Desculpas

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Eu pensava que, em algum momento, os ataques parariam. Era um erro ingênuo da minha parte, pois, enquanto me refugiava no abrigo do corredor, o som de passos apressados e gritos distantes me lembravam que o perigo estava longe de acabar. Dessa vez, os inimigos estavam mais agressivos do que nunca, e eu mal conseguia respirar enquanto me escondia atrás da porta reforçada. A preocupação com Rachel e Percy me consumia. Onde eles estavam? E se algo acontecesse com eles? Esses pensamentos foram abruptamente interrompidos quando um corpo cambaleante caiu na entrada do abrigo.

Era Percy. Ele estava coberto de sangue, as mãos tremendo, o rosto pálido como a lua. Meu coração disparou, e antes que eu pudesse pensar, já estava ao seu lado, tentando ajudá-lo.

— Percy, meus deuses! Você está bem? Claro que não está... Deixa eu te ajudar! — Minhas mãos se estenderam em sua direção, mas ele ergueu a mão, impedindo que eu o tocasse. Ele se levantou com dificuldade, respirando fundo, como se estivesse lutando para manter a compostura. Uma lança o havia atingido de raspão, e o sangue escorria por seu braço.

— Onde está Rachel? — perguntei, minha voz tremendo.

— Ela está segura — ele respondeu, seco, quase cortante. — Agora, sai da frente!

Recuei, sentindo um nó na garganta. Percy me observou com um olhar penetrante, como se estivesse tentando decifrar algo em mim. Ele suspirou, cansado, e então fez algo que me deixou sem fôlego: tirou a camisa.

Deus salve a rainha, Percy era a personificação da perfeição. Sua pele bronzeada brilhava sob a luz fraca do abrigo, e seus músculos definidos pareciam esculpidos por um artista. As cicatrizes em seu torso contavam histórias de batalhas passadas, cada uma delas uma marca de sua coragem e resiliência. Seu peito subia e descia em um ritmo acelerado, e eu tive que desviar o olhar, sentindo o calor subir às minhas bochechas. Mas era impossível não olhar. Seus cabelos pretos estavam desalinhados, e seus olhos verdes-mar, normalmente tão vibrantes, estavam sombrios, quase opacos, refletindo a exaustão e a dor que ele tentava esconder.

Percy resmungou de dor, e meu instinto protetor falou mais alto. Levantei-me e me aproximei dele, ignorando o olhar de advertência que ele me lançou. Examinei o ferimento em seu braço — era superficial, mas sangrava mais do que deveria. Virei-me para pegar o kit médico, mas sua voz me fez parar.

— Você não precisa fazer isso — ele disse, a voz rouca e cansada.

— Eu não estou fazendo mais que o mínimo — respondi, tentando manter a calma. — Pode se sentar na cama e virar de costas?

Por um momento, seu olhar mudou. Ele parecia vulnerável, quase assustado, como uma criança que não quer mostrar suas fraquezas. Mas ele obedeceu, sentando-se na cama e virando as costas para mim. E foi então que eu entendi o motivo de sua hesitação.

Suas costas eram um mapa de cicatrizes. Algumas eram antigas, mal curadas, enquanto outras pareciam mais recentes, ainda vermelhas e inflamadas. Cada uma delas contava uma história de dor e sobrevivência. Minha mão tremia ao tocar levemente em uma das marcas, e ele estremeceu.

— Zeus nunca foi um bom tio — ele murmurou, sua voz carregada de amargura.

Não disse nada. Em vez disso, concentrei-me em tratar o ferimento, limpando-o com cuidado e aplicando um curativo. Quando terminei, peguei uma coberta de seda que estava no armário e a coloquei sobre seus ombros, cobrindo suas costas. Ele parecia aliviado, como se a coberta fosse um escudo contra o mundo.

— Está tudo certo — disse, tentando manter a voz firme. — Agora descanse.

— Mas e você? — ele perguntou, virando-se para me encarar.

— Eu ajeito algo no chão. Você precisa dormir — respondi, começando a arrumar um espaço para mim.

— Nem pensar — ele interrompeu, sua voz mais firme agora. — Você não vai dormir no chão. Eu não vou deixar.

— Percy, eu não quero te pressionar — comecei, mas ele não me deixou continuar.

— Mas eu quero — ele disse, seus olhos verdes fixos nos meus. — Eu fui um idiota. Você tem razão. Eu devia ter gritado, devia ter feito um escândalo. Aquilo não foi justo, e eu não te culpo por me odiar por isso. Mas, Annabeth, eu só quero que você saiba que sinto muito. Por tudo. Por Piper, por aquele dia, e por ter te ignorado esse tempo todo. Não foi fácil. Acho que Rachel já está enjoada de responder à pergunta "E como está Annabeth?".

Senti um nó na garganta, e as palavras saíram antes que eu pudesse pensar.

— Percy, por favor. Eu também falei muita merda naquele dia. E eu te deixei fora de tudo. Eu sei que sou orgulhosa, e... — hesitei, mas continuei, — eu não gostei nem um pouco de saber que você estava mais perto da Rachel.

Ele sorriu, um daqueles sorrisos que eu tanto sentia falta. Aquele sorriso que iluminava o quarto, mesmo nas horas mais sombrias.

— Você ficou com ciúmes? — ele perguntou, o tom de voz travesso, quase provocador.

— Cala a boca — respondi, afastando-me dele e tentando esconder o sorriso que insistia em aparecer. — Você nunca escutou isso.

— Acho que escutei sim — ele disse, rindo baixinho.

E, antes que eu pudesse reagir, ele me puxou para um abraço. Seu corpo quente contra o meu, seu cheiro familiar, tudo isso me fez sentir segura de uma maneira que eu não sentia há muito tempo. Eu me permiti relaxar, deixando as lágrimas que insistiam em aparecer escorrerem silenciosamente enquanto ele me segurava.


A Realeza | Percabeth | Livro 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora