia, bem maluca e impulsiva, mas poderia funcionar. Levantou a mão atraindo a atenção da turma.

— Eu gostaria de fazer o papel principal, professor. - ele disse, pôde ver de soslaio que s/n havia parado de rabiscar o caderno para o encarar.

— Ótimo, gostei da iniciativa. - o homem respondeu.

— E se me permite, gostaria de sugerir a s/n para fazer o papel principal comigo. - ele disse, riu internamente quando a amiga o olhou incrédula, mas ele não ousou desviar os olhos do professor, viu de canto ela abrindo a boca e a fechando sem parar, tentando dizer alguma coisa, mas acabou falhando na tentativa e aceitou a derrota, estava frustrada demais para fazer algo.

— Perfeito, então se a turma não tiver nenhuma objeção ou mais alguém quiser se candidatar. Jace e s/n farão o papel principal da peça.

***

S/n tentou segurar a gargalhada, mas era quase impossível. Eles estavam ensaiando os primeiros textos para a peça do baile de primavera, mas parecia impossível com a dicção do amigo que lhe fazia confundir as palavras.

— Para alguém que não queria fazer você tá bem animada, não é? - ele disse, colocando as mãos na cintura e encarando a amiga.

—  Não é que eu não queria fazer, é um dos meus contos favoritos e você sabe disso, só não estou animada, mas com você errando toda hora é impossível levar a sério. - ela respondeu, recuperando o fôlego que tinha perdido. Jace deu sorriso de canto.

— Pelo menos consegui te fazer rir. - ele disse. E a garota arqueeou a sobrancelha.

— Não seja tão convencido, eu ainda estou brava por ter me sugerido para o papel principal - ela sentou-se no sofá, cansada, haviam estado ali a tarde inteira ensaiando, pararam apenas para tirar algumas fotos com a rosa que Jace havia comprado para representar o jardim que a personagem de s/n deveria roubar.

Parecia até uma grande coincidência, logo ele que sempre costumava lhe dar rosas dias atrás, agora atuando em uma peça onde ela as iria roubar. Soava exatamente como sua vida, pegando algo que não lhe pertencia, que era de outra pessoa. E por alguns segundos, sentiu-se mal por isso. Mas não era para menos, seus sentimentos só iriam atrapalhar e ela sabia disso. Queria que Jace fosse feliz, ainda que não fosse com ela.

Não percebeu quando o garoto sentou ao seu lado no sofá, apenas sentiu o calor de seu corpo ao se aconchegar perto dela, a envolvendo em um abraço. Queria recusar, queria afasta-lo, mas havia uma força que o puxava para si e que a fez retribuir o contato, fechar o olhos e aproveitar aquele momento, até o loiro cortou o silêncio.

— Eu te sinto mais afastada desde que paramos de fingir, mesmo que você negue e diga que está tudo bem, eu sei que não está. Sou seu melhor amigo, te conheço melhor do que ninguém. - ele disse, e cada palavra fazia o corpo de s/n estremecer, ele havia percebido, como ela iria se livrar dessa? Não podia simplesmente contar a verdade.

S/n ficou estática, não sabia o que dizer ou como reagir, nem sequer teve coragem de soltar do abraço pois sabia que teria que encara-lo caso o fizesse.

— Eu não quero te perder, não quero perder sua amizade, por isso quis que fizéssemos a peça juntos, me desculpe. - ele continuou, ao perceber que não teve uma resposta da garota. - Você é muito importante pra mim, então... - ele deu uma pausa e se soltou do abraço, apenas o suficiente para fazer seus olhares se cruzarem. - Quero que seja sincera comigo, quero que olhe nos meus olhos e diga que não sente nada por mim.

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Vou parar por aqui e deixar um suspense no ar, não me matem haha

O que vocês acham que vai acontecer? Será que s/n vai dizer a verdade ou vai esconder? COMENTEM!!!

E nos vemos no próximo capítulo!

Att, Sath

play date; jace normanOnde histórias criam vida. Descubra agora