— Eu sou meio viciado em me masturbar.
— Okay...
— Desculpa. É que eu estava pensando sobre como provavelmente estaria me masturbando na véspera de Ano-Novo se estivesse em casa agora. E que bom que eu não tô.
— Bom que não está em casa ou se masturbando?
— É intrínseco. Se eu estiver em casa, estarei me masturbando.
— Seu quarto deve ter um cheiro ótimo.
— Vai se foder.
— Acho que se masturbar muito faz parte dessa fase da vida, né? Nossos hormônios e tals. E dizem que é saudável. Quer dizer, a menos que você não seja viciado em pornografia pesada e coisas assim. Nesse caso, acho que faz mal. Não sei, umas pessoas estavam comentando sobre isso no Twitter esses dias.
— Na maioria das vezes, eu nem mesmo sinto nada, mas continuo me masturbando.
— Por quê?
— Não sei, acho que é um estímulo. Prazer sexual me relaxa, ou me tira do meu estado natural, que é meio vegetativo, mas não sei se sinto realmente prazer sexual. Quer dizer, sim, eu sinto, mas não parece que é de verdade, sabe? Ou intenso. Tipo aquele prazer que você deveria sentir. Parece mais a sensação de comer algo gostoso sem fome. O gosto é bom, mas...
— Entendo.
— Eu me sinto um cracudo.
— Acho que de certa forma faz sentido. Sei lá. As pessoas não acordam todos os dias e sobrevivem com a ajuda de estímulos?
— É, mas vício não é muito saudável, né?
— Acho que não, mas alguém consegue realmente ser saudável? Todo mundo tem uma coisa. Ou você bebe, ou você fuma. Ou tem um parceiro romântico e pensa e quer estar com ele toda hora, ou nunca larga seus amigos. Ou você passa o dia lendo e estudando, ou é doido pelo seu trabalho. Ou é apegado à sua família, ou nunca sai das redes sociais. Alguns são viciados em prazer sexual. Qualquer prazer sensorial, drogas etecetera.
— Algumas dessas coisas são boas, acho que são vícios saudáveis, de certa forma. Quer dizer, ler e estudar...
— Você mesmo acabou de dizer que vício não é muito saudável.
— É.
— Talvez você somente não devesse se culpar tanto por isso. Talvez só seja humano da sua parte. Aquela coisa de que ninguém é perfeito e em algum ponto temos que ceder e tudo mais. E também, você provavelmente não vai se sentir assim pra sempre, né? Nesse estado vegetativo no qual precise bater uma pra ficar feliz. Talvez só não haja muitas coisas agora que te estimulem no dia a dia, e faça isso pra... sentir? Bom, você não sente, mas, entendeu o que eu quis dizer.
— É, acho que sim.
— Ou talvez, e muito provavelmente, eu esteja te dando um conselho péssimo e você devesse procurar ajuda, mas, sabe... acho irritante quando as pessoas desabafam sobre uma questão e a única reação é "Nossa, que foda... Você devia procurar ajuda!". Tipo: "Sim, acho que já tenho noção disso, seu otário. Não tem mais nada pra me dizer?". Mas, ainda assim, posso estar errado. Não sei, não te conheço, não sei o quão ruim é pra você isso tudo.
— Tá tudo bem. Me confortou.
— Tudo bem, então.
— Eu meio que concordo que não devia me culpar tanto por isso. Acho que me cobro bastante para a minha idade, mas também parece errado não me cobrar. Fico me perguntando se as outras gerações também eram assim na nossa idade, ou se é algo que nasceu com a gente. Toda essa moralidade e vontade e ansiedade de ser perfeito. Na verdade, nem sei se posso dizer que isso é algo da minha geração. Eu me sinto assim, não sei os outros.
— Eu também me sinto assim, acho.
— Penso que deve ter a ver com a internet. Nós lemos tantas coisas. Pegamos e julgamos tudo tão rápido. E todo mundo é tão correto e tão crítico também. Jesus!
— Eu gostaria muito de me desprender da internet, acho que seria uma pessoa mais feliz sem ela.
— Eu também, mas é meio impossível. É como tentar ser amarelo enquanto todo mundo pensa vermelho. Não importa se está fora da internet, todo mundo com quem você cruza no dia a dia e se relaciona, tudo que se fala e qualquer coisa que se faça está dentro da internet, ou é influenciado por ela, e isso automaticamente influencia na relação que você vai ter com essas pessoas. As conversas que vocês terão e o jeito de ver o mundo.
— Eu posso influenciar as pessoas a saírem da internet.
— Verdade. E isso te faria um "influencer".
— Trouxa.
— "Real life influencer" e não "digital influencer".
— Acho que esses são os chamados "coaches".
— Nossa, nem me faz começar a falar sobre "coaches".
— Não vou! Pelo amor de Deus, é Ano-Novo.
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Velho ano-novo
RomantikTodo ano é igual na vida de Gregório, mas algo parece prestes a mudar quando ele conhece Juliano no mercadinho do bairro na noite de Réveillon.