Faltando algumas horas para o badalar da meia-noite no relógio e a virada de um novo ano no calendário, puxei uma garrafa da cachaça mais barata e amarelada do refrigerador do mercado e parei de me mover quando cinco dedos escuros e brilhantes agarraram a porta da geladeira com força.
— Eu ia pegar essa! — disse a figura alta que surgiu à minha frente, lembrando um desses seguranças de mercado, que geralmente surgem pelas costas, apontando para a bebida na minha mão.
Balancei a cabeça, não entendendo o ponto dele.
— Tá, pega, a geladeira tá aí.
— Mas é a última.
Voltei o rosto para o interior do refrigerador enferrujado do mercado.
Realmente, era a última.
— Não é exatamente um problema meu...
— Quer dividir?
Franzi minhas sobrancelhas, confuso:
— Oi?
— Perguntei se você não quer dividir a cachaça. Ou você vai beber com outra pessoa?
Tenho bastante certeza de que fiquei travado na minha posição por alguns segundos, sentindo o ar gelado da geladeira atingir e eriçar os pelos do meu antebraço, não compreendendo exatamente o que era aquela interação naquele momento. Um desconhecido, no meio do estabelecimento, estava pedindo para eu dividir a minha mercadoria com ele.
Encarei o garoto, que me encarou de volta, não parecendo sentir qualquer estranheza com aquela situação. O cabelo estava trançado de maneira organizada sobre a própria cabeça, e os olhos castanhos piscavam em expectativa, logo acima de um nariz reto e um bigode fininho. Quanta audácia.
— Talvez. Não é bem da sua conta, né? E na verdade, eu vou — respondi.
— Ah, sério? — Ele apontou para a minha roupa, uma calça de moletom cinza da Adidas e uma camiseta longa com uma arte do Luffy, do One Piece. — Porque falta pouco tempo para a meia-noite e você não parece estar pronto pra nenhuma festa de Ano-Novo.
Imediatamente me senti nu, mesmo que o ponto fossem as minhas vestes.
— Meu Deus, sua mãe te criou pra ser tão intrometido assim? — perguntei em voz baixa, me sentindo incrédulo o suficiente para questioná-lo e assustado o suficiente para ser cauteloso ao discutir com um possível doido varrido no mercado.
Okay, é exagero. Ele não parecia um doido varrido. Usando meias longas azuis, um short anil e uma regata velha turquesa, só parecia um jovem meio maluquinho. E até onde sei, eu também era um. Mas não tão intrometido.
— Você quer dividir ou não? — tornou a perguntar.
Senti-me na necessidade de fornecer uma explicação. Não deixaria um desconhecido sair por aí julgando meu Ano-Novo.
— Eu vou a uma festa... — Ele olhou novamente para as minhas roupas. — Vai ser virtual.
— Ano-novo no multiverso?
Na hora, me arrependi de ter fornecido uma explicação. Por que eu ainda estava participando daquele momento?
— Talvez. Dane-se. Cuida da sua vida. Toma, pode pegar essa cachaça, não quero mais. Vou achar outra coisa. — Larguei a garrafa nas mãos dele e saí andando, só pra escutar ele dizendo ao fundo:
—Eu tentei dividir, mas obrigado.
Mais tarde, ele me contou que aquela havia sido mais uma tentativa falha de se conectar com outro ser humano e que ele realmente tinha nascido para ser antissocial.
Um pouco depois, enquanto passava o pacote de chips de batata-doce que peguei da última prateleira da esquerda, a moça loira baixinha do caixa, que parecia estar doida para bater o ponto e ir embora curtir o Ano-Novo com a família, sorria falsamente para mim.
Eu sorri de volta, porém sentia a raiva subindo pelas "paredes" do meu pescoço. Na hora, soltei um suspiro e controlei a vontade de cerrar os dentes na frente dela. Por dentro, o monólogo em minha cabeça era o seguinte:
"Quer saber? Foda-se ele. Cadê ele? Já foi, pelo jeito. Roubou minha compra e foi embora, para ser muito feliz com o que tirou de mim. Assim como cada filho da puta que eu conheci neste último ano. Cada filha da puta que eu conheço desde o ano em que nasci. Por que todo mundo que cruza o meu caminho acha que pode usar e abusar e tomar as coisas de mim? Minha família, meus supostos amigos, a galera do meu trabalho, os meus namorados e, agora, esse trouxa intrometido no mercado? Na porra do último dia do ano? Ora, faça-me o favor. Por que eu continuo permitindo que todos me humilhem, como se as minhas vontades não valessem algo também? Eu quero beber cachaça. Quero beber cachaça, porra. E não importa onde, ou com quem. Eu a peguei primeiro. Peguei a porra da cachaça primeiro. E cansei de fugir do confronto também."
Quando saí do mercadinho, o intrometido da cachaça estava sentado na calçada em frente ao estacionamento vazio. Estava bebendo a cachaça que eu deixei ele pegar. Sozinho.
Fechei meus punhos, sentindo ódio correr pelas veias mais uma vez. Faltavam três horas pro Ano-Novo. Assim como eu, ele não parecia ter nada melhor pra fazer, ou alguém pra passar o tempo. Não, não existia nenhuma festa virtual, eu tinha inventado.
Caminhei até a calçada com as solas do tênis raspando o chão irregular e parei em frente a ele.
— Ei.
— Hum?
— Você foi muito mal-educado e enxerido lá dentro, sabia? Tenho certeza de que as pessoas não te falam isso no dia a dia, porque provavelmente se sentem intimidadas por você, porque você é o tipo de pessoa que intimida as outras com esse jeito grosseiro e bruto, mas...
Ele apertou os olhos no meio da minha sentença e me interrompeu em um tom ameno.
— Como meu jeito é grosseiro e bruto quando eu pedi educadamente e ainda dei a ideia de a gente dividir?
Arregalei os olhos e respondi, em um tom afetado:
— Meu Deus, já ouviu falar de normas sociais? Não é assim que funciona! Você não pode parar as pessoas no meio do mercado e perguntar se elas não querem dividir a mercadoria delas com você.
— Quem liga pra isso? — ele perguntou, na maior calma possível, como se eu não estivesse soltando berros irritados no seu rosto. — Nada faz sentido. A vida é uma merda. Todo mundo é idiota. É o último dia do ano e você tá tão sozinho quanto eu. Quem liga para normas sociais?
Naquele momento, minha boca abriu, contudo, não consegui colocar nenhuma palavra para fora. Atônito, sem saber o que responder, mantive-me quieto. Quer dizer, tinha muita coisa pra responder, mas elas ao menos fariam sentido depois de ele ter retirado o sentido de tudo? E para quê?
Realmente, era o último dia do ano. Talvez eu estivesse ficando maluco por estar validando esse outro maluco no estacionamento do mercado. Talvez já estivesse maluco por estar discutindo com esse maluco no estacionamento do mercado. Talvez eu fosse o maluco, pensando melhor. Mas ele possuía um ponto. Ou, pelo menos, eu não possuía um ponto melhor do que o dele.
Me sentei ao seu lado, ao que o intrometido levantou a cabeça.
— Quer um gole?
Peguei a garrafa da mão dele e bebi três goles ardentes.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Velho ano-novo
RomanceTodo ano é igual na vida de Gregório, mas algo parece prestes a mudar quando ele conhece Juliano no mercadinho do bairro na noite de Réveillon.