Shikamaru estava levemente alcoolizado quando chegou em casa. Respeitando as tradições, no último dia do calendário letivo, deixou-se arrastar por Gai, Kakashi e Tsunade para um bar de reputação duvidosa com karaoke. De início não ficou muito animado, afinal, depois de corrigir diversas provas, avaliar projetos variados e ouvir choramingos de alunos reprovados, só queria voltar para casa e descansar — aproveitando as merecidas férias. Mas no decorrer da tarde, divertiu-se bastante com as competições bobas dos colegas e a implicância afetuosa da chefe.
Ao chegar no topo da escada estendeu a mão para a maçaneta, porém, a porta abriu sozinha. Estava tão distraído que quase bateu de frente com Neji.
— Cuidado — o Hyuga advertiu.
Ele vestia uma blusa social, calça jeans e mantinha os cabelos soltos — o máximo de informalidade que se permitia — também trazia no ombro uma mochila.
— Está voltando pra casa?
— Sim, reunião de família — tinha mais que resignação na sua voz, talvez amargura.
— Boa sorte — desejou com genuína solidariedade.
Pertencer aos Hyuga — o clã mais proeminente do país — cobrava um alto preço. Sobre seus ombros pendia o peso da excelência, Neji não podia se dar ao luxo de comportar-se como um jovem despreocupado igual aos outros, precisava se esforçar além do limite em absolutamente tudo — desde a faculdade, estágio e cursos extras, aos trabalhos voluntários e à imagem pessoal. Por Kami, nem mesmo tinha o poder de opinar sobre seus relacionamentos amorosos, Shikamaru não se surpreenderia ao descobrir um dia que seu tio, Hiashi, já havia escolhido uma moça de boa família para casar com o sobrinho.
— Volto depois do Natal — informou, sombrio.
— Naruto e Kiba já foram? — Não precisava realmente da resposta, saberia assim que abrisse a porta, pois o apartamento ficava bem silencioso quando os dois partiam. Porém, algo dentro dele sentia um impulso de prolongar a conversa, como se a ação pudesse impedir que o outro passasse mais tempo com os Hyuga.
Era idiota, no entanto...
— Sim — Neji voltou-se para ele.
— Uhm — coçou a cabeça sem jeito — sabe quando voltam?
— Naruto vai passar o Natal com minha família, por conta da Hinata, então acredito que volte junto comigo, já o Kiba não faço ideia — algo parecido com compreensão cintilou nos olhos perolados, e o Nara soube que ele havia descoberto sua artimanha infantil, então, o Hyuga sorriu discretamente — se cuida Shikamaru.
No dicionário Neji a frase era equivalente a: "Obrigada pela preocupação, mas vou ficar bem".
— Okay — foi tudo que conseguiu responder para escapar da situação constrangedora.
— Ah! — o moreno parou no fim da escada — Temari não está se sentindo bem, não quis almoçar e ignorou o lanche que fiz pra ela — e ali estava a mamãe galinha, Shikamaru pensou — talvez devesse levá-la ao hospital.
— Vou resolver isso.
Todos sabiam que os dois mantinham uma "amizade colorida" — o bocudo do Kiba tratou de explanar. Entretanto, verbalizar o quão profundo eram seus sentimentos pela Sabaku — por exemplo, fazendo um interrogatório completo sobre a saúde dela, ali no meio da escada — estava fora de cogitação. Por isso, decidiu responder com simplicidade.
A casa estava às escuras, o único som que se ouvia era da música Should I Stay or Should I Go?, do The Clash, que vinha do quarto do Sasuke. O cômodo que compartilhava com Temari também encontrava-se no completo breu, tanto que demorou um tempo para discernir seu corpo encolhido na cama.
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Colega de quarto
FanfictionNara Shikamaru tinha a vida perfeita que todo preguiçoso crônico sonhava. Era professor universitário aos 21 anos, dividia seu apartamento com outros cinco amigos e mantinha uma rotina banal e minimamente notória. Até que seu melhor amigo, Akimichi...
