— Tem alguém aí?
Por uma fração de segundo, achei que ela estivesse bem atrás de mim. Me virei de presa e não estava. Saí dali tão rápido que deixei a troneira aberta. Me enfiei no primeiro lugar que vi pela frente e rezei para que ela não resolvesse vasculhar atrás das caixas de taças, utensílios e travessas que ficavam na despensa.
— Oi? — Ela chamou novamente. Ouvi a troneira sendo fechada, ouvi mais alguns sons que indicavam que ela estava olhando o lugar. Por Deus! Que ela não venha até aqui.
Ela abriu a porta da despensa, acendeu as luzes, olhou, em volta e saiu. Soltei o ar de alívio.
Puta que pariu, pela segunda vez em menos de 24h eu quase havia sido descoberto, esperei ela voltar para seu quarto e voltei correndo para o porão.
Mas que merda, talvez estivesse chegando a hora de sair dali e ir para outro lugar, precisava traçar um plano. Teria que conseguir documentos novos e talvez sair do país. Me acostumara a ficar ali, a casa de Madison era grande e luxuosa, nada muito exagerado, porém mostrava que eles tinham dinheiro, ficava localizada em um bairro de classe média alta em Georgetown. Era fácil viver ali.
Os vizinhos não a importunavam, não tinha amigos ou namorado apesar de ser bonita. Não tinha mais família e costumava passar a maioria do tempo tão triste que nem prestava atenção nas outras coisas, nunca pensou em verificava as câmeras de segurança, por exemplo, apesar de toda noite eu me certificar de apagar as imagens onde aparecia.
Estava agitado, acho que a adrenalina de quase ser pego me deixou excitado demais para dormir, resolvi subir até a casa novamente, era pouco mais que 2 da manhã e eu estava precisando respirar um pouco de ar fresco. Fui em direção ao escritório de Neil. Ele tinha um pequeno bar ali com vários tipos de bebidas, das mais caras, acho que um pouco de álcool poderia me ajudar a relaxar. Avistei uma garrafa de whisky Macallan 1926, aquela coisinha custava milhares de dólares. Eu não poderia deixar passar a oportunidade.
Peguei a garrafa, um copo, um isqueiro e um charuto que ficavam em uma caixinha de madeira no bar. Talvez essa fosse minha despedida, Madison não se importaria se eu aproveitasse um pouco, né? Tenho certeza de que Neil não se importaria.
Fui até o terraço, a vista dali era incrível, lá de cima dava para ver toda a orla marítima de Georgetown. Havia um telescópio instalado na mureta para observar as estrelas. Tinha também uma espécie de lounge com alguns sofás e uma mesinha de centro. Me deitei no sofá, acendi meu charuto e beberiquei meu whisky. Aquela noite acabara de subir de nível. Ali era tão silencioso, sentirei falta daqui.
Dei mais um trago no charuto, sentindo o gosto da fumaça em minha boca. Era impressionante como algumas pessoas como aquelas tinham acesso a esse tipo de coisa, enquanto o resto de nós não temos nem o básico como o direito a um tratamento de saúde digno.
O tratamento da minha mãe deixou uma dívida altíssima, me lembro que nas últimas visitas que fiz, uma das suas preocupações era sobre como eu iria fazer para quitá-la. Bastou uma invasãozinha ao sistema do hospital para eu ter informações privilegiadas. Fiz alterações no sistema para a dívidas médicas constarem como pagas e, pronto, não havia mais dívida.
Pensar em minha mãe me deixava triste para caralho. Meu sonho sempre foi dar uma vida boa para ela, mas ela se foi antes de eu conseguir.
Ela sempre fez tudo por mim, quando o babaca do meu pai foi embora, depois que nasci ela se desdobrou para conseguir nos sustentar.
Trabalhava como camareira em um hotel de luxo pela manhã e lavava pratos em um restaurante chique à noite. Cheguei a trabalhar como entregador nesse restaurante por um tempo quando era moleque, foi assim que consegui juntar dinheiro para comprar meu primeiro computador.
Aquelas lembranças estavam me deixando nostálgico e sonolento, ou talvez fosse o whisky? Estava na hora de voltar para dentro.
Peguei a garrafa, o copo e fui para o interior da casa, passei novamente pelo escritório, coloquei a garrafa e o copo no lugar, me certificando de estarem o mais próximo da posição em que estavam antes. Sai fechando a porta o mais delicadamente possível quando escuto o grito tão aterrorizante que fez meus pelos arrepiarem.
— Porra! — Sussurrei.
Era Madison, ela sempre tinha pesadelos, mas aquele grito era diferente, parecia que ela estava sendo atacada ou algo do tipo. Será que ela estava bem? Talvez eu devesse dar uma olhada nela só para me certificar.
Eu já estava com a mão na maçaneta da porta do quarto dela, quando me ocorreu que aquilo era uma péssima ideia. Eu só podia estar bêbado. Se eu abrisse a porta e ela estivesse acordada, o que eu diria? — Oi, eu sou o cara que está morando escondido no seu porão nos últimos 8 meses. Escutei você gritar e vim ver se estava bem! Estupido.
Virei a costa e voltei para o porão.
Eu precisava sair daquela casa o mais rápido possível.
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I'll Stand By You
RomanceMadison é uma jovem universitária que tem seus pais brutalmente assassinados no que parecia ser um atentado. Depois disso ela se vê mergulhada em um pesadelo. A polícia parece não ter novas pistas, mas ela não desiste de descobrir o que aconteceu. A...