Flores de cerejeira

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Sakura só percebeu a passagem dos dias quando sentiu, pela primeira vez em semanas, o cheiro de grama molhada. Era um aroma aconchegante e convidativo, como se a brisa estivesse lhe chamando para uma caminhada afora. A neve lá fora ainda marcava sua presença, mas aos poucos abria espaço para que uma tímida cor verde se manifestasse na terra.

Verde era uma de suas cores favoritas por um motivo um tanto ingênuo: tratava-se da cor de sua terra natal. Isso porque Almenia era conhecida por sua natureza firme e marcante, pelas flores coloridas e um belíssimo céu azul, tal qual o de uma pintura.

Por esse motivo, a princesa permitiu-se apreciar aquele cheiro agradável por algum tempo. Ainda que de longe e pela janela, também foi capaz de admirar as pessoas comuns saindo de suas casas pela manhã, montando suas vendas, cumprimentando uns aos outros e permitindo que suas crianças brincassem entre as árvores. De alguma forma, Sakura não conseguia se ressentir com aquele reino, ainda que em meio a sua situação.

Era como se o aroma da grama molhada testemunhasse o quanto os seres humanos são similares em todos os lugares. Sentem o mesmo cheiro, compartilham angústias, rotinas e sentimentos em qualquer reino, independente do rei a quem servem. Saber disso foi o que lhe trouxe algum tipo de paz para enfrentar sua tristeza e culpa em seu peito.

Apesar dos pesares, lá estava ela, respirando mais um dia. Na verdade, alguns pequenos detalhes eram os responsáveis por mantê-la sã naquele período angustiante. Um dos tais detalhes era o abraço cuidadoso que recebia de Sasuke todas as manhãs quando acordavam. No entanto, naquele dia em específico, Sakura tinha sido a pessoa a acordar primeiro. Qual seria o protocolo para esse tipo de situação, então?

Sentou-se no canto da cama, observando com cuidado o marido que dormia como uma criança. Pensou um pouquinho antes de se inclinar até o rosto dele, depositando um beijo rápido e singelo em sua bochecha. Os olhos dele se mexeram levemente após a ação, como se ameaçasse acordar. Temendo interromper um sono tão tranquilo quanto aquele, a rosada se afastou.

O problema é que era tarde demais. Enquanto se virava para sair da cama com cautela, sentiu dois braços rodeando sua cintura e puxando-lhe para trás sem qualquer tipo de pudor. Foi quase como uma injustiça, visto que Sasuke era muito mais forte que ela.

- Onde pensa que vai? - Ele perguntou com o cabelo amassado e os olhos sonolentos.

- Eu queria caminhar um pouco. - A princesa afirmou e seu marido sorriu. Era bom vê-la começando a se sentir melhor, pelo menos o suficiente para sair do quarto depois de tanto tempo.

- Agora? Ou podemos nos atrasar? - Colocou o rosto no pescoço da mulher, beijando a pele macia. Havia acordado surpreendentemente rápido.

- Hm, por que suas bochechas estão vermelhas? - Ela provocou.

- Você me gera sensações esquisitas, Sakura. - Brincou com uma das mexas dos cabelos róseos, sorrindo. - É bom te ver assim. - A segurou mais firmemente.

Ela sorriu, uma ação rara para si nos últimos tempos. Os únicos momentos em que sentia vontade de sorrir era quando tinha aqueles lindos olhos negros ao seu lado, então iria aproveitar a profundidade daquele olhar para lhe acalmar os sentidos.

- Eu não me sinto confortável em termos uma platéia.

Sasuke virou o rosto para trás, lentamente procurando a tal platéia. Como diria o ditado famoso, o feitiço se virava contra o feiticeiro. Isso porque os ditos "presentes" que dera a Sakura semanas atrás estavam sentados ali, os observando com pupilas grandes e curiosas, abanando os rabinhos e os impedindo de aprofundarem-se nas carícias.

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