Ciumes estampado

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Isla

Mais um dia da nova rotina, buscar a Anne no morro e seguir pra casa. As vezes era cansativo, ainda mais com os problemas que venho enfrentando com os fornecedores da loja, mas amém afinal eu sempre pedi que Deus fizesse prosperar e isso tem acontecido.

Os rapazes da barricada já estavam familiarizados com meu carro, então apenas fizeram um sinal pra que eu subisse. Fui dirigindo com cuidado até porque tinham várias crianças na rua, velocidade quase parando.

Chegando perto de uma quadra tinha um movimento já maior, mas não era de crianças e sim de traficantes. Sei disso porque o Vinicius estava no meio e com a Anne no colo.

Eu não me importava dela ficar no morro, de interagir com o pessoal até porque caráter não condiz com classe social, mas o fato dele deixar nossa filha próxima de armas maiores do que ela, me incomodava um pouco. Queria ela acostumada com o pessoal, não com a violência.

Estacionei quase em frente ao bar onde tinha uma vaga, na frente do carro dele. Desci travando as portas e ajeitando o vestido mid com alças grossas na cor marrom, que acentuava minhas curvas.

Ele estava de costas, mas Anne me viu perfeitamente e desceu do colo dele correndo para me abraçar. Ele tentou segura-lá e levantou quando ela escapou.
Assim que se deu conta ele se posturou, segundos atrás estava rindo.

O bar estava um pouco cheio, tanto de homens como de mulheres e senti os olhares na minha direção, mas nenhum fazia meu corpo queimar como o dele.
Todas as vezes que eu estava perto era essa mesma sensação, eu poderia não encontrá-lo no meio de várias pessoas, mas só pela energia e conexão que temos eu poderia saber que ele está no mesmo ambiente que eu.

— por que não avisou que tava subindo ? — ouvi sua voz rouca murmurar.

— você sabe o horário que venho buscar ela — olhei pra ele sem entender o porquê do estresse.

— eu me distrai um pouco e esqueci do horário — concordei apenas com um aceno — então quando vier avisa pra pegar ela em casa — senti o incômodo na sua fala.

Vinicius é ciumento, e não é pouco não. Então entendi o que ele quis dizer, mas não vou dar palco pra maluco. Ele sabe muito bem o horário que venho buscar nossa filha.

— mamãe, mamãe — ouvi sua voz meiga e peguei ela no colo dando um beijo em seu rosto.

Ela estava vestida com um conjunto na cor amarela, destacava bem na sua pele. Tinha babado nas manguinhas e na barrinha do shorts, bem fresquinho.

— oi, meu amor — disse dando um cheirinho no seu pescoço sentindo o perfume docinho.

— mamãe, comi muita paiabesa, que delícia — sorri com a animação dela, já fazia um tempo que ela não comia calabresa, restrições da pediatra, mas vez ou outra não mata né.

— vamo lá pra casa — apontou pro carro e colocou a mão na minha cintura.

— vou pra minha casa — me afastei um pouco e ele franziu o senho.

— qual foi, pô. Mais meia hora com a minha filha.

— ótimo, pede uma porção de batatas pra mim e vamos sentar lá com o pessoal — voltei minha visão pro bar e percebi que Júlia também estava junto com o Monteiro.

Ele olhou pro mesmo local e negou rapidamente.

— nem fodendo, vai entra no carro.

— perfeito, vamos comer batata Anneska ? — ela assentiu e ele negou, andei em direção ao bar mas senti sua mão me impedir.

— não vai entrar aí, tá cheio de macho, Isla — suas mãos estavam firmes, mas não pra me machucar.

— eu quero comer batata frita, Fagundes — seu olhar confuso me atingiu e ele desfez o aperto.

— não me chama assim, não gosto.

— não é seu vulgo ? — disse de maneira irônica — quer que eu volte pra sua vida, mas não quer que eu conheça quem é de verdade ? — questionei.

— entra no carro — ele disse de maneira pausada e fechou os pulsos com o maxilar trincado.

Ignorei sua fala e entrei no bar com a Anne no colo, cumprimentando a Júlia primeiro e depois o pessoal que estava ao redor, de maneira geral.

Minha filha desceu do meu colo chamando o Lucca para brincar com ela, ele até então estava dormindo mas logo se animou.
Júlia acariciou a barriga por cima do vestido que usava e era já visível o volume, mesmo que pequeno. Me sentei ao seu lado quando ela me estendeu a cadeira.

— ele vai infartar — disse olhando para o lado de fora onde o Vinicius ainda estava, agora encostado no carro. Uma mão no bolso e a outra segurando um cigarro, que eu julgava ser de maconha.

— por mim — dei de ombros — acho engraçado o jeito como ele acha que manda em mim, não sou a mesma de dois anos atrás, Ju. Hoje em dia se vier na minha reta, volta passando raiva.

— percebi, ele nem fuma maconha com frequência, mas se depender dele depois daquele beck tem mais um — ela riu desviando os olhos de mim para ele — e a Lena ?

— cuidando dos negócios enquanto vim buscar a Anne.

Depois de pedir a batata e passar os olhos pela Anne percebi a aproximação do Vinicius, ele ajeitou a cadeira ao meu lado e passou o braço direito pela minha cadeira, encostando sua mão em meu ombro e se aproximando mais do meu ouvido.

Cada vez que esse homem chegava perto de mim eu sentia meu ventre se contorcer com força.

— gosta de me contrariar, não é ? — sua voz estava firme, mas baixa pra que só eu ouvisse.

Um sorriso pequeno surgiu em meus lábios, esse homem com postura rígida e semblante sério me causava um tesão inexplicável.

Mentira Letal [M]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora