Bebo minha terceira xícara de café e tento me concentrar, encarando a página completamente em branco do meu caderno. A folha parece zombar de mim.
Eu tenho uma ideia clara e vívida pulsando na minha cabeça, mas na hora de transformar em palavras... não vem nada em mente.
Pensei que vir até uma cafeteria, ver pessoas, respirar um ar diferente e beber café demais fosse fazer alguma faísca acender. Mas pensei errado.
Suspiro e apoio o queixo na mão enquanto observo o ambiente. A cafeteria está quase vazia, mais silenciosa do que deveria estar em uma tarde dessas.
A atendente, encostada no balcão, parece à beira de dormir de tédio. Um casal de idosos divide um pedaço de bolo, conversando baixinho, como se guardassem um segredo antigo só deles. Na mesa ao lado, uma garota mais ou menos da minha idade desliza o dedo pela tela do celular, totalmente imersa em outro mundo.
Então a porta se abre, quebrando o silêncio com o som do sino pendurado nela. Olho automaticamente.
Um homem alto entra, o vento frio da rua entrando junto com ele. Ele tem cabelo preto, bagunçado de um jeito meio elegante, e por um segundo algo nele me parece familiar.
Ele vai até o balcão, a atendente se endireita, e graças ao silêncio da cafeteria, ouço quando ele pede um chá. Chá. Um homem que escolhe chá num lugar que cheira a café por todos os lados chama a atenção.
Só quando ele vira e nossos olhos se encontram é que eu reconheço. Joe.
Joe, da livraria. O cara que me atendeu semana passada quando comprei um livro para minha sobrinha. O cara que foi tão gentil comigo e que, admito, achei absurdamente bonito, mas engoli essa informação.
Quando ele me reconhece também, ergo a mão e aceno, sorrindo. Ele devolve o sorriso, aquele mesmo sorriso tranquilo que me agradou no dia da livraria.
Meu caderno continua completamente em branco, como sempre, então o deixo na mesa com minhas coisas e caminho até ele, passando a mão no meu vestido na esperança inútil de desamassar o tecido.
— Que coincidência te ver de novo! — digo, tentando soar natural embora meu coração tenha resolvido acelerar de leve.
— Sim, que coincidência! — Ele sorri, aquele sorriso calmo que parece combinar com livrarias silenciosas. — Sua sobrinha gostou do livro?
Ele lembrar disso faz uma onda de calor agradável subir pelo meu peito.
— Ah, sim. Ela amou! Me deu um abraço tão apertado que eu achei que fosse morrer sufocada. — faço graça, e ele ri. — Sério, obrigada pela indicação.
— De nada — responde, simples e doce. — Eu amo ajudar com indicações.
— Eu estava pensando em voltar lá. — digo, e quando ele franze as sobrancelhas, completo rapidamente: — Na livraria.
— Ah — ele relaxa e ri baixo.
— Eu queria comprar um livro dessa vez... para mim. — o que não digo é: "e também queria te ver de novo", mas isso fica guardado comigo.
— Será uma honra te receber lá novamente. — diz ele. Nesse momento, a atendente chega e entrega o chá a Joe. Ele agradece com um sorriso discreto — E se quiser indicações de novo... pode me chamar.
Meu estômago parece dar uma pirueta pequena.
— Ótimo, vou chamar. — passo a mão pelo cabelo, sentindo o nervosismo apertar meu peito. — Eu... — respiro fundo, como se estivesse prestes a saltar num lago gelado — Eu estava sentada naquela mesa. Tentando escrever. Mas a ideia simplesmente não sai. Pensei... talvez... você queira sentar comigo? Só conversar um pouco ou algo assim.
Por um instante, vejo algo brilhar nos olhos dele. Surpresa, talvez interesse? Mas logo ele suspira, passando a mão pelo rosto num gesto que parece de frustração consigo mesmo.
— Eu adoraria. De verdade. — diz, e soa sincero demais. — Mas eu tenho coisas pra fazer...
Sinto minhas bochechas queimarem, e tento não transparecer muito.
— Ah, tudo bem. — forço um sorriso enquanto ajeito o vestido com dedos trêmulos.
— Eu adoraria ficar, sério. — ele repete, como se não quisesse que eu pensasse que era desculpa. — Só não posso hoje. Sinto muito.
— Tudo bem — murmuro, embora minha voz saia um pouco mais tímida do que eu gostaria.
Ele olha o relógio na parede, depois volta os olhos para mim.
— Mas passa lá na livraria um dia desses. — Ele diz isso de um jeito que parece convite de verdade, não formalidade. — Eu iria adorar te ver de novo.
Meu coração dá outra pequena batida forte.
— Eu... vou, sim. — digo.
— Tchau, (seu nome). Foi muito bom te ver. — Ele sorri antes de sair, o vapor do chá subindo no copo enquanto ele atravessa a cafeteria e desaparece pela porta.
Fico parada por um momento, assistindo-o ir embora, até finalmente suspirar e voltar para minha mesa. O caderno ainda está em branco. Mas agora... talvez a inspiração tenha finalmente chegado.
E talvez tenha cabelos pretos e goste de chá.
OBS:
Não foi uma coincidência
ele ter ido lá.
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𝗂𝗆𝖺𝗀𝗂𝗇𝖾𝗌 𝖽𝗂𝗏𝖾𝗋𝗌𝗈𝗌
FanfictionOnde faço imagines de celebridades e personagens fictícios!
