Carl Grimes

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Tropeço e caio no chão, o impacto arrancando o ar dos meus pulmões. Antes que eu consiga pensar, o zumbi já está em cima de mim, o cheiro pútrido invadindo meu nariz enquanto ele tenta morder meu rosto.

Desesperada, meus olhos varrem o chão, minha faca está longe, caída junto da mochila. Seguro o morto-vivo pelos ombros, meus braços tremendo com o esforço, enquanto a mandíbula dele se abre e fecha a centímetros da minha pele.

— Merda... — sussurro, esticando o braço o máximo que consigo.

Meus dedos finalmente tocam o cabo da faca. Agarro com força e, num movimento rápido, empurro o zumbi para o lado, rolando por cima da terra. Levanto-me num pulo e enterro a lâmina na cabeça dele com toda a força que ainda tenho.

O corpo cai imóvel.

Meu peito sobe e desce, acelerado. Puxo a faca, o sangue escorrendo dela, e me deixo desabar no chão, sentindo a exaustão me dominar como uma onda pesada.

Minha irmã morreu há tão pouco tempo... e desde então o mundo parece ainda mais silencioso, mais cruel. Sempre foi nós duas contra tudo, contra os mortos, contra os vivos, contra o mundo. Agora sou só eu.

E eu nem sei como continuar.

Um som corta meus pensamentos. Passos leves, mas próximos.

Endireito-me imediatamente, segurando a faca. Meu coração bate tão alto que parece ecoar no campo aberto.

Mas... não é um zumbi.

É um garoto.

Alto, branco, cabelos castanhos longos caindo sobre o rosto. Um curativo cobre o olho direito. No esquerdo, um azul tão vivo que chega a gelar.

Ele me encara com a frieza de alguém que já perdeu demais, e aponta uma pistola direto para o meu peito.

Arregalo os olhos.

— Quem é você? — ele pergunta, a voz baixa e desconfiada.

Engulo seco, mas não recuo.

— Quem é você? — pergunto de volta, dando ênfase, sem abaixar a faca.

Ele suspira, impaciente.

— Eu perguntei primeiro.

— (Seu nome). — respondo. — Agora você.

— Carl. Carl Grimes.

— Ótimo, Carl. — digo, levantando devagar minha mochila do chão e guardando a faca. — Agora que já sabemos o nome um do outro... o que acha de abaixar essa arma? Fico meio... desconfortável com ela apontada pra mim.

Ele hesita. O dedo dele não está no gatilho, mas quase.

— Eu não te conheço. — responde, a voz firme — Não sei se posso confiar em você.

Coloco a mão no peito, teatral.

— Eu sou confiável, tá? Se eu quisesse te machucar, já teria feito isso.

Ele finalmente abaixa a arma, muito devagar, mas não tira o olho de mim.

— O que você faz por aqui sozinha? — pergunta enquanto guarda a pistola na cintura.

— Procurando comida. — dou de ombros. — E você? O que faz aqui, no meio do nada?

— Estava lendo. — Ele aponta com o queixo para a direção de onde veio. — Mas já estou indo embora.

Ele vira as costas, como se nossa conversa tivesse acabado.

Mas ele está limpo. Camiseta lavada, cabelo sem sujeira, rosto recém-lavado. Ele tem onde ficar. Ele deve ter uma comunidade.

— Espera... — alcanço ele e toco seu ombro.

Ele para. Quando ele vira, percebo o quão perto estamos e o quanto ele é bonito. O azul do olho dele parece ainda mais intenso de perto.

— Você tem um lugar pra ficar? Uma comunidade? Um grupo?

Ele levanta uma sobrancelha.

— Eu que te pergunto. — Seu olhar desce para minha mão no ombro dele, e eu tiro rapidamente. — Você tem?

Mordo o lábio. Não sei se devo contar a verdade... mas ele parece honesto. Exausto como eu. Humano.

— Eu tinha uma casa escondida. — digo, sentindo meu peito apertar. — Mas minha irmã morreu e... — faço uma pausa, lutando contra as lágrimas. — E eu não consegui ficar lá.

O rosto dele suaviza, uma sombra de tristeza passando por ele como se entendesse perfeitamente.

— Sinto muito. — Ele coloca a mão no meu ombro desta vez. É firme, cálida. — Perder alguém assim... eu sei como é.

Ele respira fundo, como se estivesse decidindo algo importante.

— Eu faço parte de uma comunidade. — confessa, baixando a voz. — Alexandria.

Meu coração quase para. Uma comunidade. Muros. Pessoas. Comida. Segurança.

— Se quiser... — Carl continua, me olhando nos olhos. — Posso te levar até lá.

— Por quê? — pergunto, surpresa. — Você nem me conhece.

— Porque alguém já fez isso por mim um dia. — Ele dá um pequeno sorriso torto, quase imperceptível. — E porque você não parece perigosa. Só... assustada.

Ele me estende a mão.

E, por um segundo, pela primeira vez desde que minha irmã se foi... sinto esperança.

𝗂𝗆𝖺𝗀𝗂𝗇𝖾𝗌 𝖽𝗂𝗏𝖾𝗋𝗌𝗈𝗌Onde histórias criam vida. Descubra agora