A parte mais difícil na revolução é apertar o gatilho.

1.2K 140 42
                                        


Tudo parecia estar indo bem na festa. Apolo, como sempre, era o centro das atenções, brilhando com seu charme natural e sua habilidade de cativar qualquer um ao seu redor. Ele contava histórias de suas aventuras cinematográficas, como se cada filme fosse uma epopeia digna de ser lembrada por séculos. Ártemis, por sua vez, observava tudo com um ar de satisfação tranquila. Suas caçadoras estavam sendo bem cuidadas pelas criadas, que se esforçavam para atender a cada pedido com precisão e dedicação. Era uma noite de celebração, mas, como sempre, havia tensões sutis pairando no ar.

Eu notei a dinâmica estranha entre Thalia e Zoe. Thalia, com seu jeito direto e moderno, parecia um tanto desconfortável ao lado de Zoe, cuja maneira de falar e se portar era quase anacrônica, como se ela tivesse saído de uma época distante. Zoe falava de lendas antigas, de mulheres aladas que desafiavam os céus, de um dragão feroz que guardava uma maçã dourada em um jardim proibido, e de um titã condenado a carregar o peso do mundo em suas costas. Suas histórias eram fascinantes, mas também carregavam um tom de melancolia, como se cada palavra fosse um eco de um passado que ela não podia esquecer.

Zoe também compartilhava um pouco de sua história pessoal, algo que ela raramente fazia. Ela falou de um homem que a traiu, de um noivo que a violentou antes do casamento e depois a acusou de adultério para proteger sua própria reputação. A família dele era poderosa, e Zoe foi deixada à mercê de uma sociedade que a via como culpada. Foi então que ela encontrou Ártemis, que não apenas a acolheu, mas a transformou em sua braço direito. Ártemis a treinou pessoalmente, garantindo que Zoe nunca mais seria vítima de nenhum homem. A deusa falava disso com orgulho, mas também com uma certa tristeza, como se soubesse que o mundo ainda estava cheio de injustiças que nem mesmo ela poderia consertar.

— Eu vi a filmagem do dia em que Piper foi chicoteada — Ártemis disse de repente, quebrando o meu devaneio. — Foi encorajador ver uma jovem disposta a salvar sua amiga, mesmo sabendo dos riscos. É disso que a monarquia precisa. Sabe, se você quiser, eu te receberia em minha caçada. Mas creio que isso iria causar um conflito com o futuro rei dos Estados Unidos.

Eu sorri, sentindo um misto de honra e apreensão. 

— Seria uma honra lutar ao lado de guerreiras tão exuberantes — respondi, tentando manter a compostura. Mas no fundo, sabia que minha decisão de permanecer onde estava já estava tomada.

Do outro lado do salão, Percy estava conversando com Apolo, segurando uma taça de champanhe com um ar despreocupado. Ele parecia perfeito, como sempre, mas as olheiras sob seus olhos denunciavam o cansaço que ele tentava esconder. Apolo continuava a se gabar, mas Percy parecia mais interessado em observar o ambiente do que em ouvir as histórias do deus.

— Mas acho que vou continuar aqui — eu disse, voltando minha atenção para Ártemis.

— Como quiser — ela respondeu, dando um gole de vinho. — Mas saiba que sempre haverá uma flecha afiada do outro lado do oceano pronta para te ajudar. Você é o que a revolução precisa, Anne. Alguém com a mente aberta, mas ao mesmo tempo teimosa o suficiente para não desistir.

Eu ri baixinho. 

— Creio não ser a favorita para esse cargo. Entre as candidatas, eu sou a última na preferência do público. Dizem que sou tímida demais, gorda demais, magra demais, bonita demais, feia demais... Mas uma coisa é certa em todas as críticas: eu sou da casta 6. Para eles, eu sou uma selvagem, alguém que não deveria governar.

Ártemis olhou para mim com um sorriso astuto. 

— Você não precisa da aprovação do público quando tem o cérebro e o coração do príncipe.

Essa frase sempre me deixava vermelha, não importava a situação. 

— O jeito que ele olha para você é de invejar — ela continuou. — É quase impossível pensar que ele escolheria outra pessoa além de você. Anne, a coisa mais difícil na revolução é apertar o gatilho. Você tem a arma e as balas. Só precisa ter a consciência e esperar a hora certa para mostrar a esse país o que uma Chase pode fazer.


👑🩵


Mais tarde, eu estava em meu quarto, tentando relaxar com um chá de hortelã, quando ouvi uma batida suave na porta. Era Percy, mas não o Percy de traje de gala ou coberto de feridas. Ele estava vestindo uma calça de moletom e uma camiseta azul com uma estampa ridícula de surf, como se tivesse saído diretamente de uma praia dos anos 90.

— Ainda está acordada? — ele perguntou, fechando a porta atrás de si.

— Fico impressionada que você ainda esteja de pé — respondi, colocando a xícara na mesa e abrindo os braços para ele. Ele veio até mim, envolvendo-me em um abraço apertado, seu rosto se encaixando perfeitamente no meu pescoço. Dava para sentir o cansaço dele apenas pelo modo como ele se apoiava em mim.

— Por que você cheira a baunilha? — ele murmurou contra minha pele, fazendo-me arrepiar.

— Vem logo — eu disse, guiando-o até a cama. Ele se sentou no meu colo enquanto eu tentava domar aquelas mechas rebeldes que mais pareciam pertencer a um adolescente de 13 anos. — Você não estava conseguindo dormir?

— Não tenho tido muita vontade de dormir desde que você sumiu do castelo — ele confessou, sua voz mais relaxada agora.

— Eu não vou sumir — eu disse, tocando a ponta do seu nariz, o que fez ele abrir aqueles olhos verdes que sempre me deixavam sem fôlego. — Você não vai se livrar de mim tão facilmente, cabeça de alga.

— Eu espero que sim — ele respondeu, sorrindo como um bobo. — Acho melhor eu voltar para o meu quarto.

— Fica aqui — eu insisti, deitando ao seu lado. — Amanhã você sai cedinho antes que alguém perceba, por favor?

Ele se deu por vencido e me abraçou. Naquele momento, era apenas nós dois, e aquela conexão era tão especial que eu quase conseguia esquecer o mundo lá fora.

Porém, na manhã seguinte, um avião pousou no aeroporto em uma viagem de emergência. Era uma visita inesperada, alguém que insistia em se aproximar de Percy cada vez mais. Isso não agradava nem um pouco à rainha, especialmente se essa pessoa fosse uma promessa não cumprida de anos atrás.

A Realeza | Percabeth | Livro 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora