Minha Âncora

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Fagundes

Passo pela porta da sala observando cada detalhe diferente de quando sai. A mesa de centro estava despedaçada, cacos e mais cacos de vidros quebrados junto com o jogo de vasos favoritos dela, um presente do pai dela quando disse que moraríamos juntos.

Aumento meus passos indo até o cômodo que me interessa, tudo poderia sumir desde quando eu sai, mas ela deveria estar lá...no mesmo lugar que deixei.

Fizemos amor a noite toda, ela tava com o tesão maior do que todas as outras vezes, tem sido assim desde uns dois meses atrás.
Eu não queria sair no meio da madrugada e deixar ela sozinha, mas a conta de levar uma vida dupla tava aumentando e uma hora ou outra eu seria cobrado.

Me aproximei da porta do nosso quarto e assim que entrei já conseguia ouvir seu choro baixinho, ele vinha do lado dela da cama e quando cheguei mais perto ela estava com o corpo todo encolhido dentro da camisola de cor escura.

Me abaixei de imediato vendo o corte na sua têmpora e o sangue escorrendo devagar. Seus joelhos dobrados com os braços aos redor e sua cabeça baixa entre as pernas.

Caralho, que merda.

— princesa...— cheguei pertinho, mas ela se afastou.

— quem eram eles ? — permaneci em silêncio.

Passei meu braço direito por sua nuca e assim que obtive contato ela se afastou de novo esbarrando na cômoda. Levantou um pouco sem forças e se apoiou na parede, quando fiz menção de ajudar ela se esquivou.

— te perguntei quem são esses homens que entraram aqui — a dúvida em sua voz denunciava que seria ainda mais difícil ela engolir qualquer mentira minha.

— Isla, me ouve — tentei me explicar mais uma vez, mas sua raiva deixava ela irredutível.

— sem mentiras, Vinicius...você tem saído de madrugada, volta tarde de sei lá onde e só faz me encher de mentiras — ela elevou o tom e ajeitou a postura tentando permanecer em pé.

— amor, vou buscar as coisas pra limpar isso e depois vamos no hospital ver se tá tudo bem...— me virei em direção ao banheiro mas suas palavras me paralisaram.

— acabou, são mentiras em cima de mentiras...eu me casei com você e eu te amo Vinicius, mas assim não dá — me virei na sua direção, olhando seus olhos marejamos e carregados de mágoa — Se eu saísse de madrugada e te deixasse aqui, na nossa cama dormindo, depois de dizer eu te amo olhando nos seus olhos, o que você faria ? — ignorei todas as suas palavras e cheguei bem perto dela, grudando nossos rostos.

— tu não vai pra lugar nenhum, tá ouvindo ? Tu é minha mulher, minha tropical, Isla — acariciei seu rosto sentindo as lágrimas conforme passava meu dedo maior por sua bochecha.

caralho, que fumaceiro da porra — traguei a última vez o meu baseado antes de deixar a ponta no cinzeiro de ouro em cima da minha mesa de madeira coberta por verniz.

Olho pro cara que passa pela porta da minha sala sem nem bater na porta, parece que tem essa porra atoa já que ele não bate nunca.

— que caralho tu veio fazer aqui agora ? — ele caminha até o sofá que tem ali e se senta arqueando as sobrancelhas — faz vinte minutos que tu saiu, tem trabalho pra porra e tu passeando, tu tá recebendo pra isso ?

— sabe, meu tesão, tu anda muito brabo isso é falta de...— antes que terminasse a frase olhei serinho pra ele.

— falta de sentar bala na tua cara, Monteiro — quando faço menção de me aproximar ele se levanta e vai se aproximando da porta — não sei como tua mulher te aguenta.

— eu também não sei, são quase dezenove centímetros — continuo olhando pra ele serinho e ele ergue as mãos em sinal de rendição e sai da sala, alguém logo atrás bate na porta já abrindo.

— aê, chefia — vejo o Braza entrar com o caderno da contabilidade — caderno tá em dia e as contas tão batendo, gestão fluindo como sempre — pego o caderno de suas mãos e agradeço — tá ligado naquela parada que tu pediu sigilo ?

— descobriu alguma coisa ?

— parece que ela sumiu do mapa mesmo, bagulho de rede social não tem e o número de celular tá sempre mudando — filha da puta esperta.

tá tranquilo, Braza, qualquer coisa te aciono de novo — ele faz um toque comigo e sai da sala fechando a porta.

Pego meu celular no bolso e a tela acende assim que toco nela. Vejo nossa foto, nosso casamento que foi do jeito que ela queria, o sorriso no rosto e a felicidade estampada nos olhos, gritando o quanto aquele momento seria eterno.

amor, preciso tirar esses sapatos, meu pé está amassadinho — ela sorri e automaticamente seus olhos se estreitam, eles ficam pequenos por conta do sorriso enorme.

Me agacho apoiando um joelho no chão e o outro faço de apoio pra ela por o pé.

— deixa eu tirar — ela apoia a mão em meu ombro pra não cair e apoia o salto no meu joelho.

Vou retirando o pequeno pedaço de couro do fecho prata e consigo ver a marca vermelha pela pressão das sandálias. Os pés inchados me fazem franzir a sobrancelhas, esses sapatos machucam tanto assim ?

— meus pés estão inchados, eu pensei que tivesse estressada, mas passei o dia no salão e ficou a mesma coisa, mesmo com as mãos de fada da Rose me fazendo uma massagem.

Me levanto ficando frente a frente com ela, vejo que ela ficou menor pela falta do salto e me inclino dando um selinho em seus lábios.

— quando o vestido tiver incomodando pode me chamar pra tirar também — sorrio pra ela que entende minhas intenções e sorri também — não vai usar esses sapatos de novo, olha como te machucam — apontei pros seus pés avermelhados.

— não mesmo, até essa retenção de líquido passar vou usar apenas havaianas — seus braços rodeiam minha nuca e ela me puxa de leve pra perto — pode ter certeza que eu já quero tirar esse vestido e ir pra casa, sentir cada centímetro seu me macetando — ela sussurra em meu ouvido e isso basta pra me deixar duro junto com o beijo que ela iniciou.

Dia após dias e eu continuo matutando tudo na mente. Se eu penso por tempo demais a vontade de usar alguma parada me sobe, mas toda vez eu penso no que ela diria se me visse drogado ou usando alguma dessas porcarias. Até de longe ela consegue ser minha âncora.

Vinicius Fagundes, 35 anos

Vinicius Fagundes, 35 anos

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Mentira Letal [M]Onde histórias criam vida. Descubra agora