Capítulo 5

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Atlas estava no quarto, ajeitando o uniforme escolar na frente do espelho. Ele se concentrava em arrumar a gravata, algo que já fazia com a prática de todo dia, mas que nem sempre saía com precisão. Essa já era sua terceira tentativa frustrada nessa manhã.

Quando estava prestes a fechar o último botão da camisa, um som vindo do andar de baixo chamou sua atenção. Eram vozes, e Atlas franziu a testa, tentando entender o que estavam dizendo.

Ele logo reconheceu a voz da mãe, soando animada, como se falasse com um velho grande amigo. Isso despertou sua curiosidade - já que não havia mais ninguém em casa - e, com um pressentimento estranho, Atlas desceu as escadas devagar, tentando não fazer barulho enquanto cada degrau rangia levemente sob seus pés.

Quando ele chegou no corredor que levava à sala de estar, a curiosidade virou uma irritação crescente. Lá estava sua mãe, sentada na mesa, rindo de algo que alguém que ele preferia e tentava relutantemente evitar, havia dito. Austin estava totalmente à vontade, jogado na cadeira, o que só aumentava a irritação de Atlas.

O cabeça de fósforo se deliciava com o café da manhã que sua mãe havia preparado pra ele. Comendo do seu cereal e das suas panquecas.

Tudo o que ele queria era Austin bem longe da sua casa e, especialmente, da sua família.

— Ah, Atlas! — exclamou sua mãe ao vê-lo parado na porta, tentando esconder seu desconforto com um sorriso forçado. — Olha quem veio te buscar para a aula! Não é gentil da parte dele?

Austin sorriu para Atlas, um sorriso que parecia muito mais calculado do que amigável aos olhos de Atlas.

Ele odiava aquele sorriso.

— Achei que podíamos ir juntos hoje — disse Austin, com uma voz que tentava soar casual, mas que para o moreno parecia cheia de intenções escondidas.

Atlas apertou os lábios, sentindo um nó se formar na sua garganta. O desconforto não vinha apenas do fato de que Austin estava na sua casa, falando com sua mãe como se fossem grandes amigos, mas também da sensação de invasão, de ver alguém que ele não gostava sendo tratado como se fosse parte da família.

— Não precisava ter vindo — respondeu, tentando manter a voz neutra, mas o tom de desprezo era inegável.

Sua mãe, sem perceber o desconforto do filho, continuou sorrindo, estendendo a mão para pegar a mochila de Atlas.

— Vamos, não faça seu amigo esperar. Vocês dois ficam tão bem juntos! — disse ela, sem notar a faísca de irritação que passou pelos olhos do filho.

Atlas pegou a mochila das mãos da mãe, evitando olhar para Austin. O garoto odiava a ideia de ter que passar o caminho inteiro até a escola ao lado de alguém que ele não suportava, mas sabia que não havia como evitar agora.

Sua mãe certamente acharia falta de educação.

Além disso, ela já estava completamente rendida pelo seu jeitinho infame.

— Vamos, então — murmurou Atlas, já se dirigindo à porta, deixando claro que não queria prolongar a situação.

Austin seguiu atrás, ainda com aquele sorriso irritante, enquanto a mãe de Atlas os acompanhava até a porta, acenando animadamente. Quando eles finalmente saíram, o som da porta se fechando atrás deles foi um alívio pequeno, mas real para Atlas.

O caminho até a escola seria longo, mas o silêncio constrangedor era, pelo menos, melhor do que a falsa camaradagem que o água de salsicha parecia determinado a impor.

Atlas manteve os olhos fixos na frente, prometendo a si mesmo que, assim que chegassem à escola, se afastaria o mais rápido possível.

— Espera, Atlas. — Austin chamou sua atenção, se encaminhando para uma moita próxima a casa. — Eu trouxe bicicletas.

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