Quando voltei ao castelo, a primeira coisa que fiz foi sentar à escrivaninha em meu quarto e escrever uma carta para meu pai. Minha mão tremia levemente ao segurar a caneta, não por causa da dor no braço, mas pela emoção que transbordava em meu peito. Eu não queria invadir a privacidade dele, assim como ele sempre respeitara a minha. A carta era curta, mas sincera. Contei a ele sobre o ataque, sobre a ferida e sobre como eu estava me sentindo. Sabia que ele ficaria preocupado, mas também sabia que ele entenderia. Meu pai sempre entendera.
Agora, eu estava na enfermaria. O ar estava impregnado com o cheiro de antisséptico, e a luz branca e fria das lâmpadas fluorescentes refletia nas paredes de azulejos brancos. Os médicos se moviam ao meu redor com eficiência clínica, verificando cada centímetro do meu corpo em busca de outros ferimentos enquanto tratavam o corte profundo em meu braço. A infecção já começava a se espalhar, e eu podia sentir a pulsação latejante sob a pele inflamada.
"Você ficará com uma cicatriz permanente", disseram-me, com olhares preocupados e um tom de voz que tentava ser suave, mas não conseguia esconder a gravidade da situação.
"Não se preocupe", respondi, tentando aliviar a tensão no ar. "As melhores pessoas carregam cicatrizes." Minha voz soou mais confiante do que eu me sentia, mas a frase ecoou em minha mente, trazendo à tona memórias de Piper, Jason e Percy. Piper, com suas mãos marcadas por incontáveis batalhas, cada cicatriz uma história de coragem e resiliência. Jason, cujas costas eram um mapa de histórias que ele nunca contaria, mas que eu podia ler em seus olhos sempre que o olhava. E Percy... Percy carregava cicatrizes profundas, cada uma delas um testemunho de sua resistência, um lembrete silencioso de vidas salvas e ideais defendidos ao longo dos anos.
Quando voltei ao meu quarto, as criadas já estavam à espera, prontas para me ajudar a me vestir. Elas tiraram medidas cuidadosamente, ajustando o vestido para que escondesse os hematomas e a ferida no braço. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a imprensa descobriria e transformaria tudo em um escândalo. Afinal, as imagens já estavam circulando desde o ataque, e a atenção da mídia só aumentava. Rachel e eu éramos o centro das atenções desde que Afrodite publicara sua matéria na semana passada: "A favorita do público e a favorita do príncipe se unem para receber a família real da Espanha". Rachel era adorada fora dos portões do palácio, mas quando Percy e eu aparecíamos juntos, todos os olhares se voltavam para nós. Isso o irritava profundamente. Para Percy, a exposição era a pior parte da vida no palácio. Ele preferia a simplicidade, a privacidade, mas sabia que isso era um luxo que não podíamos mais nos permitir.
À tarde, Rachel apareceu em meu quarto para me avisar que o Salão já havia sido reorganizado. A única coisa que precisávamos fazer era ir até o aeroporto. Isso já estava combinado, mas, depois do ataque, eu imaginei que Zeus não nos deixaria sair, nem que fosse cercada de guardas. No entanto, para minha surpresa, ele concordou, embora com relutância. A segurança foi reforçada, e eu podia sentir a tensão no ar enquanto nos preparávamos para partir.
As criadas tentaram me vestir com um espartilho apertado e um vestido pesado, mas eu recusei. Escolhi um vestido rosa solto, que não incomodaria minhas feridas. Rachel estava tão simples quanto eu, vestindo um vestido leve e confortável, como se soubesse que precisávamos de um pouco de alívio naquele dia.
Quando chegamos ao aeroporto, fomos recebidas por uma multidão. Cidadãos e fotógrafos disputavam espaço, e os flashes das câmeras piscavam incessantemente, criando uma cacofonia de luzes e vozes. Nos separamos: eu fui ao encontro do avião de Artemis, enquanto Rachel se dirigiu ao de Apolo, que, além de seu nome, exibia um enorme retrato seu estampado na fuselagem. Era impossível não notar a ironia da situação.
— É um prazer conhecer Vossa Alteza. — Me reverenciei assim que a rainha desceu do avião. Ela usava calças, algo incomum para a realeza, e seus olhos afiados me observavam com curiosidade. — É uma honra receber a senhora e suas seguidoras em nosso país.
— O prazer é meu, Annabeth Chase. Fiquei muito intrigada com sua participação na Seleção. — Ela retirou os óculos de sol, revelando olhos que pareciam ver além das aparências. Seus cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo, e ela vestia um cropped preto e jeans. Nos pés, um par de All Stars pretos, exatamente como eu sempre sonhara em usar. Havia algo nela que me fazia sentir imediatamente à vontade, como se ela fosse uma versão mais velha e sábia de mim mesma.
— Vamos ver o que a favorita do príncipe tem a nos oferecer. — Uma de suas seguidoras comentou ao passar por mim, carregando as malas da rainha até o carro. Aquela era Zoë, uma das guerreiras mais fiéis de Artemis. Eu sabia que, após sofrer abusos do namorado, ela encontrara refúgio ao lado da rainha, que a acolhera como uma filha. Havia uma ferida em seus olhos, mas também uma determinação que eu admirava.
— Pare de ser tão amarga, Zoë. — Artemis repreendeu-a suavemente antes de segui-la.
A viagem de volta ao palácio foi tranquila. Apolo falava incessantemente com os outros, enquanto eu era interrogada por Jacinto e Artemis.
— Fiquei sabendo que o último ataque foi horrível. — Jacinto comentou, sua voz carregada de preocupação genuína.
— Acabei levando um tiro de raspão. Vou ficar com uma cicatriz no fim das contas. — Respondi, arregaçando a manga para mostrar a ferida. Jacinto arregalou os olhos, quase sem fôlego.
— Pobrezinha! Deve ter doído tanto... — Ele tocou o ferimento com extrema delicadeza, como se estivesse lidando com vidro. — Isso vai arruinar seus vestidos. Vai ser difícil esconder essa cicatriz.
— Cicatrizes são marcas de guerra. São provas de que somos fortes e sobrevivemos ao que foi colocado no nosso caminho. — Artemis declarou com convicção, sua voz ecoando no interior do carro. Era evidente que ela pensava assim. Suas próprias cicatrizes de guerra se destacavam nas fotografias e, de certo modo, tornavam-se um símbolo de quem ela era.
— São um mapa de onde passamos e de como sobrevivemos. — Completei seu pensamento, sentindo uma conexão instantânea com ela. Artemis sorriu, orgulhosa.
— Menina, acho que sei por que o príncipe está tão interessado em você. — Jacinto brincou, piscando para mim.
— Você é forte, Annabeth. Daria uma ótima rainha. — Artemis declarou, ainda sorrindo.
Jacinto assentiu, lembrando-se de algo.
— No nosso primeiro dia juntos, eu sabia que ela seria uma pessoa incrível. Logo de cara, disse que não queria a coroa. — Informou à rainha.
Artemis me analisou por um momento antes de dizer:
— Por isso seria a pessoa certa para usá-la.
Jacinto riu, e eu senti um calor no rosto. Havia algo naquela conversa que me fazia sentir vista, compreendida. E, pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti acreditar que talvez, apenas talvez, eu pudesse realmente ser digna de tudo isso.
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A Realeza | Percabeth | Livro 2
Fanfiction"Eu agora sou da Elite". A Annabeth Chase uma garota como todas as outras que teve seu destino cruzado com o príncipe por uma seleção e agora na reta final da seleção segredos serão revelados, planos se ergueram e um amor reprimido pode voltar à ton...
