Nove - parte I

89 9 16
                                        

voltando a... Terça-feira, 3:15 pm

Julie Molina

Liberdade. Uma palavra, nove letras, inúmeros significados. É comum acharmos pessoas dizendo que a liberdade é sobre fazer o que quer, na hora que quer. Um conceito muito raso para uma palavra tão complexa. 

Mas o que realmente é liberdade?

Liberdade não se resume ao externo, mas sim ao interno. Qualquer um pode fazer o que quer, mas ainda sim, se sentir preso dentro de si. 

Às vezes, estamos presos ao escuro da nossa mente, no nosso próprio calabouço e simplesmente desistimos de lutar contra isso em algum momento. Sentimos que nossa vida se resume a uma única ação ou obrigação, e esquecemos de viver.

Liberdade é sobre sentir que o seu coração bate e que o sangue corre pelas suas veias, porque você quer, porque você precisa, porque você merece. É sobre sentir que sua alma foi lavada de tanta sujeira depois de uma vida inteira. 

É olhar para os seus erros e saber que está tudo bem, pois você se levanta da própria cama tentando ser melhor e consertar tudo.

É sobre sorrir em meio ao caos, porque você sabe que se chorar, o caos toma conta de você.

É sobre ter coragem para enfrentar o mundo, pois você sabe que é forte o suficiente para isso. E, na real, é você contra o mundo, não o mundo contra você.

É sobre se amar quando o mundo te odeia, e sobre se amar quando você se odeia.

É acima de tudo, sobre o próprio bem estar.

Julie sempre amou dias chuvosos. Desde pequena, ela via uma beleza sem igual nesses dias. Para ela, a chuva era a poesia mais pura, era como se aquelas gotículas de água pudessem lavar a sua alma todas as vezes. 

Ela se sentia livre quando brincava na chuva, se sentia feliz quando ela e Rose entravam em casa encharcadas. Ela via o sorriso largo da mãe e sabia que ela era o motivo. Era divertido, era algo único, um momento que só elas conseguiam aproveitar.  

Isso mesmo, era.

Porque agora, Julie odeia a chuva com a mesma proporção que odeia o amor. Ela sente repulsa ao ver inúmeras gotículas de água bater em sua janela. Ela odeia sentir o cheiro de terra molhada. Mas ela odeia ainda mais, cada lembrança, de cada momento que a chuva lhe proporcionou. Pois esses momentos, não voltam mais.

A chuva limparia toda a sujeira da sua alma, mas ela não precisava ser limpa. Ela não precisava ter a sensação de liberdade ao correr em meio à chuva. Ela não precisava das lembranças que voltariam à sua mente ao encarar aquele tempo nostálgico. Ela ficaria bem em seu quarto, sozinha, debaixo de inúmeros cobertores, olhando a mesma fotografia, e chorando.

Ela ficaria bem, não ficaria?

Ela conseguiria esperar a chuva passar sem ter a sensação de que vai morrer?

Seu peito apertou, era saudade. O sentimento que lhe perseguia a todo o momento. Porque ela sente saudade de brincar na chuva, ela sentia saudade de sorrir, de entrar em casa totalmente ensopada, de tomar chocolate quente e assistir filmes da Disney com sua família, ela sente saudade dela, da Rose, pois ela sabe que esses dias não são os mesmos sem ela.

Então o que lhe restava fazer, era chorar. Continuar em sua fortaleza de cobertores olhando a chuva cair.

Em meio a todo aquele silêncio ensurdecedor do seu quarto, Julie ouviu três batidinhas fracas na porta.

— Eu vim ver como está.— seu pai entrou e sentou ao seu lado — Eu fiz chocolate quente. — deu um pequeno sorriso.

Chocolate quente.

— Não precisa, eu estou bem. — olhou para a fotografia.

Aquele pequeno olhar chamou atenção de Ray. Ele viu a fotografia na mão de sua filha e suspirou. 

— Eu também sinto falta dela. — falou baixinho — Parece que parte do meu coração foi embora.

Ela o olhou totalmente inexpressiva.

— Também sinto isso.

— E eu sinto muito, hija. Sinto muito por não conseguir fazer nada para que ela volte. — ela pegou a fotografia das mãos da cacheada — Me dói muito não tê-la aqui, mas o que me dói ainda mais é ver meus filhos sentindo essa mesma dor.

Devagar, Julie se aproximou do pai e o abraçou com toda força. Ele retribuiu, sentindo o próprio coração se aquecer com o gesto. Em meio ao abraço, eles choraram, e por um momento se sentiram consolados. Ele precisava disso, ela precisava disso, eles precisavam disso.

— Ela te amava muito. — eles se afastaram — E eu também te amo, filha. Tudo o que eu peço é que não se deixe levar pela sua dor, ok? — ela assentiu

Ele levantou e se direcionou até a porta.

— Tenho que pegar o Carlinhos no colégio. — abriu-a — Você não precisa enfrentar tudo sozinha, filha, estou aqui. — sorriu fraco e saiu.

Mais uma vez ela estava sozinha, com aquele silêncio... era torturante.

Era torturante saber que seu pai se sentia mal por ela, era torturante se sentir sozinha, era torturante lembrar que não pôde se despedir. Mas, naqueles dias, tudo era uma despedida.

E por mais que Julie tentasse, seu pensamento sempre voltava para ela, para o sorriso dela, para a forma como ela foi embora. 

Filha, você está aqui!

Parecia idiotice, mas era inevitável. Quando se chega neste ponto, tudo é inevitável.

Quer dançar comigo?

Ela encarava o teto em silêncio, deixando o cansaço tomar conta de si. Seu corpo doído amoleceu, sua mente ficou cada vez mais calma, mais quieta, sua respiração pesou e ela adormeceu.

Filha, não me deixe ir. 

Ela acordou assustada, confusa, cansada. Mais uma vez ela não conseguiu a paz, o silêncio, a tranquilidade ao dormir, mais uma vez, ouviu a voz dela, mais uma vez, seu peito apertou de saudade.

Eu te amo.

Ela ainda tentava processar o que acontecia em sua volta, ainda tentava respirar, ainda tentava se libertar. 

A chuva é minha coisa favorita no mundo.

Era um tormento, era irreal. A voz dela ecoava na sua cabeça e o choro entalado na garganta não saia de jeito nenhum. Ela estava presa, às lembranças, às sensações, ao medo, ela prendia a si mesma.

Sentia uma coisa inquietante no seu peito, uma agonia que insistia em continuar.

Ela sentia a culpa por se deixar levar.

Precisava sair dali.

Saiu da cama às pressas e desceu as escadas, parou para respirar e seguiu até o quintal, sentindo as gotas geladas da chuva que continuava até então. 

Sentiu um arrepio pelo corpo e seu coração bateu mais forte, ela estava na chuva, ela odiava chuva.

Odiava.

Mas ela não se mexeu, ficou lá, parada com o pensamento longe. Ficou lá, sentindo a água escorrer pelos seus cachos. 

Odiava.

E por mais que odiasse, não queria sair dali, ela sentia uma força atraí-la, como um imã, a droga de um ímã.

Odiava.

Então ela olhou para o céu, viu aquela cor cinza iluminada, viu as nuvens se moverem, viu uma parte quase que imperceptível do sol. Ele brilhava em meio a escuridão. Voltou a olhar para a frente e se deparou com ela, a olhando, com um sorriso no rosto.

Ela estava como se lembrava, linda, feliz, e totalmente molhada, pela chuva, droga de chuva.

Oi — ouviu sua voz.

— Oi — murmurou.

Pedaços | JUKEOnde histórias criam vida. Descubra agora