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HEIDI DOIS MESES DEPOIS

— Perfeita, Heidi!

Dona Lu Pires, a proprietária da empresa de exposição exclusiva de roupas para alta sociedade, me elogiou assim que apareci nos bastidores.

Naquela manhã, teríamos três desfiles para lojistas diferentes. Cada modelo apresentaria duas trocas de roupas, mas Dona Lu Pires fazia questão que eu desfilasse mais dois conjuntos, ou seja, eu trabalhava o dobro e ganhava o mesmo. Ainda assim, eu me esforçava ao máximo para manter o melhor emprego que consegui em Pelotas.

Aquela empresa era tão exclusiva que vinha gente de todo o Brasil para garantir as peças em suas lojas. Porém, não era todo dia que eu tinha trabalho, logo, nos dias em que não havia desfile, eu servia café em uma livraria charmosa no melhor shopping do local.

Os dois salários juntos pagavam as despesas dos bebês e sobrava para juntar para o remédio de Ayla, contudo, eu não estava nem perto do valor total. Para ser honesta, nem se o corpo dela suportasse dez vezes mais do que o tempo determinado pelo médico, eu juntaria aquele valor.

E todos os dias eu sentia o mesmo medo, a mesma dor e o mesmo desespero. Ayla era quieta, diferente de Lorenzzo, mas a pediatra garantia que isso era normal. Fazíamos exames regulares e nada apontava para o início do fim. Ainda assim, eu não tinha paz. Dormia e acordava fazendo contas, planos, buscando soluções.

Minha mãe fazia rifas semanais e todo o valor era enviado para a poupança. Também criamos uma página de doação, divulgamos como conseguimos e pedimos ajuda de todas as formas, inclusive entramos com um pedido judicial para que o governo liberasse logo o remédio. No entanto, a verdade era que Ayla não se encaixava como urgência. Aos dois meses, a minha filha era apenas uma criança quieta. Apesar do diagnóstico, a doença não se manifestava, e isso fazia com que o governo entendesse que valia esperar.

E, lógico, eles não diriam isso. A alegação era que todos os anos de cinquenta a sessenta bebês nasciam com A.M.E., ou seja, a lista era grande, e com crianças em situação pior, necessitando com mais urgência da medicação tão cara.

Dona Bertha, minha mãe, não me pressionava, mas tivemos aquela conversa na nossa primeira semana em Pelotas. Ela foi direto ao assunto.

— E o pai dos bebês?

— Desapareceu no mundo — eu comentei sem olhá-la. As mãos atentas na troca de fraldas e o pensamento em seu modo bloqueio total. Eu não podia lembrar dele. Pensar nele.

— Heidi, há uma chance de...

— Ele desapareceu, já falei. Além do mais... era pobre. Não contribuiria em nada.

Ela deixou o assunto de lado, mas eu sabia que nada enganava Dona Bertha. Quando Jean me beijou a primeira vez, quando me levou para a sua cama, ela me deu um tapa no rosto no dia seguinte. Perguntou se eu era idiota, se não conhecia o que acontecia com as mulheres daquela família, se eu queria me envolver naquele mundo.

Porém, aos dezenove anos, eu era uma idiota. E depois virei uma idiota apaixonada. Ela sabia no que daria aquilo, eu que não quis escutar. Logo, não havia motivo para voltarmos àquele mundo. Conseguiríamos a medicação, Ayla ficaria bem e seguiríamos com as nossas vidas.

— Amanhã teremos um evento... — Dona Lu Pires avisou, daquele jeito dela, baixo, segredando o convite. Eu sorri com educação.

— Obrigada, Dona Lu — eu disse mais uma vez, como sempre fazia quando ela tentava me introduzir naquele mundo. — Mas eu preciso cuidar dos meus filhos.

JEAN KUHN - A REDENÇÃOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora