3

174 35 2
                                        


HEIDI

Meus filhos choraram como imaginei que chorariam quando as enfermeiras entraram naquela manhã para a realização dos exames. Dr. Ezequiel me avisou que fariam o exame do pezinho e da orelhinha o quanto antes, não uma semana depois como acontecia em alguns hospitais públicos. Fazia parte dos seus estudos a confirmação daquela necessidade.

Passei uma noite ruim, desconfortável, dependente de remédios e com movimentação constante no quarto, apesar de não haver outra pessoa para dividir a enfermaria comigo. Eu quase nada podia fazer. O banho fora sobre a cama, a comida dada na boca, os bebês tratados e acarinhados por braços que não eram meus.

Por isso, naquela manhã em especial, meu humor ácido era tudo o que eu conseguia manter.

— Vamos levá-la para fazer uma ressonância — a enfermeira comunicou quando entrou para a troca da medicação. — O ortopedista quer saber se houve algum problema interno com a queda.

— Tudo bem.

— Enquanto isso, as crianças passarão por exames. Sua mãe pode acompanhá-las.

— Tudo bem — eu me limitei a dizer.

— Em quanto tempo os exames deles ficam prontos? — Minha mãe perguntou. — Nós vamos para Pelotas, por isso me preocupo. E o médico que acompanhou minha filha disse que ela ficaria três dias aqui. Hoje é o terceiro dia.

— São exames específicos, mais detalhados, não apenas os triviais que são feitos geralmente. Esse estudo busca encontrar nas primeiras horas de vida qualquer doença que possa se desenvolver mais a frente. Por isso demora. Mas acredito que com o resultado da ressonância, todos recebam alta ainda hoje.

— Sem os resultados?

— Sim, os resultados você recebe no seu retorno, quando seu médico fizer uma revisão para confirmar se está tudo bem.

Minha mãe se afastou, o semblante preocupado, mas nada disse. Minutos depois, dois maqueiros entraram para me levar para o exame. Demorou mais tempo do que imaginei. Fiquei enjoada e me senti fraca, no entanto, quando voltei para o quarto Dr. Ezequiel aguardava por mim e conversava com minha mãe.

— Jade — ele disse com certa alegria. — Acabei de assinar sua alta e dos bebês também. Mas você ainda precisa que o ortopedista te libere.

— E se ele não liberar? — perguntei assustada. — Meus filhos tiveram alta.

— Normalmente quando isso acontece o recém-nascido é internado junto com a mãe, mas não acredito que ele vá te segurar aqui. Vi seus exames e não há nada que nos preocupe. Você só precisa manter o tratamento e pegar leve, afinal de contas, além da queda, você teve um parto cesariano. É só seguir as recomendações. De qualquer forma, solicitei que agendassem o seu retorno para daqui a uma semana.

— E os exames?

— Tudo certo com o da orelhinha. São bebês saudáveis. Agora vamos esperar os resultados dos testes do pezinho.

— Certo. Obrigada, doutor.

Ele saiu e minha mãe se aproximou da cama onde os maqueiros me ajudaram a me acomodar.

— Você precisa preencher esses papéis. É para o registro das crianças. Eles disseram que eu posso levar, já que você ainda não pode fazer esforços.

— Ah, certo.

Fingi indiferença enquanto preenchia as informações, contudo, eu sabia que minha mãe me acompanhava de perto e que aguardava que eu colocasse o nome do pai das crianças, mas eu assinalei que era pai desconhecido e isso a fez bufar e se afastar.

JEAN KUHN - A REDENÇÃOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora