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HEIDI

— Heidi? — a cliente chamou como se lesse o meu nome na plaquinha de identificação presa em minha farda e se surpreendesse. — É você mesmo.

Ela afirmou, não perguntou, o que me obrigou a levantar o rosto e encará-la. À princípio observei o rosto bonito, bem maquiado, emoldurado por fios sedosos e hidratados. Tudo na mulher indicava dinheiro. Depois, quando ela sorriu e a imagem de cliente nível superior caiu, eu a reconheci.

— Nilda?

— Shiii! — ela disse com um riso. — Agora é Rebeca.

— Rebeca — repeti com um sorriso.

A troca de nome não me surpreendia. Eu mesma vivi oito meses como Jade e só voltei a ser Heidi porque minha mãe insistia em me chamar assim, além do mais, por causa do trabalho e dos bebês, eu usava meus documentos o tempo todo, logo, ninguém conhecia Jade e eu voltava a ser a jovem Heidi, só que não mais boba e menos ainda apaixonada.

— Nem acredito que é você mesma — ela comentou com alegria. — Faz quanto tempo? Três anos?

— Hum! Acho que sim.

Nilda, ou Rebeca, estudou comigo. Nunca foi boa aluna, no entanto, eu não podia julgá-la. Finalizei meus estudos porque minha mãe exigia, porém, convivendo entre os homens da família Kuhn, respirando aquele universo, o estudo era o que menos importava para mim.

Fomos amigas até concluirmos o período escolar e ela decidir que daria um jeito na vida, mas não seria uma garota qualquer. Sonhava em ser modelo. Era bonita o suficiente para isso, entretanto, os pais não queriam, então, assim que encontrou a oportunidade, Nilda, ou Rebeca, fugiu. Desde então eu não sabia mais nada sobre ela.

— Como você está? — ela perguntou, os olhos outra vez na plaquinha com o meu nome, como se não acreditasse que eu estivesse ali, naquela vida perdida em Pelotas, como atendente de uma cafeteria.

— Estou bem e você?

— Estou ótima. Eu vim... visitar uma empresa. Na verdade, meu namorado veio, e eu só o acompanho. Tem tempo para um café?

Olhei para os lados apenas para me certificar de que sim, eu poderia sentar com Rebeca e conversar um pouco. Naquele horário ninguém subia na cafeteria, o shopping tinha pouco movimento, em especial, dentro da livraria. Logo, sentar com uma amiga e deixar um pouco dos meus problemas de lado seria uma ótima opção.

— Claro. O que você quer? Faça seu pedido que eu levo para você e conversamos.

Rebeca escolheu um café coado, simples, sem açúcar ou adoçante e rejeitou o sequilho que oferecíamos para tirar o amargo. Não escolheu nada para comer. Ela buscou a mesa mais afastada, ainda que todas as outras estivessem vazias. Preparei o café com o pequeno coador que dava toda a elegância ao processo e levei até a mesa.

— Você está ótima — eu disse. — Conte-me uma coisa boa, pelo amor de Deus! Diga que seguiu a carreira de modelo e que hoje vive o que sempre sonhou.

Ela me deu um sorriso estranho, verteu água fervente do pequeno bule sobre o pó no coador e aguardou.

— Segui a carreira de modelo — confirmou com simplicidade. — E tenho um namorado que cuida bem de mim.

— Uma maravilha ouvir notícias boas de vez em quando. — Relaxei na cadeira.

— E você trabalha aqui.

— Eu desfilo em alguns dias da semana — revelei.

— Sério? Nunca imaginei que quisesse ser modelo.

JEAN KUHN - A REDENÇÃOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora