Acordei com os raios do sol batendo diretamente no meu rosto, como se o universo estivesse tentando me tirar à força daquele sono pesado. Meu corpo ainda estava envolto no vestido ridículo que havia usado na noite anterior, agora amassado e com manchas de vinho que eu nem me lembrava de ter derramado. A dor de cabeça latejante era a única coisa que parecia real naquele momento, enquanto o resto do mundo parecia distante, como se eu estivesse flutuando em um mar de névoa.
Levantei-me devagar, sentindo cada músculo do meu corpo reclamar da noite mal dormida. Troquei de roupa rapidamente, trocando o vestido por algo mais confortável, mas a sensação de desconforto não desapareceu. Piorou ainda mais quando as criadas entraram no quarto com notícias que eu não estava preparada para ouvir.
— Senhorita Anne, temos más notícias — começou Calipso, sua voz suave, mas carregada de preocupação. — Clarisse foi mandada embora. Ela agrediu uma menina da elite durante o baile.
Não precisei que dissessem o nome de Kelli para associar o incidente a ela. Kelli, com seu sorriso afiado e olhos cheios de malícia, sempre soube como provocar as pessoas até que elas explodissem. Clarisse, com seu temperamento explosivo, era uma presa fácil. Mas isso não tornava a situação menos dolorosa.
— E Percy? — perguntei, tentando parecer indiferente, mas sabendo que minha voz traía minha preocupação.
— O príncipe Perseu passou por aqui várias vezes, tentando falar com a senhorita — respondeu Silena, trocando um olhar rápido com as outras criadas. — Mas todas as famílias já partiram. O palácio está quase vazio.
— Digam a Percy que estou dormindo se ele passar por aqui — ordenei, dirigindo-me ao banheiro. Tudo o que eu queria naquele momento era um banho quente e demorado, algo que pudesse lavar não apenas o suor e a maquiagem, mas também a dor de cabeça insuportável e a sensação de vazio que parecia ter se instalado no meu peito.
— Mas, senhorita, não estaríamos mentindo para o príncipe? — perguntou Sam, hesitante.
— Não pareceu um pedido da senhorita Anne — respondeu Silena, rapidamente, defendendo minha decisão.
— Uma de nós fica na porta enquanto as outras preparam as coisas para a senhorita — sugeriu Calipso, tentando manter a ordem. — O que gostaria de vestir hoje?
— Apenas um roupão de seda — respondi, entrando no banheiro e fechando a porta atrás de mim. — Pretendo apenas ler e terminar minhas tarefas hoje. E, por favor, tragam-me uma fatia de torta de morango.
Quando me olhei no espelho, senti que estava vendo a pessoa mais feia e insuficiente do mundo. Meus pulsos estavam começando a ficar roxos, provavelmente de tanto me apertar durante a noite. Meus cabelos estavam uma bagunça, e as olheiras sob meus olhos eram tão profundas que mal conseguia mantê-los abertos. Naquele momento, nem mesmo Jacinto e seus milagres poderiam me fazer sentir bonita. Até mesmo um abraço do meu pai, algo que eu tanto desprezava, parecia capaz de me fazer sentir menos vazia.
Piper havia sido condenada por algo que ela nem sequer podia controlar. Ela pagou com suas mãos e alma por um crime que nem mesmo era um crime. Eu pensava que, ao sentir a água quente do banho, me sentiria aliviada, mas em vez disso, parecia que uma pedra enorme havia sido colocada sobre minha coluna. A água não trouxe conforto, apenas uma sensação de peso ainda maior.
Quando voltei para o quarto, mergulhei nos estudos, tentando me distrair. Não consegui encontrar um dos meus livros exclusivos sobre a história dos EUA antes da volta da monarquia, mas me contentei com o volume censurado para fazer meu trabalho sobre a antiga América. Era uma leitura pesada, cheia de detalhes sombrios e histórias de opressão, mas era melhor do que ficar remoendo tudo o que havia acontecido.
Algumas horas depois, ouvi alguém bater na porta. Sam atendeu, e pude ouvir a voz de Percy do lado de fora.
— Ela ainda não está acordada, vossa alteza — disse Sam, nervosa. Era claramente uma mentira mal contada.
— Por favor, eu preciso conversar com ela — insistiu Percy, sua voz carregada de uma urgência que eu não queria enfrentar.
— Não precisa não — respondi, sem tirar os olhos da minha redação.
A porta foi aberta, e Percy entrou no quarto. Ele parou por um momento, olhando para mim. Meu cabelo estava preso em um coque desleixado, o roupão de seda azul-claro era a única coisa que me cobria, e as olheiras sob meus olhos eram impossíveis de ignorar. Ele pareceu hesitar, como se estivesse tentando lembrar por que havia vindo até ali.
— Eu sinto muito, Anne — ele começou, sua voz suave, mas cheia de culpa.
— Por favor, me poupe — interrompi, erguendo a mão para fazê-lo parar. — Essas desculpas devem ser para aqueles que realmente se machucaram com isso.
— Eu não tive escolha, Anne — ele continuou, sua voz agora mais firme. — Ou era isso, ou eles seriam condenados à pena de morte.
— Não diga que não teve escolha quando você é o príncipe! — Ergui um pouco a voz, tremendo de raiva. — Você não tem poder? Ninguém te escuta? Então grite, Percy Jackson! Eles foram condenados por quê? Por amar? E se fosse você? Já sentiu uma chicotada? Sabe o que é sofrer de verdade?
Percy encolheu-se, mas eu podia ver a raiva brilhando em seus olhos. Ele estava magoado, mas também furioso.
— Eu ainda sou um príncipe, Anne — ele disse, sua voz agora mais dura. — Você não pode falar assim comigo. Você nem sabe as dificuldades da minha vida!
— Oh, meus deuses! — ironizei, minha voz carregada de sarcasmo. — Deve ser difícil ter que escolher entre gravatas. Meu pai acorda todos os dias cedo para, no final do mês, ter que escolher entre passar fome ou ter energia. Mas sua vida deve ser mais difícil que a de todos no mundo, tem razão.
— Você não tem ideia do que está dizendo — ele respondeu, sua voz agora mais baixa, mas ainda carregada de emoção.
— Tem razão, Percy. Eu não tenho ideia do que seu tio quis dizer quando falou sobre ter você como uma carta na manga. Mas eu cansei. O nosso país não precisa de mais um rei idiota governando essa droga. Você não tem ideia do quanto eu tinha esperança de que você não fosse igual a ele.
Eu sabia que tinha ido longe demais. As palavras saíram antes que eu pudesse pará-las, e agora Percy parecia realmente abalado. Sua expressão era uma mistura de dor e raiva, e eu podia ver as lágrimas brilhando em seus olhos.
— Se não está satisfeita, faça suas malas e saia — ele disse, sua voz tremendo. — O que te impede? Por que ainda não foi embora?
Era uma ótima pergunta. Eu sabia a resposta, mas o orgulho não me deixava admitir em voz alta, especialmente naquele momento. Eu olhei para ele, e agora ambos estávamos com lágrimas escorrendo pelo rosto. Fiquei em silêncio enquanto ele saía, fechando a porta atrás de si com um baque surdo.
Eu havia começado a gostar daquele cabeça de alga, mas eu estraguei tudo. Minha raiva e meu orgulho estragaram tudo. Não saí do quarto pelo resto do dia, deixando que as lágrimas e o arrependimento tomassem conta de mim.
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A Realeza | Percabeth | Livro 2
Fanfic"Eu agora sou da Elite". A Annabeth Chase uma garota como todas as outras que teve seu destino cruzado com o príncipe por uma seleção e agora na reta final da seleção segredos serão revelados, planos se ergueram e um amor reprimido pode voltar à ton...
