HEIDI
A Sra. Clô providenciou tudo para que a minha estreia naquela noite fosse um sucesso. Eu tive tudo o que era necessário para me tornar a mulher por quem os homens lutariam, desde a manicure, hidratação e esfoliação em toda a pele. O encontro iniciaria à meia noite, desta forma, após o jantar leve e antecipado, ela pediu que eu descansasse.
Trancada em meu quarto, eu me encarava no espelho e repetia em minha mente que tudo acontecia conforme determinei, que aquela seria a única e mais rápida solução e que transar por dinheiro era um ato de caridade que eu fazia pela minha filha. Por ela eu daria o meu melhor, como fiz nos últimos dias, desde o seu nascimento até os segundos que continuavam passando sem que eu conseguisse todo o valor necessário.
Contudo, a verdade que eu jamais diria em voz alta, era que eu estava apavorada. Uma coisa era estabelecer que seria capaz, outra era ser de fato capaz. Engoli com dificuldade e desviei o olhar para o celular sobre a penteadeira. Minha mãe conhecia o plano e apesar de detestar a ideia, entendia a nossa necessidade, ainda assim, custava em minha alma ligar para ela naquela noite, como fiz em todas as outras desde que desembarquei em São Paulo e comunicar que era pra valer. Aquela era a noite que definiria tudo.
Respirei fundo. Trêmula, peguei o aparelho, mas nem sequer cheguei a buscar o contato. Meu celular tocou naquele exato instante, sobressaltando-me ao verificar o nome da minha mãe na tela. Ela nunca ligava. Nunca. O tremor aumentou, porém, ao invés de me acovardar como fiz antes, eu me deixei dominar pela urgência.
— Mãe, o que aconteceu?
— Heidi... — ela respirou antes de continuar, o que deixava claro para mim a gravidade da situação.
— O que aconteceu?
— É a Ayla — ela disse, de repente, sem gravidade na voz.
Contudo eu sabia que aquela era a sua maneira de agir. Minha mãe era prática. Quando todos surtavam, ela se mantinha calma para ser o suporte necessário. Naquele momento, no entanto, eu podia sentir o esforço que ela fazia para falar sem causar o caos.
— Ela começou a engasgar, até mesmo com água — narrou. Fechei os olhos e me concentrei em sua voz.
Era o tempo, como sempre, correndo contra nós, nos esmagando, gritando em meu ouvido que eu precisava ser mais, me doar mais, me sacrificar mais, ou ele levaria minha menina.
— Liguei para o Dr. Ezequiel. Estamos em Santa Catarina.
— Droga — sussurrei. — Como ela está? O que o Dr. Ezequiel disse?
— Ela está bem. Fizemos alguns exames.
— Mãe, o que ele disse?
— Que precisa de exames mais conclusivos, mas prescreveu a medicação para o início do tratamento, Heidi.
— Início — sussurrei outra vez.
O que há um mês era ainda uma hipótese, tornava-se uma realidade que nos jogaria em uma grande, cansativa e talvez sem sucesso, corrida.
— Sim — ela sussurrou também, um leve e quase imperceptível lamento em seu tom de voz. — Parece que começou.
— Ele disse quanto tempo temos ou de que maneira será o progresso da doença?
— Não. Ele disse que precisamos de exames mais conclusivos.
— Tudo bem.
Eu me encarei no espelho, desta vez sem o medo, mas com uma determinação que me assustava.
VOCÊ ESTÁ LENDO
JEAN KUHN - A REDENÇÃO
RomanceNo livro Noah Moretti - O CEO que me protegeu os leitores conheceram o personagem Jean Kuhn. Agora terão a oportunidade de adentrar no perigoso, instigante, apaixonante e quente universo desse homem tão bruto quanto cheio de segredos. Vocês estão pr...
