Reviver o passado

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Fagundes

Vejo que seus olhos diminuem à medida que seu sorriso aumenta. Ela gosta de me contraria, é claro que sim.

— não quero te contrariar, eu já vou embora — ela pega mais uma batata da porção que pediu e aproxima a bandeja de mim me oferecendo, mas eu recuso.

— não quero que vá, mas também não quero que fique aqui no bar — ela estreita os olhos pra mim e eu permaneço sério.

— não sabia que era ciumento nesse tanto — sua frase soa irônica e eu desvio minha atenção para o outro lado, observando a Anne.

— tu sempre soube, mas agora é diferente.

— diferente por que não sou mais sua como era antes ? — a pergunta me atinge em cheio, sinto meu peito doer com a menção que ela faz sobre não ser mais minha.

— vai voltar a ser, tropical — agora o sorriso irônico sai dos meus lábios — não se engana não.

— você que se engana, eu sei que estar na vida da Anne não é plano pra estar na minha também, mas não pense que só porque estaremos próximos iremos voltar.

Olho ao redor e percebo uma movimentação estranha, um carro se aproxima com o som perceptível.
Quando os vidros abaixam tenho a visão da Helena dentro do carro, ouço a risada baixa da Isla ao meu lado e vejo ela estacionar.

Quando desce do carro travando as portas ela vem na direção do bar se balançando ao som da música daqui de dentro. Vejo de relance os olhos do Braza cair sobre ela.

— fala minhas parceiras — ela chega mais perto — hoje é dia de bailar.

— bailar aonde, Lena ? — Isla pergunta dando risada.

— tem baile hoje, amiga — Júlia fala sentada ao lado da Isla.

Sinto seu olhar na minha direção, mas não devolvo. Sei que provavelmente ela gostaria de perguntar, mas não quero ela aqui nesse meio.

— bom, acho que já vou indo então, Anne tem uma consulta hoje e preciso levá-la — agora eu procuro seus olhos mas ela não faz.

Ela se levanta e se despede da Júlia e da Helena, assim como do pessoal e pede pra nossa filha se despedir do Lucca. Acompanho ela até o carro ouvindo a Anne resmungar que queria ficar mais um pouco, ela ajeita a pequena na cadeirinha e fecha a porta traseira do carro.

Quando ela pensa em dar a volta no carro ainda sem me olhar eu seguro seu punho, impedindo ela de seguir pra porta do motorista. Meu maxilar está trincado e minha postura rígida, esperando que ela diga que consulta é essa e porquê eu não sabia.

— pode me soltar ? — ela me lança um olhar como um aviso, mas eu nem me importo.

— que consulta é essa ? Ela tá com algum problema de saúde ?

— ela é asmática, Vinicius — estreito os olhos esperando que ela continue — faz natação duas vezes na semana pra tratar, foram algumas sequelas da prematuridade dela.

— ela nasceu prematura ? — Isla confirma com um aceno — por que não me contou ?

— olha, a gente não teve tempo de conversar sobre como foi esse tempo todo que estávamos afastados.

— tô perguntando da saúde da minha filha.

— eu não sou surda, estou dizendo que aconteceu enquanto você não esteve lá.

— claro — digo de forma irônica — porque eu teria chances de fazer alguma coisa sendo que eu nem sabia da existência dela.

— saberia se...

— se o que ? — meus olhos no dela, como um reflexo — se eu não tivesse mentido e mais não sei o que ? É tudo que vai dizer quando a gente trocar esse papo ? Chega Isla — vejo a dor em seus olhos, me comovo mas não demonstro.

Eu não sei o quanto doeu nela, mas eu sei que o que eu fiz atingiu ela de uma maneira que eu nunca vou conseguir reverter e não me orgulho. Eu errei, de todo jeito eu errei, eu afastei ela da minha realidade, da minha verdade, da minha vida e tudo isso pra criar uma vida com ela.

Ela maneia a cabeça em negação e um sorriso sem humor sai em seus lábios, sem dizer uma palavra ela segue até a porta do motorista e entra no carro. Eu fico parado onde estou, passo as mãos pelo cabelo, irritado. Não consegui me despedir da minha filha, também não tenho cabeça pra ir atrás dela e resolver essa parada.

Quando volto minha visão pra porta do bar, vejo Helena parada e pela sua feição percebo que acompanhou nosso diálogo. De braços cruzados o olhar dela me alcança, ela se aproxima e assim que percebo estendo a mão pra se afastar.

— não adianta, vou falar do mesmo jeito.

— a mesma coisa que ela fala toda vez ? Valeu, mas me dou por satisfeito com o que já ouvi — ela me olha como se tivesse proferido um palavrão e se aproxima mais de mim, com raiva.

— sei que não quer ser um egoista de merda, mas não sabe metade do que ela passou em São Paulo quando descobriu a gravidez — quando abro a boca pra ter chance de revidar, ela me corta — eu sei que não teve como saber, eu sei que ela se afastou, Vinicius — ela dá uma pausa, respira fundo e continua — mas isso não anula o fato dela ter sofrido, ela queria ter te procurado, ou acha que ela realmente foi feliz estando sozinha na gravidez ? O problema é que ela tava ferida, magoada, se sentindo insuficiente, quando tudo acabou entre vocês ela já estava grávida de dois meses e foi um choque.

Sinto minha cabeça latejar com tudo que ela diz, queria ir atrás da Isla e concertar tudo, mas se ela continuar revivendo o que houve não tem como, nunca vamos ter paz pra vivermos juntos.

......

Meninas sei que tô falhando com as postagens mas nem sempre tenho criatividade pra escrever e as vezes preciso da interação de vocês.

Acham que Isla e Fagundes vão se resolver ?

Mentira Letal [M]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora