Um pouco antes das 23h59, uma onda gelada de vento sopra contra as minhas bochechas.
— Nossa, que frio que bateu agora — eu digo, e Juliano chega para mais perto de mim, dobrando seu braço ao meu redor.
— Melhorou.
Uma quietude se abate sobre o ambiente por um breve momento. É quase Ano-Novo e a rua à nossa frente está completamente vazia, tingida por tons cinzentos e de azul-escuro. Somente um poste de luz funciona, na virada da esquina, e o semáforo pisca em amarelo, como se, assim como nós, também estivesse no limite daquele tão aguardado instante de passagem livre.
Juliano pende a cabeça pro lado e diz:
— Lembra de horas atrás, quando a gente se conheceu na seção de frios do mercado e você me chamou de intrometido? Agora tô te abraçando na calçada dele. A vida é engraçada.
— Sim, realmente a vida é engraçada.
— Faltam poucos segundos.
— Espero que não tenham cachorros na rua. Os fogos vão começar e eles vão ficar assustados e agitados.
— Greg, é claro que vão ter cachorros na rua.
— É.
— Você realmente não é muito realista.
— Meu jeitinho.
— Meia-noite.
— Juliano?
— Oi.
— Feliz Ano-Novo.
— Feliz Ano-Novo, Greg.
E tudo o que eu ouço são barulhos de fogos. E latidos.
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Velho ano-novo
RomansaTodo ano é igual na vida de Gregório, mas algo parece prestes a mudar quando ele conhece Juliano no mercadinho do bairro na noite de Réveillon.